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Por: André Costa

Crítica | Livre, de Jean-Marc Vallée

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Cheryl Strayed é uma moça que, após diversos dramas e traumas e drogas e tragédias, resolve percorrer sozinha e a pé os 4.360km do Pacific Crest Trail, refletindo sobre os acontecimentos da sua vida e elevando ao máximo a ideia de “caminhar para dar uma espairecida”. Ao longo do caminho, coisas difíceis e edificantes acontecem.

Wild (Livre) é aquele tipo de filme que, desde o início (quiçá desde a sinopse), deixa claro que a jornada física da personagem será também uma jornada de redenção e revelação, tipo de coisa que eventualmente acaba aparecendo em alguma palestra motivacional. Mas o mérito da produção é conseguir envolver o espectador nessa jornada, tornando o arco dramático de Cheryl pertinente e cativante, embora em diversos momentos deslize para um lance meio manual de orientação.

Boa parte do sucesso se deve à estrutura de Wild, que abre a porta para flashbacks entrarem de forma natural na narrativa, seguindo alguns gatilhos (uma música, um cavalo, etc) e construindo os dramas através da repetição de cenas, temas ou mesmo visões da protagonista (por exemplo, a alegria da mãe, que parece um pouco aleatória no início, se torna parte essencial da motivação de Cheryl quando o filme explora um pouco mais a história da progenitora depois). Isso também impede que o filme se torne monótono, pois permite sequências que ganham intensidade com cortes rápidos e que alternam passado/presente/visões para ilustrar que tudo isso está na cabeça da moça no momento.

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As cenas que se passam durante a caminhada também ajudam a aproximar público e protagonista, ilustrando as dificuldades (a unha, a mochila), os medos (a cobra, os caçadores) e até mesmo algumas alegrias (o grupo de amigos, a felicidade extrema ao conseguir acender o fogão). Há inclusive espaço para humor, seja na própria aventura na cena do apito ou na brincadeira com outros elementos da produção (“day fucking 26“), o que confere um pouco de leveza e torna Cheryl uma personagem mais tridimensional. Infelizmente, a narração em off surge quase sempre para explicar tudo detalhadamente (“não tenho medo“, “vou caminhar até ser a mulher que minha mãe me criou para ser“), varrendo para baixo do tapete o impacto emocional que o espectador teria caso descobrisse essas questões ao longo do filme, e não através de monólogos expositivos. Da mesma forma, alguns momentos são incrivelmente previsíveis (como o da água e o do garotinho) e acabam sabotando a progressão da história.

Trabalhando com uma narrativa que exige ao mesmo tempo uma visão ampla dos cenários e um mergulho em sua protagonista, o diretor Jean-Marc Vallée (de Dallas Buyers Club) alterna entre planos abertos (que mostram a solidão da jornada e a opressão da natureza) e primeiros planos de Cheryl, que aparece em praticamente em todos os frames da película. E se beneficia muito de uma Reese Witherspoon bastante em chamas, que não se intimida com o desgaste físico e ainda confere à personagem uma honestidade comovente, uma abordagem sem gestos ou expressões teatrais que a faz carregar o filme com facilidade. É uma postura extremamente natural que torna a aventura toda mais crível.

Entretanto, o grande problema de Wild é que, apesar de tantos acertos, a produção chega ao final confiando só na narração em off para amarrar a jornada emocional que apresentou até ali (“achei meu caminho para fora da mata“). Não há aquela catarse emocional, aquela sensação de glória, de satisfação, tipo quando o cara chega em casa bêbado, abre o forno e vê um pedaço de pizza ali dentro. É sim um filme divertido, envolvente, cativante, só que acaba não entregando uma recompensa à altura de tudo que se viu até ali, o que não deixa de ser um pouco frustrante. Mas dizem que a jornada é mais importante do que o destino, e, com relação a isso, Wild é uma jornada e tanto.

4star

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