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Por: Redação Ligado em Série

Crítica: Noé, de Darren Aronofsky

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Noé é um sujeito pacífico, barbudo (provavelmente o primeiro hipster da história) e descendente de Sete que, através de uma visão, descobre que Deus esqueceu a torneira aberta e toda essa água vai vazar para a Terra e cabe a ele salvar as espécies inocentes do planeta. Para isso, ele precisará enfrentar homens egoístas e mesquinhos, CGIs agressivos, as dúvidas de sua família e conflitos dramáticos pouco desenvolvidos.

A história de Noé é o que há de bíblico e épico: conversas com Deus, criaturas e eventos fantásticos, tsunamis anabolizados, fé, milagre e salvação. Ou seja, claro que o diretor Darren Aronofsky colocou tudo isso em segundo plano, preferindo, ao invés, contar a história de um homem obcecado com uma missão e dos benefícios e contratempos que isso causa – e mesmo que Noah (Noé) não tenha a mesma força emocional de The Wrestler (O Lutador) e Black Swan (Cisne Negro), últimas duas obras do cineasta e que também acompanham protagonistas obcecados, o filme ainda consegue criar um arco dramático intenso e não se afogar em clichês do gênero.

Já no início uma narração em off situa o espectador que aquele é um universo fantástico (no sentido de existirem criaturas que não existem no nosso mundo, como gigantes de pedra e ondas enormes sem surfistas no meio), apresentando de forma eficiente e econômica a trama. E logo Noah situa também seu protagonista como alguém repleto de compaixão e em comunhão com a natureza, dizendo ao filho que não arranque uma flor porque ela pertence àquele lugar e confortando um animal ferido (mas sem soar frágil, até porque aquela barba de motociclista do Hell’s Angels que ele usa faz a pose de bad boy).

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Aliás, no início a família do Noé parece ser a família Disney, sempre unida, bondosa, parando para ajudar os feridos e protestar contra o aumento das passagens de ônibus. Aos poucos, entretanto, a missão do pai barbudo vai pesando sobre eles, seja pela solidão de Cam, a lealdade cega de Naameh e o problema no relacionamento entre Sem e Ila – e é uma pena que Noah não tenha gasto algum tempo estabelecendo essas relações, que já estão meio determinadas quando o filme começa (ou após uma elipse), uma vez que isso enfraquece bastante alguns conflitos dramáticos apresentados depois (aquele momento em que Ila pede que Noé encontre uma esposa para Sem, por exemplo, destoou tanto que pensei que fosse uma cena excluída acidentalmente deixada no filme). É tipo quando você descobre quem foi o campeão mundial de cricket: sabe que aquilo é para ser importante, mas não se envolve com a coisa toda.

Por outro lado, quando o filme decide ser intenso, chove intensidade. Aronofsky não faz beicinho se precisar tornar suas personagens antipáticas, e a produção aos poucos vai fazendo com que a fé de Noé, que o fez aguentar e passar por tantas coisas e construir uma arca megalomaníaca que resistiu ao fim do mundo, se torne também um fardo, uma obsessão. O barbudo perde a noção das coisas, comprometido apenas com a ideia do plano – e é uma mudança gradual, que vai acompanhando a necessidade do protagonista de fortalecer sua crença conforme as dificuldades tentam derrubar ele no chão e roubar seu dinheiro do lanche. Assim, é chocante o momento onde Noé deixa uma garota morrer ou ignora os gritos de centenas de pessoas em prol da “missão”, o que, mesmo que siga a lógica de um plano maior, jamais é mostrado como uma decisão livre de culpa ou de responsabilidade. Dessa forma, o barbudo natureba que não queria nem arrancar uma flor do chão acaba, pela mesma força que o diferenciava da brutalidade dos outros homens, se tornando um monstro que age para tirar a vida de duas crianças recém-nascidas. Um arco dramático poderoso e intenso que Aronofsky esfrega na nossa cara sem piedade, sem concessões, puxando o tapete de quem só queria ver trilha épica e tsunami para lá e para cá.

Manjando do riscado, o diretor aproveita as possibilidades visuais para ajudar a contar a história – é interessante notar como o céu é sempre mais bonito do que a paisagem terrestre, por exemplo, indicando que a verdadeira beleza ainda não está no nosso planeta (tanto que, após a arca sobreviver às enchentes, a terra que eles encontram é verde e promissora). Aliás, a direção de arte se puxa ao criar paisagens áridas, secas, desmatadas, ilustrando com força o quanto a presença do homem devastou o mundo – algo que a fotografia escura e dessaturada realça com eficácia, tornando a Terra tão seca que quase dá para torcer pelo dilúvio. Aronofsky também foge da abordagem documental dos últimos dois filmes e investe em planos abertos que ilustram a escala da história, conferindo grandiosidade à trama e permitindo ao público ver as consequências dos acontecimentos produzidos pelos incríveis efeitos da ILM (que são excelentes e extremamente críveis, ainda que não tragam muita coisa que não foi vista em 2012 – o filme, não o ano).

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Contando com uma coesão tão grande entre fotografia, direção de arte, efeitos especiais e o olho apurado do diretor, Noah é uma experiência visual bastante impressionante, mas duas sequências merecem destaque: o travelling circular que mostra um gigante de pedra lutando enquanto outros se transformam em luz (uma aula de plasticidade e significado); e o maior time-lapse da história (em termos de abrangência de tempo), que mostra de forma genial a vida surgindo e também a repetição do crime de Caim (cuja referência é vista também no quebra-pau entre Noé e Tubalcaim, mostrando como a violência permanece na essência do ser humano). A produção também merece elogios pela montagem precisa e pelo design de som eficiente (reparem como às vezes os sons são mais intensos do que a imagem, como quando a água começa a jorrar, reforçando a violência da situação), que quase conseguem compensar a trilha desajeitada: ostensiva a ponto de se tornar cansativa antes que alguém possa dizer “fá menor”, ela parece tentar a toda hora cutucar o ombro do espectador para dizer “ei, você está assistindo a um épico, coisas épicas estão acontecendo e você ainda não está épico o suficiente”.

Já o elenco consegue superar as deficiências do roteiro e, no geral, se mostra extremamente eficiente: Jennifer Connely exibe toda a lealdade e raiva de Nameeh com intensidade e sem exageros, enquanto Emma Watson, em uma atuação bastante sensível, torna Ila uma personagem ao mesmo tempo trágica e cativante. E, se Logan Lerman não compromete como Cam, o grande destaque sem dúvidas vai para Russel Crowe, que usa todo o seu carisma para construir um Noé tridimensional e complexo – reparem como Crowe ilustra a compaixão do barbudo com um simples olhar, enquanto seu tom de voz e movimentos contidos reforçam a humildade do protagonista. Além disso, no momento em que a loucura passa a dominar a personagem, o ator não faz grandes estardalhaços, representando a mudança gradualmente com um olhar mais franzido e uma expressão levemente mais dura (um ótimo trabalho da maquiagem, também, que com retoques aqui e ali torna Noé mais ameaçador). Então, é uma pena que a atuação mecânica de Douglas Booth faça Sem ser quase invisível na maior parte do tempo e que, como Tubalcaim, Ray Livingstone se resuma a cuspir suas frases com a raiva de quem acabou de perder uma partida de videogame. E Anthony Hopkins está lá apenas para dar um ar de sábio à coisa toda, provavelmente porque Morgan Freeman já estava com a agenda cheia.

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Como boa obra bíblica e de Aronofsky, Noah é repleto de simbolismos (os primeiros animais a viajarem até a arca são duas pombas brancas; quando conversa com Tubalcaim, Cam literalmente fala com a escuridão; o amor de Cam pela garota já nasce em uma cova) e aberto a interpretações – a fé inabalável de Noé, por exemplo, pode ser tanto sua força quanto sua fraqueza, e o poder da vontade do homem é ilusório, já que estamos à mercê de acontecimentos além das nossas forças (nem todos os exércitos do mundo reunidos conseguiriam impedir o dilúvio). São essas características que elevam a produção, conseguindo superar momentos absurdos como a “cura” de Ila (que, se trocasse os personagens de lugar, poderia ser uma cena de Harry Potter) e tornando a história ainda mais complexa. Também é importante perceber a sagaz provocação de narrar a evolução das espécies em um filme bíblico e, principalmente, se atentar para o fato de que, no mundo pré-dilúvio, o poder passou sempre para os homens sem nenhum resultado efetivo; no mundo renascido, promissor, que passaria a ser o novo paraíso, o poder é passado para duas garotas, que serão o ponto de partida da nova humanidade. Considerando a visão perturbadora que a Bíblia tem das mulheres, é um tapa de luva dos mais elegantes.

Questionando também a real importância do homem no mundo (merecemos ser salvos? Somos melhores do que outras espécies?), Noah acaba sendo uma daquelas obras que deixa o espectador reflexivo ao final. E, no meio desse dilúvio de filmes com respostas fáceis e prontas, essa é uma característica que faz a diferença.

4star

 

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