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Por: Bruno Carvalho

Exclusivo: pegamos uma carona com Mark Gatiss e falamos de Sherlock, Doctor Who e Game of Thrones!

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No último sábado (15/03), Mark Gatiss, o co-criador, roteirista, ator de Sherlock e também roteirista e produtor de Doctor Who esteve no Brasil para entrevistas, sessões de autógrafos eventos com fãs. Depois de enfrentarmos um problema com a agenda de entrevistas no Rio, onde originalmente falaríamos com ele, o próprio ator e sua assessoria fizeram questão de arrumar um tempo para nos receber em São Paulo, no segundo dia de sua passagem. Para tanto, fomos convidados a encontrá-lo no hotel onde estava hospedado e de lá pegar uma carona até o shopping onde seria realizada a coletiva com a imprensa e o evento com fãs. Era o único horário disponível e não poderia ter sido melhor!

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Logo de início, encontrei-o sozinho no saguão enquanto aguardavamos o transporte para o evento. Me apresentei e ele logo pediu desculpas por não ter conseguido falar conosco no Rio. Quando sua assessora chegou, ela pediu para eu aguardar estarmos no carro para a entrevista, mas Gatiss disse que poderíamos começar ali mesmo. Sentamos em um outro sofá ele inclusive fez questão de me conferir se meu gravador estava ligado para não ter nenhum problema. Sempre gentil, cordial e extremamente atencioso, batemos um papo exclusivo de mais de meia hora e falamos sobre Sherlock, Doctor Who, Peter Capaldi, fãs, The League of Gentleman e um pouco sobre Game of Thrones (série em que ele realizará uma pequena participação).

Leia a íntegra da entrevista a seguir.

Ligado em Série: Olá Mark, muito obrigado por me receber aqui! Trouxe perguntas enviadas por fãs de Sherlock, Doctor Who e também por outros colegas de sites especializados que não tiveram a mesma oportunidade que eu de estar aqui falando com você. Primeiramente, você sabia que Sherlock e Doctor Who faziam tanto sucesso no Brasil?

Mark Gatiss: Bom, agora eu sei, tanto que vim pra cá [risos]! Mas enquanto fazíamos o programa, especialmente Sherlock, que é algo novo e mais recente, eu e Steven [Moffat] não tínhamos a menor ideia de que a série cresceria tanto fora do Reino Unido. Me impressionou a quantidade de fãs no evento ontem no Rio e já estou sabendo que centenas de pessoas estão desde quatro ou cinco da manhã na fila para o evento de hoje aqui. Então, não, não tinha a menor ideia. Outro fato que me surpreendeu bastante foi saber que Sherlock é incrivelmente popular na China e está crescendo muito em outros mercados.

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Ligado em Série: Qual a impressão que você tinha do Brasil e o que mudou logo depois que você chegou? É a sua primeira visita?

Mark Gatiss: Essa é a primeira vez que eu viajo para o hemisfério sul! Eu sabia que o Brasil era um país muito bonito, mas confesso que não tive tempo para conhecer muita coisa. Farei isso amanhã [domingo], quando terei um dia livre. O que mais me impressionou no Rio foi o trânsito. Ficamos horas parados em congestionamentos e me surpreendi com um taxista tocando um cavaquinho enquanto estávamos parados. Mas por todos os lugares que passei, tanto no Rio quanto em São Paulo, fiquei impressionado com as paisagens e com lugares bonitos que vi de relance. Uma cena que me marcou muito foi quando dirigíamos próximo a um canal e vi várias pessoas em jet skis, o pôr-do-sol e montanhas ao fundo. Parecia o set de um filme de James Bond! Então eu estou ansioso para poder explorar mais.

Ligado em Série: A segunda pergunta vem do pessoal do Sherlock Brasil, um blog que se especializa em cobrir exclusivamente a série e são muito dedicados. Eles gostariam de saber sobre os bastidores do primeiro episódio da terceira temporada, The Empty Hearst: as cenas falsas que vocês gravaram para despistar imprensa e da cena de Sherlock e Watson num bar gay que acabaram não entrando no episódio. Os fãs terão a chance de ver estas cenas no DVD?

Mark Gatiss: Bom, elas não estarão no DVD. A cena falsa, na verdade, foi uma coisa bem pequena. Eu tinha um plano bem mais elaborado para fazermos várias e várias cenas de mentira. Uma delas envolvia inclusive um palhaço pendurado no prédio e eu iria chamar algum colega como Ben Wisher ou Tom Hiddleston para vir disfarçado de Benedict [Cumberbatch] só para as pessoas não terem a menor noção do que estava acontecendo, mas no final das contas não tivemos tempo. A única coisa que conseguimos fazer rapidamente foi criar a ideia de queMycroft e Moriarty estariam mancomunados, então Andrew [Scott] e eu gravamos uma cena num hospital onde os personagens se cumprimentavam de uma forma suspeita e de última hora eu disse pra ele: “coloque o casaco do Benedict, porque isso vai ferrar com a cabeça de todo mundo!” [risos]. Talvez a gente mostre em algum lugar, mas não foi nada além disso. Já a tal “cena do bar gay” seria uma pequena parte da sequência cômica em que Sherlock e Watson estão bêbados. Gravamos vários e vários takes dela, mas ela acabou ficando longa demais. Foi uma decisão difícil [cortá-la], porque ficou muito engraçada. Literalmente era Martin e Benedict bêbados como gambás e no fundo da boate dezenas de homens com o corpo pintado, numa grande “rave”. Eram muitos deles e ficou tão longo que pareciam que eles estavam numa despedida de solteiro ou algo do tipo. Vamos tentar mostrar essas cenas em algum momento também, mas no fim não há nada de mais nelas também.

Ligado em Série: Vocês fazem apenas três capítulos por temporada (o que eu acho ótimo) e, até agora, uma temporada a cada dois anos (2010, 2012, 2014). Mas as pessoas estão acostumadas com a forma “norte-americana” de se fazer TV, onde shows estreiam todo ano e toda fórmula que funciona é repetida à exaustão. Por que vocês têm uma abordagem diferente do tradicional?

Mark Gatiss: Ótima pergunta. Esse é um grande problema da televisão hoje. Existem muitas séries brilhantes, mas em muitos casos, quando você vê um episódio você já viu todos! Se deu certo, eles basicamente fazem a mesma coisa repetidamente, reciclando e reciclando o mesmo conteúdo até que o público se enjoe e é exatamente o oposto disso que queremos fazer em Sherlock. Queremos contar histórias buscando evoluir a série sempre que possível. Espero atingir esse objetivo.

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Ligado em Série: A base de fãs de Sherlock cresceu muito ao longo das temporadas, seja pelo boca a boca, por downloads, Netflix etc. Aqui mesmo no Brasil nós não tínhamos acesso oficial à série até pouco tempo atrás, quando ela estourou mundialmente e a BBC a trouxe pra cá. Então essa foi uma produção em que sua base de fãs foi crescendo exponencialmente a cada temporada. O pessoal do Sherlock Brasil também perguntou sobre isso. Com tanta gente assistindo a série agora e com toda a expectativa que o cliffhanger da segunda temporada deixou, você e Steven consideraram as teorias e expectativas dos fãs ao escrever a terceira temporada ou vocês procuram não se influenciar por tudo isso?

Mark Gatiss: Nós sabíamos que haveria uma reação grande do salto de Benedict do prédio, mas não tínhamos absolutamente nenhuma ideia que tomaria a proporção que tomou e o fato de que virou um tópico de discussão global. Nós olhamos várias teorias porque elas estavam em todos os lugares. No YouTube tinha um vídeo bem marcante, de um sujeito fazendo um tipo de palestra universitária com maquetes e tudo mais para explicar sua teoria, então foi tudo muito divertido. Obviamente nós já sabíamos como iríamos explicar o salto quando e onde gravámos, mas como a cena tomou essa proporção nós sabíamos que simplesmente não poderíamos somente “explicá-la”. No fim é o mistério que permanece e não a pergunta original. Então criamos aquela primeira cena absurda do evento para colocar na cara da pessoas a reação de espanto (“eles ficaram loucos?”), mas no fim a nossa explicação era a que havíamos planejado de início.

Ligado em Série: Bom, todo mundo está te perguntando sobre a quarta temporada, quando vem, como será, quem volta (ou não volta)… Eu li que vocês até já tem algo da quinta temporada preparado, mas não quero ficar te bombardeando com essas perguntas. O que, de fato, você pode dizer ao mundo sobre o futuro de Sherlock?

Mark Gatiss: Bom, sobre a quarta temporada todo mundo quer fazer, inclusive a BBC e os atores. Steven e eu já planejamos como ela será e, por conta deste planejamento e do que irá acontecer, também já mapeamos como será a quinta temporada, pois elas serão dependentes narrativamente. Agora só precisamos fazer a agenda de todo mundo se encaixar. Provavelmente seguiremos no cronograma, estimado para 2016 se tudo der certo.

Ligado em Série: Esse é o único impeditivo? Agenda dos envolvidos?

Mark Gatiss: Sim, absolutamente. Prazos e datas. Todo mundo está ocupado com outros projetos e no fim trata-se apenas de conciliar tudo. E para falar a mais pura verdade, Benedict e Martin viraram, merecidamente, grandes astros internacionais. Portanto, fazer ambos pararem por quatro meses de um ano é uma tarefa complicada, mas obviamente – tenha certeza – estamos fazendo o nosso melhor para que aconteça.

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Ligado em Série: Sherlock e Doctor Who, apesar de serem séries dramáticas, possuem fortes raízes com o humor, especialmente o britânico, mais seco e negro. Você como criador e integrante do The League of Gentleman (humorístico que fez enorme sucesso entre 1999 e 2002 na TV inglesa) planeja algum dia retornar de forma integral à comédia?

Mark Gatiss: Olha, para falar a verdade não. O humor representa uma importante parte de Sherlock e Doctor Who e Steven e eu temos um histórico com comédia. As próprias aventuras de Sherlock Holmes nos livros de Arthur Conan Doyle possuem muito mais humor do que outros que já adaptaram suas histórias reconhecem. A nossa versão tem esse humor porque entendemos que é assim que deve ser e porque o público responde muito bem à comédia. Nós tentamos, contudo, por um tom melancólico para contrabalancear e mexer com as emoções da audiência. Nós conseguimos ir de algo muito engraçado para algo muito triste ou sério de forma bem repentina em ambas as séries e isso, para nós, é o melhor dos dois mundos. Minha emoção favorita tanto na comédia como no drama é aquela sensação agridoce, onde algo muito leve e descontraído fica pesado e vice-versa. Conseguimos, com isso, fazer com que o público vá a lugares inesperados em suas emoções. Por isso voltar 100% à comédia é algo que não pretendo. The League of Gentleman foi muito famosa e bem recebida, então eu só faria algo do tipo de novo se tivéssemos a mesma colaboração dos envolvidos à época. Eu fiz uma ou outra coisa envolvendo humor e acabei me arrependendo, pois não estava no mesmo nível [da League]. Estou feliz onde estou agora.

Ligado em Série: E com razão! Bom, recentemente Doctor Who fez o “salto” da TV para as telas de cinema e foi um enorme sucesso. Aqui no Brasil as pessoas foram à caráter como os personagens, exigiram mais salas e o que era para ter sido uma sessão de The Day of the Doctor acabou ficando por semanas em cartaz em algumas salas. Você acha que é possível Sherlock ter uma trajetória semelhante, com algum especial nos cinemas ou coisa do tipo?

Mark Gatiss: Teoricamente sim. Esse é um ponto interessante, porque hoje a linha que separa a TV do cinema é muito embaçada e há muito tempo nos questionam sobre um filme de Doctor Who e Sherlock. Mas se você parar para pensar, se transmitirmos a uma série nos cinemas – especialmente Sherlock – que são pequenos filmes de 90 minutos cada, já temos o “salto” aí. Os episódios são pensados e gravados como pequenos filmes, então eu não vejo por que não Sherlock também fazer este “salto” um dia, ainda mais após o sucesso de The Day of the Doctor.

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Ligado em Série: Para a oitava temporada de Doctor Who, como sabemos, Peter Capaldi vai assumir o comando do personagem principal e logo após o anúncio houve uma discussão sobre como o ator é ligeiramente mais velho do que os outros Doctors recentes e como o público iria receber essa mudança. Qual foi o processo para selecionar o novo Doctor e por que Capaldi?

Mark Gatiss: Bem, ele estava no topo da lista de absolutamente todo mundo! Há cerca de um ano Steven me perguntou quem eu achava que deveria ser o novo Doctor e eu disse que Capaldi deveria assumir. Aí ele disse: “eu também”! Então foi incrível, unânime e todos na produção acharam que foi uma grande e orgânica ideia. Foi perfeito. Pra mim essa questão da idade não deveria ser problema algum, já que o Doctor é o Doctor. Quando eu era mais jovem os atores que interpretavam o personagem tinham idades próximas à de Peter hoje e quando tivemos o primeiro Doctor mais jovem (Tom Baker) é que foi um choque. Agora a história inverteu. Tudo que posso dizer é que não importa a idade do Doctor, mas sim que é o personagem que o mundo inteiro adora. Peter tem muitas qualidades, é um ótimo ator e ele vai interpretar um Doctor menos acessível, mais mal-humorado e intenso. Isso mudará tudo na série, inclusive a relação com Clara (Jenna Coleman). É fascinante porque ela acha que perdeu seu melhor amigo, mas ele ainda está lá. Ele só aparenta diferente. Para ser honesto, se alguém parar de assistir Doctor Who porque o Doctor envelheceu, tenho certeza que muita gente vai começar a assistir por causa disso também.

Ligado em Série: Cobrindo TV há quase 8 anos, posso dizer que nesta “era”, como Alan Sepinwall diz em seu livro The Revolution Was Televised, que foram poucas as vezes que séries de TV geraram tanta comoção entre fãs. Dentre elas temos LOST, Game of Thrones, Doctor Who e Sherlock. E você está, de uma forma ou de outra, em três destas quatro produções que movimentam tantos fãs verdadeiros, que debulham sobre teorias e criam suas próprias artes e materiais derivados. Como você sente sobre isso?

Mark Gatiss: Isso é absolutamente fenomenal. Quando eu era pequeno e assistia a Doctor Who eu comecei a escrever histórias justamente porque gostava do programa. Hoje eu vejo pessoas produzindo novos roteiros por causa de Sherlock, então basicamente esses são os roteiristas de TV do futuro que um dia poderão me contratar quando eu estiver velho e esquecido [risos]! É incrível o que eles produzem. Um dos trabalhos “fan made” mais marcantes foi o vídeo Wholock, que é uma espécie de “crossover” entre Doctor Who e Sherlock, do qual nós não tivemos absolutamente nada a ver. Fizeram tudo com cenas dos dois shows e contaram uma história nova. As pessoas nos pedem tanto um crossover entre as duas séries e esse vídeo é tão bom que digo o crossover já está pronto e eu não poderia estar mais agradecido por isso, porque agora eu simplesmente mando as pessoas assistirem a ele. A reação dos fãs tem sido absolutamente fantástica.

Ligado em Série: Para terminar, o que você pode nos falar sobre seu personagem em Game of Thrones? Você terá participações em outras temporadas, já que Tycho Nestoris é um personagem do livro cinco e a série ainda está no livro três?

Mark Gatiss: Minha participação na série foi muito, muito pequena. Eu interpreto Tycho Nestoris, um banqueiro representante do Banco de Braavos, instituição que é credora dos Lannisters. Não posso revelar muito, até porque foi apenas um dia de gravação e não sei como será a inserção no contexto da história, que é uma produção de escala gigantesca. Não sei se voltarei à série, já que se até os bonzinhos morrem aos montes nas mãos de George R.R. Martin, imagine um banqueiro [risos]!

Ligado em Série: Mark, obrigado por todo o tempo e atenção conosco e por fazer duas das melhores séries da TV mundial hoje. Parabéns por todo o merecido sucesso.

Mark Gatiss: Eu que agradeço o tempo e a dedicação de sites e fãs como você. Nos vemos lá dentro!

A conversa parou logo quando chegamos ao shopping para que Mark pudesse seguir para a coletiva e depois para o evento. Curiosamente, mesmo estando em uma área restrita do shopping, a preocupação com a segurança do ator era enorme. Isso porque – eu não sabia – mais de 600 fãs já estavam aglomerados na livraria. Fui convidado pela assessoria da BBC para acompanhar todo o backstage da chegada. Seguimos por uma área restrita de serviço e entramos por trás da sala de coletiva, onde Mark atendeu a imprensa com a mesma cordialidade e bom humor e depois seguiu para conversar com as centenas de fãs que o esperavam desde cedo:

Abaixo as lembranças deste inesquecível encontro com um dos showrunners mais importantes do nosso tempo.

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