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Por: Davi Garcia

Crítica | Sully: O Herói do Rio Hudson

Uma manobra impossível com um desfecho improvável. No dia 15 de janeiro de 2009, pouco minutos depois de decolar do aeroporto de LaGuardia em Nova York, um avião comercial com 155 pessoas a bordo fez um pouso de emergência em pleno rio Hudson. Ninguém morreu ou se feriu seriamente e Chesley “Sully” Sullenberger, comandante daquele vôo, foi instantaneamente alçado à posição de herói.

Você provavelmente se lembra dessa história tão amplamente noticiada pela mídia na época, mas não conhece a do experiente piloto que teve sua decisão questionada pelo órgão de segurança de aviação e que chegou a duvidar de si mesmo sofrendo por dias com transtorno de estresse pós-traumático. E é disso, mais até do que a impressionante dramatização do evento abordado sob diferentes perspectivas ao longo do filme, que trata Sully: O Herói do Rio Hudson (veja o trailer), nova produção dirigida por Clint Eastwood e protagonizada pelo sempre excelente Tom Hanks.

Com roteiro de Todd Komarnicki baseado no livro memória escrito pelo próprio Sully em parceria com Jeffrey Zaslow, o filme estabelece seu tom logo na sequência de abertura que ao nos revelar um pesadelo do comandante do vôo 1549, evidencia exatamente que tipo de terrível tragédia poderia ter acontecido caso a decisão de tentar realizar o pouso de emergência fosse diferente da que foi tomada. Imediatamente tratado como herói pelo mundo, Sully no entanto se viu, num primeiro momento, assombrado pela dúvida de que sua decisão poderia ter colocado em risco as vidas de todas as pessoas a bordo daquele avião.

Econômico como de costume, Eastwood é eficiente o bastante para mostrar, fugindo do histrionismo fácil, o conflito vivido por Sully nos dias que se seguiram ao mesmo tempo em que expõe (ainda que sem se aprofundar demais) como a burocracia do órgão de segurança área, tão presa a números frios e análises de simulações, servia mais aos interesses financeiros da seguradora (obviamente buscando um culpado pelo prejuízo) e ignorava, em quase todo o processo, o que realmente importava: o fato de que vidas foram salvas por conta de uma decisão tomada em segundos sob a pressão de uma situação que nenhum treinamento jamais previra.

Nesse contexto, o maior trunfo de Sully é ter Tom Hanks como protagonista já que o carismático ator consegue, de maneira sutil em muitos níveis, nos convencer da fragilidade, da capacidade e principalmente da integridade do piloto que dá título ao filme quer seja quando este se mostra claramente dividido pelo conflito que experimenta em função do trauma vivido ou quando se revela, já no terceiro ato da produção, convencido de que sua decisão fora a única possível num cenário de tantas variáveis.

E se há algo que o filme de Eastwood destaca com eloquência em seu desfecho quase catártico é isso: a certeza de que em atividades de operação complexa e perigosa, o fator humano, muito mais que qualquer tecnologia, será sempre decisivo, fundamental e indispensável.

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