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Por: Redação Ligado em Série

Crítica | Capitão América 2: O Soldado Invernal

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Após o quebra-pau entre os maiores heróis da Terra e alienígenas feitos por computação gráfica em The Avengers (Os Vingadores), Capitão América, o herói que ensinou às crianças que é legal tomar anabolizante desde que você vista uma bandeira, começa a trabalhar para a S.H.I.E.L.D. na função de terraplanar terroristas. Mas logo um antigo inimigo surge nas entranhas da organização, obrigando o Capitão, a Viúva Negra e um estereótipo de militar patriota a enfrentarem equipes táticas e um cara ameaçador com um braço de metal (se bem que todo mundo com um braço de metal deve ser ameaçador, né?).

Captain America: The Winter Soldier (Capitão América 2: O Soldado Invernal) é mais uma prova de que os filmes da Marvel são feitos como campanhas eleitorais: sem ousadia, sem originalidade, apostando só no que é seguro e comprovado, tentando não provocar ninguém, não chocar ninguém, não fazer nada que incomode, enfim, basicamente passar despercebido coletando notas de dinheiro onde conseguir. Até existe uma tentativa de botar um pouco de orégano, dar aquele temperinho a mais, mas é uma investida tão superficial e preguiçosa que acaba soterrada pela avalanche de sequências inanimadas.

Assim, o grande problema da produção é que ela é menos uma história narrada e mais uma espera para ver quando as coisas vão acontecer. Após a eficiente sequência inicial, o que se segue é quase uma apresentação em PowerPoint das convenções do gênero: a grande corporação por trás de tudo, a personagem que parece morrer (mas veja só, não morreu!), o vilão que se redime no final, o aliado levando tiro no ombro para ter um machucado “sério” (aliás, personagens de filmes de ação hollywoodianos deviam vestir colete à prova de balas só no ombro), o sujeito que conta todo o plano… está tudo lá, amontoado em pouco mais de duas horas de previsibilidade.

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O roteiro, aliás, nada mais é do que aquele menino que termina o dever de casa correndo para poder brincar logo – e sequências como a envolvendo Peggy, que teoricamente teria uma carga emocional maior, soam como um biscoito da sorte filmado graças a diálogos de auto-ajuda do tipo “só podemos fazer o nosso melhor“. Da mesma forma, The Winter Soldier inclui um flashback de última hora cuja importância é capital e que, por não ter sido explorado ao longo do filme, provoca absolutamente nenhum envolvimento na luta entre o Capitão e o Soldado. A Marvel parece esquecer que é preciso fazer o público gostar das personagens, e no filme tudo que eles fazem é correr de um lado para o outro levando tiros no ombro, sendo que nem mesmo as frases de efeito funcionam (deu para perceber aquele “esse é o estilo dela” chegando lá em 2009). Ok, alguns momentos são divertidos (“vim buscar um fóssil” e o caderno de anotações) e outros denotam um ímpeto criativo que jamais se desenvolve (o Capitão levando uma vida comum, o conflito político, a Viúva Negra emulando Edward Snowden, “achei que a punição vinha após o crime“). Mas para cada um deles há dezenas de dramas súbitos e logo descartados (como o da própria Viúva Negra), soluções fáceis (a síndrome de 007 do vilão ao contar todo o plano para os mocinhos) e uma covardia extrema na hora de encarar as consequências dos acontecimentos – principalmente a suposta morte de determinada personagem, que aniquila qualquer tensão do clímax (e provavelmente dos próximos 90 filmes da Marvel).

Anthony e Joe Russo (Community) dirigiram a produção claramente sob efeito daquela canção I Like to Move it, já que mantém a câmera sempre em movimento, mesmo em trocas de diálogos simples (ou talvez são devotos de Michael Bay). E ficam no mais do mesmo, sabe, perseguição de carro com a câmera no nível do chão, travellings de aproximação, etc. A fotografia ligeiramente mais sombria é que confere um pouco de peso dramático às cenas, embora a montagem frenética e a câmera chacoalhando impeçam o público de entender o que está acontecendo nas cenas de ação – o que é uma pena, já que as coreografias são sensacionais. É impressionante como conseguiram tornar o escudo do Capitão não só uma arma de longo alcance, mas também uma ferramenta, fazendo com que o objeto dê uma dinâmica endiabrada às sequências (por exemplo, Rogers usa ele para ricochetear na parede e não perder tempo durante os 100 metros rasos até o terraço). As lutas são sempre no modo sujeito alucinado perde o controle e contam com trocas de sopapos rápidas e que respeitam as características das personagens (o Capitão usa o escudo, o Soldado o braço, o Falcão as asas e a Viúva, hã, a ginástica), além da inteligência (como a cena envolvendo a ponte). Inclusive, é de uma delas que vem o único momento a extrair poucas notas de tensão do filme, quando o  o homem do escudo e o homem que nunca vai precisar de fisioterapia no braço esquerdo se encontram logo após a perseguição, dando início a um intenso quebra-pau desenfreado sem trilha.

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Já os efeitos especiais são excelentes, quase sempre em sintonia com a fotografia do filme (só o braço do Soldado que destoa de vez em quando) e garantindo a diversão no momento em que as naves vitaminadas beijam o chão, já que destruição total é um dos grandes prazeres dos filmes de ação. Enquanto isso, a trilha se mostra correta, exagerando na pieguice aqui e ali, mas mantendo o tom na maior parte do tempo, assim como o elenco, que pouco pode fazer frente a um roteiro tão demente: Chris Evans é carismático e intenso quando necessário, e isso é o que dá para extrair de um super herói com mais estrelas na roupa do que personalidade; Robert Redford confere credibilidade a Alexander Pierce (embora tire credibilidade de seu bom gosto ao aceitar o papel); Anthony Mackie tem boa presença de cena mas não tem espaço pra fazer nada memorável, Sebastian Stan se limita a olhar de baixo para cima como o Soldado Invernal e Samuel L. Jackson passa o tempo todo samueljacksando. Só Scarlett Johansson é que confere uma espontaneidade e naturalidade à Víuva Negra que destoam do corporativismo geral ao redor.

Em determinado momento de Captain America: The Winter Soldier, Pierce mata uma empregada à sangue frio, uma cena filmada de fora do recinto onde mal se vê o corpo da moça partir dessa para uma melhor. De certa forma, isso resume a produção, que evita qualquer risco ou situação que possa incomodar qualquer pessoa de qualquer nacionalidade, investindo em soluções inexplicáveis (a cena em que a Viúva tira a máscara é involuntariamente hilária) e permanecendo dentro da zona de segurança. É o estilo que a Marvel tem adotado ultimamente, o estilo que tem arrecadado centenas de milhões de dólares e produzido filmes esquecíveis. De todos os inimigos enfrentados por Capitão América, Viúva Negra e cia., talvez o mais perigoso seja a preguiça e a acomodação. Mas isso, infelizmente, precisa de mais do que um escudo e uma ginasta sexy para derrotar.

A propósito: o filme possui uma cena durante os créditos e uma após os créditos.

2star

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