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Por: André Costa

Crítica | The Leftovers perde o ritmo no episódio 3×06: Certified

[contém spoilers] Incrivelmente democrática, The Leftovers está abrindo espaço para todo mundo nesta terceira temporada: tivemos um episódio focado em Nora, um no Kevin Garvey Sr., um no Kevin Jr. e esposa, um no Matt e, com este Certified, agora Laurie é o centro das atenções. O problema é que, ao contrário dos outros, Laurie nunca fora muito destrinchada pela série. Não há muito o que falar dela. A psicóloga ex-fumante também não coloca a história muito pra frente. Embora seja bastante eficiente como coadjuvante, ao assumir o protagonismo acaba sendo o pivô de um episódio vazio, cuja determinação acadêmica é o tradicional “encheção de linguiça”.

A própria série admite isso, iniciando tudo com um flashback pré-créditos iniciais que é tipo uma confissão de culpa: “não mostramos muita coisa sobre a personalidade da Laurie então vai aqui um tapa-buraco antes da coisa começar de fato para termos material“. Claro, é um flashback muito bem feito (particularmente adorei a cena onde ela se aproxima dos Remanescentes Culpados pela primeira vez e seu rosto, até então fora de foco, ganha nitidez), mas é muito pouco – e muito repentino – para criar qualquer envolvimento com o espectador.

A partir daí, Certified dá com os burros n’água em sua tentativa de aproximar o espectador da Laurie. The Leftovers confunde “personagem tridimensional” com “olhar para as pessoas sem expressão definida”, e a única coisa que define a psicóloga é a tentativa de suicídio. Não que precise existir uma lógica no que Laurie faz, mas as ações dela precisam revelar alguma coisa, e o episódio mantém a personagem sempre no mesmo tom, mudando só as atitudes que vai tomar para influenciar fatores externos. Há pequenos combos (o isqueiro, a ligação de Jill), só que não são regados o suficiente para criar um evento dramático.

Até porque a abordagem de Certified sabota isso. A ideia de fazer algo não linear, além de exigir alguns diálogos estupidamente expositivos (incluindo o clássico “deixe eu ver se entendi” onde a protagonista explica tudo que os Apóstolos da Gangorra do Lago querem fazer), impede que os eventos vão se acumulando até chegar no clímax. Não há peso. Quando Laurie mergulha no final do episódio, o que toca o sino de “suicídio?” na nossa cabeça é menos alguma motivação dela e mais o poderoso monólogo de Nora (além da música de abertura, que se junta à fanfarra expositiva para citar abertamente a palavra “suicídio” algumas vezes). De um ponto de visto narrativo, mecânico, a pista-recompensa é brilhante. Mas completamente estéril.

O que é uma pena, porque nos momentos em que o episódio acerta, quase compensa. É particularmente perturbadora a ideia de que Kevin vai arriscar sua vida por uma suposta missão divina quando, como revelado em diferentes conversas, os objetivos são puramente egoístas: Kevin Sr. quer saber a canção para que ele, e só ele, possa salvar o mundo; Grace quer saber onde estão os sapatos de seus filhos; e John quer transmitir uma mensagem a Evie. Se por um lado parece mesquinho, por outro revela de forma sutil o tamanho da dor e da solidão desses personagens, bem como a complexidade colossal da situação – e, apesar de tudo, o que estamos acompanhando são apenas pessoas normais em situações extraordinárias. Mesmo durando apenas alguns minutos, são de longe os momentos mais densos de Certified.

A cena onde Laurie bota todos para dormir também provoca um impacto maior, principalmente por fugir do esquema padrão do episódio (onde a protagonista é compreensiva e zen o tempo todo), embora não leve para nenhum lugar interessante. E foi realmente inspirado fazer a criança no ventre da psicóloga desaparecer: até onde Kevin sabia, sua família tinha saído ilesa do 14 de Outubro, e um bebêzinho sumindo antes mesmo de se formar direito despeja uma gama de possibilidades e traumas em cima de Laurie.

Infelizmente, The Leftovers preferiu usar o fato como trucagem, um “plot twist“, em vez de construir algo em cima disso. Se a série tivesse envolvido o público nos problemas e vulnerabilidades de Laurie antes e preparado o terreno, talvez Certified conseguisse ser mais do que um embrulho bonito sem nada dentro.

25 respostas para “Crítica | The Leftovers perde o ritmo no episódio 3×06: Certified”

  1. Douglas Couto disse:

    “olhar para as pessoas sem expressão definida” sim, porque o episódio faz uma rima com a situação em que ela se encontrava na abertura, porém – e é aí que está a sacada – ela não está mais confusa como na s01, ela sabe exatamente o que tá acontecendo, o que vai acontecer e porquê. Só que dessa vez ela não quer ser a pessoa que fura a bola mais uma vez, porque ela sabe que esses personagens vão se ferrar, ninguém vai conseguir aquilo, e eles vão de novo entrar em ciclos de sofrimento.

    “na nossa cabeça é menos alguma motivação dela” não. Na sua cabeça é isso, na minha faz total sentido essa motivação, ela não está preparada pra estar ali quando todos se frustrarem em suas jornadas e nem adianta mais ela querer convencê-los do contrário, porque eles sempre acham um novo propósito, uma nova motivação, se não for amanhã vai ser no mês seguinte, ou no próximo aniversário da partida. “Eles não querem uma conclusão”, ‘por isso eu estarei mais em paz se eu me for agora’ repare na expressão dela antes de vestir a máscara de mergulho.

    Ela é a Judas que traiu todo mundo e deixou de alertá-los.

    Um dos melhores da temporada, Amy Brenneman incrível, mas é preciso ir mais a fundo nas sutilezas pra entender a jornada dessa personagem, que o público gostava bastante.

  2. Ana Carolina Nicolau disse:

    o bebê que sumiu do ventre foi revelado na primeira temporada, no episódio que mostra a partida. a laurie sempre foi uma icognita e à luz disso ficou mais interessante ainda. não foi plot twist nenhum, tava plantado desde sempre.

  3. Luiz Felipe Matos disse:

    Acredito que todas as temporadas foram “democráticas” dentro do planejado. Esse episódio foi o mais dinâmico desse ano. Mesmo sendo focado em Laurie, todos tiveram sua vez. E, arrisco dizer, foi o episódio mais emocionante dessa temporada.
    Ver Laurie passear pelos plots e compreendendo, enfim, toda a sua jornada e seu papel naquilo tudo foi genial. Andou com a série ao mesmo tempo que desenvolveu e, aparentemente, deu um fim para a personagem.
    Um final conflituoso, doloroso, triste.

  4. Gleidson Oliveira disse:

    Muito obrigado por esse comentário. O “Todos fomos” dela em resposta ao Kevin resume tudo o que ela sente e como ela se situa como personagem. Acho a Laurie uma personagem incrível, assim como foi esse episódio. Sem dúvidas um dos mais incríveis da temporada. Com você disse, é preciso ir mais fundo nas sutilezas. Gosto muito dessas reviews, mas achei que essa ficou muito na superfície. E sabemos que pra assistir The Leftovers é preciso o contrário.

  5. Gleidson Oliveira disse:

    Exatamente!

  6. Leonardo Damaso disse:

    falando que estão cagando
    ninguém acredita

  7. Allison Noronha disse:

    Discordo plenamente, foi um episódio lindo, cenas tão simples quanto lindas!

  8. Rodrigo Deway Bacelar disse:

    Discordo totalmente. Acho que vimos episódios diferentes.
    Laurie é justamente a “voz da razão” num universo de personagens que parecem agir como loucos ou movidos por uma fé cega. Ela é a principal ponte de comunicação com o telespectador.
    O flashback serve para nos mostrar o quanto a personagem antes tão perdida e em busca de um sentido, hoje se mostra segura de si e agindo calmamente, sem os impulsos de outrora.

    O episódio moveu e muito a série, ligando as pontas entre os acontecimentos dos episódios focados em Matt, Nora e Kevin Sr.
    Além de belos momentos e simbologias interessantes (como o isqueiro dizendo “remember me”), “Certified” serve de fechamento para a personagem que mais se desenvolveu nas últimas 3 temporadas e por mais que hoje discorde dos rumos que as pessoas à sua volta procuram tomar, antes prefere ouvir e entender, ao invés de impor suas crenças.

    Achei o melhor episódio da temporada.
    Para fazermos uma rima narrativa, creio que a crítica foi vazia e com muita “encheção de linguiça”.

  9. João Vitor disse:

    Gostei bastante do flashback no começo, mostrando a paciente da Laurie, a mulher que aparece no começo do piloto da série, perdendo o bebê… Episódio triste e emocionante! Será que teremos um ‘International Assassin’ part.2?! Queria muito.

  10. André Nique Costa disse:

    Opa! Entendo tuas colocações, mas pra mim elas não se encaixam com o que a série vinha mostrando. Na minha opinião, a série não mostra esse “esgotamento” que leva a Laurie a desistir de todos, aachar que todos vão entrar em ciclos de sofrimento novamente e ela vai ter que acompanhar – tanto que no episódio anterior ela brigou com o Matt para viajar junto e tentar ajudar o Kevin, e não teve um evento que tenha “acabado” com essa vontade da Laurie.

    Pra mim a série deixa bem clara essa falta de investimento na Laurie ao colocar um flashback procurando criar um conflito que pode resgatar mais tarde. Sem esse envolvimento emocional (porque não houve tempo hábil de criar e a própria estrutura do episódio sabota isso), o episódio não tem força nenhuma.

    De qualquer jeito, é uma discussão legal. :)

    Abraço!

  11. André Nique Costa disse:

    Desculpe, fique à vontade para discordar o quanto quiser, mas como pode uma crítica que analisa estrutura, roteiro, diálogos, atuação e motivações dos personagens, citando exemplos do episódio, ser vazia?

  12. Verdade, alteramos essa parte ;)

  13. Rodrigo Deway Bacelar disse:

    Tendo forma, mas com conteúdo fraco e interpretações falhas.

  14. Yuri Cristino disse:

    Quem acompanha as críticas da série nesse site e ver praticamente todos os episódios entre 4 e 5 estrelas; ver nesse apenas duas estrelas pode parecer que o episódio ficou entre ruim ou bem mais-ou-menos, mas eu particularmente achei um episódio muito bom, em momento algum se apresentou como um episódio abaixo da qualidade que The Leftovers sempre mostrou. Acredito que todos nós, incluindo o André Costa, sentiremos falta dessa obra.

  15. Ze disse:

    O melhor da temporada. Apenas.

  16. André Nique Costa disse:

    Analisar estrutura, roteiro, diálogos, atuação e motivações dos personagens, citando exemplos do episódio, é conteúdo, e não forma.

  17. Rodrigo Deway Bacelar disse:

    O formato (forma) de uma crítica passa pela análise de todos os aspectos da obra, seja estrutura, roteiro, diálogos e etc. Obedecer as regras para escrever uma crítica não faz dela um bom texto, com conteúdo.

  18. André Nique Costa disse:

    Mas é claro que faz, ué. Se eu analiso todos os aspectos da obra, estou cumprindo a função da crítica.

    Se tu concorda ou não já é outra história. Se o texto é bom ou não já é outra história. Agora, se as regras da crítica estão sendo cumpridas, tu não pode classificar o conteúdo como “vazio” só porque discorda dele.

  19. Nádia Basso disse:

    André, só lamento que não tenha “sentido” esse episódio como os fãs verdadeiros da série sentiram. Minha nota pra vossa resenha: 2,0 . Bom, talvez eu não tenha “sentido” vossa crítica como deveria, né? Mentiiiiira, senti sim, e confesso que estou com raivinha de mim por ter perdido meu tempo lendo kkkk Bjus

  20. Rodrigo Deway Bacelar disse:

    Claramente nós temos visões diferentes do que é “vazio” e “conteúdo”.
    Você chama de “vazio” e “encheção de linguiça” aquele que considero o melhor episódio da temporada, enquanto chama de conteúdo um texto que considero ruim, com falhas de interpretação e com erros (que inclusive tiveram que ser corrigidas de acordo com resposta do Ligado Em Série a um outro comentário), ainda que siga as normas de confecção de uma crítica.
    Vamos simplesmente concordar em discordar. Segue o barco.

  21. Giovani disse:

    Ufa, quase todos os comentários discordando da crítica. Achei esse um dos melhores episódios dessa temporada.

    “Mas permanecerei em qualquer lugar
    Livre para dizer o que penso em qualquer lugar
    E me redefinirei em qualquer lugar
    Qualquer lugar por onde eu vague
    Onde quer que eu deite minha cabeça é meu lar”
    Wherever I May Roam, do Metallica

  22. lucas disse:

    talvez o melhor episódio da série e vc aí falando essas coisas

  23. Vinícius Domingos disse:

    Cara, que felicidade ver que ninguém concordou com essa crítica. Eu achei esse episódio simplesmente maravilhoso, bem Laurie. Não teve as loucuras que tem nos episódios focados no Kevin, Kevin Sr, Matt e não foi tão doloroso quanto os episódios focados na Nora porque a Laurie representa outra coisa na série. Ela é misteriosa mesmo, a presença dela na primeira temporada foi pura opacidade, puro mistério. Só na segunda, por poder começar a falar, que ela realmente surge como personagem “clara”. O investimento emocional que temos com ela é totalmente diferente do que temos com Kevin, Nora e Matt, mas ainda assim ela é uma personagem com quem nos importamos, talvez a mais parecida com o espectador: ela também está perdida, mas tem certa clareza e ceticismo em relação a tudo. Ela é a terapeuta que tenta curar a todos, mas ela própria precisa de cura, que talvez só encontre na morte. Acho que essa crítica, por mais bem escrita e coerente que esteja, falha simplesmente pelo fato de ser uma recepção fria quase única a um episódio que deixou quase todo mundo que assistiu muito emocionado.

  24. bernardo disse:

    “A partir daí, Certified dá com os burros n’água em sua tentativa de aproximar o espectador da Laurie.” kkkkkkk eu acho que só vc acha isso. um dos melhores da temporada e talvez no top 10 da serie inteira.

  25. Eduardo Vieira disse:

    Estou terminando de assistir a série só agora e fiquei surpreso com as respostas do André. Um critico que não sabe receber criticas, que ironia. Seguir um formato não garante conteúdo não meu amigo, se fosse assim era só se atentar a estrutura de uma dissertação que todo mundo tirava 1000 no Enem. O site já esteve melhor …

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