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Por: André Costa

Crítica | O universo insano e envolvente de Vinyl

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[com spoilers leves dos episódios 1-6] Em Whispered Secrets, terceiro episódio desta primeira temporada de Vinyl, há um momento onde Lester Grimes senta no sofá de uma sala humilde e começa a tocar guitarra. Ele então viaja por grandes shows e uma vida farta até retornar à mesma sala, onde está sozinho, apenas ele e a guitarra, longe de qualquer sucesso comercial. É uma cena com a qual todo mundo que já tocou algum instrumento no mundo consegue se identificar. E ilustra muito bem a compreensão que Vinyl possui do universo que nos apresenta.

A música, afinal, é o fio condutor da série, personificada pelos quase místicos anos 70 e pela figura avassaladora de Richie Finestra – cuja opção de não vender a American Records imediatamente despeja nele o carisma do “escolhi a arte ao invés do dinheiro”, importante para simpatizarmos com o sujeito: enquanto protagonista, Richie é o nosso guia pelo excesso de drogas e permanentes de cabelo que caracterizou o cenário musical da época, e Vinyl consegue carimbar desde cedo o produtor como uma figura envolvente graças a um combo de carisma/paixão por música/prédio desabando em cima (nota: prédio desabando em cima é uma forma eficiente de criar empatia por uma personagem).

A partir daí, a série desenrola as tramas alternando com eficiência entre os bastidores do mundo da música e a nova configuração que se forma entre as personagens. E Vinyl é hábil para transitar pelos novos relacionamentos de forma orgânica e crescente, investindo em conflitos quase diretos (Richie e Zak), conflitos mais complexos e elaborados (Richie e Devon) e conflitos internos (a volta das drogas, a busca de Richie por algo autêntico, verdadeiro, algo que justifique o caminho que ele escolheu). Há uma preocupação em fundamentar as motivações (mostrar os gastos da família de Zak, por exemplo), o que torna as tramas sólidas: são personagens com diferentes visões e objetivos diferentes que se encontram no mesmo barco, e os conflitos parecem surgir dessa divergência – Zak não odeia Richie, só odeia o que está acontecendo agora, Devon exige mudanças que ficaram para trás com a manutenção da American Records e assim por diante. Os episódios buscam conferir tridimensionalidade às personagens para que possamos nos envolver com as históias – e, no geral, conseguem.

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Tudo isso é trabalhado de forma dinâmica porque, bem, o protagonista é dinâmico. O fantasma do descontrole que assume o corpo de Richie mantém o nível de insanidade da série sempre alto, aquela loucura empolgada que aos poucos se torna auto-destrutiva, e acompanhar a trajetória do sujeito é como acompanhar uma montanha-russa sem saber se os carrinhos conseguirão parar no final (o episódio 6, Cyclone, eleva isso a outro nível, com a fuga de Devon criando ainda mais preocupação com a situação de Richie). O magnetismo de Bobby Cannavale (que merece ser indicado a todos os prêmios possíveis) carrega o espectador junto por essa jornada ensandecida – e o fato de os problemas do protagonista resultarem de decisões até certo ponto íntegras (ele quer fazer algo diferente, quer deixar um legado de qualidade, e não apenas ganhar dinheiro) constrói essa ponte de empatia entre o produtor e o público, tornando fácil torcer por ele.

Ajuda também ter coadjuvantes interessantes ao redor, da não sossegada Devon – que cresce ao longo dos episódios, rejeitando o papel de ser apenas mãe e buscando algo mais – ao imprevisível Lester, passando também por Cal, Kip e Jamie. As personalidades e objetivos bem determinados de cada um ajudam a construir um universo multifacetado, onde a oposição a Richie é feita não por necessidades de roteiro, e sim de acordo com o que essas pessoas buscam (e é incrível como personagens tão diferentes quanto Lester, Kip e Jamie acabam fazendo parte do mesmo grupo de forma tão natural). Só é uma pena que o resto do pessoal seja resumido a pronunciar/ouvir palavrões e ser alvo da fúria de alguém (Julie e Clark surgem particularmente insossos sempre que estão em cena).

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Além disso, é impossível não se empolgar quando figuras como Robert Plant, Alice Cooper e David Bowie têm participações incidentais nas tramas. Vinyl navega de forma orgânica pela vida musical dos anos 70, passando com facilidade pelo rock, pop, blaxploitation e os primórdios da cena punk (infelizmente o CBGB não entrou ainda nas histórias), utilizando a música para fazer a história andar – incluindo aí os (quase sempre) excelentes números musicais que representam diversos sentimentos e momentos da série. Dá para perceber que os realizadores são tão apaixonados por música quanto as personagens. Uma paixão que transborda na tela e transforma os episódios em homenagens ao período.

Contando ainda com uma ótima reconstrução de época, que expõe os excessos dos figurinos e cenários dos anos 70 sem que pareçam tão exagerados (a fotografia dessaturada, mais sóbria, evita que a série caia para um lado caricato, o que não combinaria com a abordagem do roteiro), Vinyl oferece todo o cuidado que se espera de uma obra com HBO e Scorsese na linha de produção: os travellings elegantes coexistem em harmonia com uma câmera mais chacoalhante nos momentos de intensidade, enquanto a montagem enérgica faz com que o ritmo da série esteja de acordo com o seu tresloucado protagonista. Só a trama do assassinato que parece bastante desnecessária, destoando da atmosfera geral e interrompendo o andamento fluído do resto da história – sim, é um motivo a mais para a paranóia e mergulho de Richie nas drogas, mas os desdobramentos ficam largados e a sequência dos eventos surge meio trôpega no meio de tudo.

Entretanto, é uma nota errada que não chega a atrapalhar o resto desta incrível partitura.

5stars

 

Uma resposta para “Crítica | O universo insano e envolvente de Vinyl”

  1. cyberknot disse:

    Achei essa série meio meh… é boa, mas nada de mais.

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