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Por: André Costa

Fancy Brudgom é mais um tiro no pé de Brooklyn Nine-Nine

fancy brugdom

[com spoilers do episódio 1×20] Seria interessante alguém estudar a relação entre a piada inicial de um episódio de sitcom e a qualidade do episódio – caso aconteça, Fancy Brudgom será um grande exemplo de que a relação é diretamente proporcional: iniciando com uma cena tão desprovida de humor que fatalmente o roteiro deve ter sido escrito em linguagem jurídica, o episódio evolui para um monte de cenas aborrecidas e previsíveis, conseguindo sair da lama só em uma ou outra eventual fala de Rosa. Simplesmente não dá pra entender, ainda mais depois de um ótimo episódio como Tactical Assault.

O tropeço já começa na própria trama exibida na piada inicial, que se limita a mostrar Terry, Gina e Amy frustrados com comida. E é basicamente isso, a frustração com a pouca comida, a nada previsível recaída para montantes obscenos de comida e uma eventual piada envolvendo peido (*suspiro*). Estudos científicos não conseguiriam encontrar humor nessa trama, e, toda vez que ela entra em cena, Fancy Brugdom morre um pouquinho – nem mesmo momentos diferentes, como o ataque de Amy a um colega por ter derrubado sua comida, consegue adquirir a intensidade ou exagero necessário para soar remotamente engraçado. É como ver um piloto automático escrevendo algo no piloto automático e depois gravando tudo no piloto automático.

O mesmo acontece com a história envolvendo Jake e Boyle, que se mostra incapaz de desenvolver algo que o espectador não veja acontecendo a quilômetros de distância (sério, alguém imaginava que o policial sairia do provador vestindo um terno comum?) – e o momento em que Jake não percebe que Boyle vai sair correndo logo após dizer “estou pronto” depõe não apenas contra sua capacidade de detetive, mas também contra sua presença no grupo dos animais racionais (aliás, Andy Samberg simplesmente não consegue encontrar o tom aqui, soando sempre forçado e sem carisma). Existe um ou outro momento passável (“até comprei tênis novos“), só que convenhamos, não dá para controlar um incêndio com um vidro de Caladryl.

Menos mal que a personalidade descontrolada de Rosa (ela pode parecer má por fora, mas por dentro é cruel) criou cenas realmente divertidas ao longo do episódio, tanto na interação com Holt (os vários “sinto muito“, “ele escreveu com giz de cera?“) como contracenando com o policial (“aí está, disse outra vez, agora tenho um de crédito e posso fazer o que quiser com você“). Aliás, essa trama mesmo mostra que Brooklyn Nine-Nine pode fugir do óbvio quando quer: no momento em que Rosa diz que está escrevendo uma carta de desculpas, sabemos que na sequência vem algo agressivo, mas a reação é tão desproporcional e imprevisível (“era tão horrível que tive que queimar todo o bloco de notas“) que acaba sendo engraçado.

Infelizmente esse não foi o padrão seguido em Fancy Brudgom, e mesmo o desfecho da rápida e tempestuosa troca de ideias entre Rosa e o policial cai naquele clichê politicamente correto e sonolento. A verdade é que Brooklyn Nine-Nine anda bem instável, investindo sempre em caminhos fáceis e lições de morais batidas, e é de se perguntar se a série não está perdendo o fôlego (já foi renovada para a segunda temporada, e posso apostar que alguma personagem regular nova será apresentada no final da primeira/início da segunda porque é uma forma fácil de dar uma sacudida nas coisas). Espero que não, porque Brooklyn Nine-Nine já conseguiu arrancar muitas gargalhadas sinceras, e, se é para testemunhar a bigbangtheorização da série, melhor que fiquem com poucos mas bons episódios.

1star

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