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Por: Davi Garcia

True Detective: episódio final confirma altíssimo nível da série

True Detective 108

Para quem esperava uma conclusão cheia de reviravoltas mirabolantes ou até sobrenaturais para o caso Dora Lange, o desfecho da investigação e, principalmente, a forma como se deu o embate entre os “mocinhos” da trama e o sujeito que personificou seu vilão, deve ter sido uma decepção. Mas quem tinha essa expectativa, pecou por valorizar demais apenas a resolução do caso iniciado em 1995 e por ignorar totalmente qual era o verdadeiro foco de True Detective: a conflituosa história de parceira entre Rust Cohle e Martin Hart e como aquele caso provocou mudanças irreversíveis nas vidas de ambos.

Sendo assim, ainda que “Form and Void”, capítulo final desta excepcional primeira temporada, tenha tido um quê de série policial convencional na maneira como mostrou a dupla protagonista juntando as peças e pistas derradeiras que revelaram o perturbado Errol Childress como um dos monstros por trás daquela obscura rede de crimes bizarros, o episódio (e o desfecho do caso, claro), deve ser muito mais valorizado pela catarse que provoca em Cohle e Marty do que criticado por qualquer escolha isolada, já que pegar o monstro, era o que menos importava no final das contas.

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Quando escrevi sobre o primeiro episódio da série, aliás, destaquei que muito mais do que o mistério do crime investigado, o cenário e, sobretudo, os protagonistas pareciam ser bem mais importantes e interessantes. Sob essa perspectiva, ao passo em que a ambientação refletia, quer seja pelo estágio de abandono ou pela decadência, o estado de isolamento ao qual Marty e principalmente Cohle se encontravam, o roteiro de Nic Pizzolatto ilustrava a trajetória desses dois personagens, suas crenças (ou falta delas) e contradições, com diálogos riquíssimos que se não eram amparados por frases de efeito elaboradas, conquistavam pelo peso de seus significados e pelas reflexões que fomentavam.

Com isso em mente, apelar para elementos procedurais afim de encerrar o caso no terceiro ato da história colocando as vidas dos dois personagens sob risco real no processo, era apenas a desculpa perfeita que o autor da série precisava para catalisar a cura das feridas que surgiram na relação conflituosa entre aqueles dois homens e também para evidenciar o quanto os dois mudaram em função das experiências que tiveram juntos e que fizeram com que ambos chegassem ao fim dessa história tendo suas verdades e dilemas absolutamente transformados.

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Não é à toa, aliás, que o até então resignado e solitário Marty desaba ao ser visitado no hospital pela ex-mulher e suas duas filhas, já que é naquele momento que ele percebe que, mesmo tendo negligenciado a família por anos em função de um comportamento errático e hipócrita, no fim de tudo, ainda que não mais pudesse recuperar a mesma relação que tiveram lá atrás, eram justamente aquelas mulheres que se importavam com o homem agora mudado pelo sacrifício que se dispusera a abraçar.

E sob outra perspectiva, impossível não se emocionar com o momento de fragilidade extrema que coloca Cohle (na cena que, dentre tantas na série, deveria render todos os prêmios aos quais McConaughey concorrerá pelo papel) encarando o choque de se ver como um ateu extremamente pessimista e pragmático, mas que pela “tragédia” de ter experimentado uma experiência de quase morte, é obrigado a colocar determinadas certezas sob dúvida ao mesmo tempo em que passa a enxergar o que a possibilidade de voltar a viver de fato representa.

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Nesse contexto e fiel ao conceito de seu título, True Detective, mais do que expor ao longo desses belíssimos oito episódios como deve ser de fato o trabalho de um detetive que não aquele de produções presas à tecnologia e sofisticação dos grandes centros, conseguiu mostrar, através da jornada da dupla Cohle e Marty, que o mal presente no silêncio de um lugar tomado por fanatismo, corrupção e decadência, ainda que jamais vencido por completo como constata um dos personagens em dado momento, é “apenas” o outro lado do embate mais antigo do mundo.

E se a escuridão às vezes parece tomar conta de tudo, o questionamento das verdades estabelecidas e a obstinação romântica de alguns pelo que é certo e moral surge como a luz que renova a esperança de que o bem ainda pode ganhar essa guerra. Na ficção e na vida real.

5star

4 respostas para “True Detective: episódio final confirma altíssimo nível da série”

  1. Hellen disse:

    Muito bom, assisti a série e adorei o seu texto. pegou a essencia da série, parabens.
    “E se a escuridão às vezes parece tomar conta de tudo, o questionamento das verdades estabelecidas e a obstinação romântica de alguns pelo que é certo e moral surge como a luz que renova a esperança de que o bem ainda pode ganhar essa guerra. Na ficção e na vida real.” Muito bom mesmo o seu texto.

  2. Maccen II disse:

    Me senti preso em cada episódio mais pelos personagens do que pelo resto da trama. A maior reviravolta veio no fim, quando Rust afirma que Marty estava errado, e que na verdade desde o início era a luz que estava dominando sobre a escuridão. O Rust pessimista pareceu se esvair no ultimo capitulo. Só discordo do texto dizer que o Rust não tinha crença. Todos nós temos. E os que dizem que não têm creem no que dizem. E pra mim, a do Rust era ainda maior do que a do Marty.

  3. Bruno disse:

    Realmente uma aventura acompanhar a temporada inicial de True Detective, os personagens são bastante bem construídos e a história tem começo, meio e fim, ao contrário por ex de bombas como Under The Dome onde a audiência dita o rumo da história.

    Monaghan está ótima como a esposa e só faltou explicar por que Cohle se afastou da namorada médica.

    Em tempo, o que era aquele buraco negro na sequência final do assassino?

  4. Nat disse:

    Decorrente das “visões”que ele tinha decorrente de anos de abuso de drogas e entorpecentes, principalmente nos 4 anos(!) infiltrado como drogado numa gangue de motoqueiros!

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