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Por: André Costa

Crítica | The Leftovers 1×03: Two Boats and a Helicopter

2 boats and a helicopter

[com spoilers do episódio 1×03] Ao contrário do primeiro e segundo episódios de The Leftovers, que acompanhavam diferentes histórias relacionadas ao descomunal chá de sumiço coletivo ocorrido no dia 14 de outubro, este Two Boats and a Helicopter se gruda no padre Matt Jamison o tempo todo, tornando o episódio um delicado estudo de personagem (se bem que, considerando a sensibilidade com a qual a história é contada, não seria errado dizer que funciona na verdade como uma universidade de personagem). Isso mostra que a) em The Leftovers, as personagens serão tão ou mais importantes do que o mistério em si e b) a série vai fugir da unidimensionalidade, apresentando um grupo de pessoas complexas, que se contradizem, que perdem o controle, que se arrependem.

Já sabíamos que Matt havia assumido a posição de fofoqueiro da turma após o evento do desaparecimento, entregando folhetos com os pecados dos que sumiram para ninguém pensar que tinha chegado o Arrebatamento (quando Jesus vai criar um evento no Facebook e convidar só os que merecem ser salvos, deixando de lado a galera que não o aceitou como o salvador). Essa atitude já mostrar de forma sutil uma certa inveja, uma necessidade de desmerecer os outros para provar que ele sim é digno da salvação, mas Two Boats and a Helicopter vai além: através de uma comovente história contada no início, justifica plenamente a fé do padre e as ações tomadas por causa dela, em um exemplo sensacional da força que um monólogo bem escrito possui.

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Fé essa que é reforçada pela preocupação da série em mostrar Matt cuidando da igreja ou no batismo caloroso e repleto de luz (o que contrasta com a fotografia geral de The Leftovers) que ilustra a felicidade do padre ao realizar a cerimônia religiosa – uma construção necessária e que estabelece bem sua posição de “I (heart) Religião“. Assim, não chega a ser uma reviravolta shyamalanesca que fora da igreja as coisas não estejam tão abençoadas. O mundo exterior chega de fininho atrás de Matt e puxa as cuecas dele, uma vez que, embora não tenha perdido ninguém no cosplay de Arrebatamento que aconteceu, aos poucos vamos descobrindo que ele teve leucemia, que seus pais morreram em um incêndio, que sua esposa entrou em estado vegetativo e que sua irmã perdeu a família (é o tipo de produção que faz as pessoas relativizarem um pouco coisas como a conexão de internet cair).

E não é surpresa também que a ameaça de perder a igreja, a pedra fundamental de sua existência, o Robert Downey Jr. do seu The Avengers, traga à tona sentimentos e impulsos menos nobres. O mesmo Matt que recusou pagamento pelo batismo (dentro da igreja) saiu desesperado pela noite atrás de dinheiro (e não hesitou em agredir um sujeito até que ele embarcasse no trem da inconsciência para isso); o mesmo Matt que apanhou sumariamente (dentro da igreja) e não quis dar queixa foi capaz de um ato extremamente cruel diante da sua irmã após ter o dinheiro negado – algo que ele tentou justificar com um “essa é a história que nunca vou divulgar“, como se esse ato de “bondade” apagasse o mata-leão psicológico que ele desferiu na moça.

Aliás, essa selvageria latente já havia sido anunciada por um dos gêmeos no episódio piloto, quando comentou sobre os cachorros terem entrado em um frenesi mandibular para morder qualquer coisa, e encontra ecos tanto no grito que o padre dá dentro do carro (após a briga no cassino) quanto no olhar de quem acabou de perder o ônibus que encerra Two Boats and a Helicopter. Talvez o desaparecimento das pessoas e a ausência de uma explicação lógica (um relatório investigativo do evento concluiu que “não sei“) comece a despertar algo mais primitivo em quem ficou para trás, e Matt parece estar em uma situação onde não tem mais nada a perder.

Matt asks Nora for a loan. They disagree

O episódio ainda abre espaço para diversos simbolismos em uma ensandecida sequência onírica – que ilustra a culpa do sexo, do abandono e da impotência frente a eventos cruciais, além de nos mostrar onde o padre estava quando dois por cento da população mundial foi para o mesmo lugar onde as canetas que caem no chão – e volta a trabalhar com a questão do sobrenatural influenciando os animais, algo já apontado na crítica anterior. Entretanto, o que se sobressai mesmo é o cuidado na construção de uma personagem trágica, capaz de envolver o espectador a ponto dele ficar tenso na cena das roletas ou de sentir a dor de Matt ao ver Patti tirando a palavra “You” do luminoso da igreja enquanto ele olha (aliás, grande destaque para Christopher Eccleston, que torna o padre uma personagem carismática e gentil, ainda que com uma melancolia intrínseca).

O título de Two Boats and a Helicopter remete àquela piada do padre que recusa ajuda durante uma enchente dizendo que Deus vai lhe salvar, apenas para morrer e ouvir o Todo-Poderoso dizer “mas eu enviei dois botes e um helicóptero, o que mais você queria?”. O padre de The Leftovers não morreu, mas descobriu que precisa sujar as mãos para conseguir fazer as coisas, que a salvação também exige esforço da parte dele. Uma anedota bobinha que a série transforma em um poderoso, intenso e cativante arco dramático.

5star

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