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Por: Davi Garcia

Breaking Bad: Felina [Series Finale]

Série se despede com final grandioso e apoteótico

Breaking Bad 516[com spoilers do FIM da série] E a fascinante história do homem que perde a alma ao construir um império chegou ao fim. Viciante como a devastadora droga que compunha seu universo, Breaking Bad deu adeus com um final catártico e que deixa uma legião de fãs mundo afora mergulhados num sentimento misto de abstinência antecipada e agradecimento pela oportunidade de terem testemunhado uma das grandes séries de todos os tempos. Muito mais emocional que explosivo, “Felina”, escrito e dirigido pelo criador da série, Vince Gilligan, tem como principal mérito o fato de se manter fiel à ideia de fechar o ciclo de um pacato professor que se transforma num verdadeiro Scarface. E foi assim, tão cerebral quanto seu alter ego que um dia bradou ser ele O perigo, que Walter White encontrou uma redenção particular ainda que torta ao (1) agir para dar uma segunda chance para (quase) todos aqueles cujas vidas afetara de forma assombrosa e significativa e (2) assumir de vez que fizera tudo motivado não pela família, mas por seus próprios interesses e que preferia morrer abraçado ao império que criou ao vê-lo associado a outrem.

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Vingança parte 1: Os Schwartz – Criando um clima de suspense crescente desde os primeiros instantes em que aparece dividindo o ambiente com Elliot e Gretchen (Walt sacaria ou não uma arma do bolso para matá-los à queima roupa, podíamos indagar naquele momento), Vince Gilligan brincou com a subversão total de expectativa ao colocar Walt falando sempre com voz baixa e em tom sereno (e nem por isso menos amedrontador) à medida em que dava as instruções de um plano que garantiria um futuro a seus filhos dissociado da sujeira oriunda dos pouco mais de 9 milhões que ele lhes deixava. Além disso, ao fechar aquela sequência no ponto em que o casal fica aterrorizado achando estar sob a mira de assassinos, o criador da série ainda arranjou um jeito de fazer uma última piada de humor negro que garantisse uma despedida curiosa para a dupla Badger e Skinny Pete.

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Vingança parte 2: planejamento e execução – Frio e extremamente calculista, Walt aborda Lydia e Todd sob o falso pretexto de apresentar uma proposta que garantiria uma nova maneira de produzir metanfetamina sem depender de sua principal matéria prima. Com isso, faz-se parecer desesperado e fragilizado, vendendo a seus ex-parceiros a imagem de alguém que poderia e deveria ser facilmente descartado sem qualquer dificuldade.

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E assim, mesmo com todos os riscos inerentes ao engenhoso plano que elaborara, Walt/Heisenberg consegue se vingar de todos que ousaram se apoderar de seu império praticamente numa só cartada ao (1) envenenar Lydia com a ricina (sim, a mesma que o vimos pegando em sua casa abandonada) durante o papo no café e (2) mesmo em desvantagem, manipular Jack (ali com uma blusa roxa, a cor da morte) provocando seu ego ao acusá-lo de mentiroso por ter se associado a Jesse o que fez com que o chefão dos trafinazis cometesse um último erro fatal. Nesse contexto, não deixou de ser curiosa a cena em que Walt não hesita em matar o então algoz sem nem se importar com a chance de retomar o dinheiro que este lhe roubara além de dar a chance a Jesse (que acabara de matar Todd) de ter sua própria vingança contra aquele que um dia fora seu professor, mestre, pai e parceiro.

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“Redenção” e despedida – “Fiz tudo isso por mim. Eu era bom naquilo e me sentia vivo fazendo-o.” Chega de mentiras e dizer que a motivação de toda aquela jornada era sua família. Sim, ela fez parte daquela busca, mas jamais foi o principal catalisador que levou Walt a se render às sombras de Heinsenberg. Walt sempre foi Heinsenberg e o câncer foi apenas a desculpa que faltava para que ele pudesse break really bad. Com isso em mente, que cenas lindas e emocionais foram aquelas que marcaram sua despedida de Skyler (cuja união fora finalmente rompida conforme destacado pela composição da cena) e de seus dois filhos, a pequena Holly e Walter Jr que para sempre carregarão a imagem do monstro que os enganou disfarçado sob a pele do pacato professor (aliás, repararam que a roupa de Walter nessas cenas é praticamente a mesma que ele usa no episódio Piloto?).

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Libertação e o fim de um império – Muito mais do que a certeza de que estava livre, o grito mesclado ao choro que Jesse dá dentro do carro logo após despedir-se de Walt sem dizer nada foi também a catarse final de um personagem que no fim de tudo deve ser enxergado como a grande vítima da história. E se é verdade que jamais poderíamos associá-lo à imagem de um mocinho nato, tampouco poderíamos dissociá-lo do contraditório, mas crível (graças ao soberbo trabalho de Aaron Paul) papel de bússola moral que assumia frente as maiores atrocidades cometidas ou provocadas pela construção do império de Walt/Heisenberg.

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E sobre o homem que sempre fora obcecado pelo controle absoluto e irrestrito de tudo que o cercava, nada mais coerente e plausível do que o vermos finalmente em paz com suas escolhas (ainda que condenáveis, claro) pouco antes de morrer naquele que acabaria sendo o último ato responsável pelo fim definitivo de Walter White (que se rende, tal qual aponta a letra da música, à justiça do eu tive o que mereci) e a consequente e inapelável associação do legado sujo e sangrento deixado pela sombra de Heisenberg  que finalmente o domina quase que por completo antes do fim.

5star

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