FOTO: REPRODUçãO

Por: Redação Ligado em Série

Crítica | Twin Peaks expande sua mitologia no episódio 3×08

Foto: Divulgação/Showtime

[com spoilers do episódio 3×08] Quem andou pelas redes sociais nos últimos dias percebeu muitas reações de espanto e confusão com o episódio de Twin Peaks exibido no domingo. Essas reações não foram exageradas, pois ele é certamente um divisor de águas na série. É com ele que fica claro, mais do que nunca, o rumo escolhido por Mark Frost e David Lynch para o revival, e é preciso dar pelo menos um mérito aos dois: em vez de escolherem o caminho mais fácil, apoiado na nostalgia dos fãs, e concentrarem a narrativa na própria cidade e seus personagens, os criadores optaram por expandir a mitologia de Twin Peaks e ir além do seguro e do esperado.

Em aproximadamente 1 hora, testemunhamos uma jornada visualmente deslumbrante, com foco na origem dos espíritos malignos do Black Lodge, especialmente a de Bob. Mas vamos começar do começo para tentar ser o mais clara possível, já que muitos se sentiram mais ou menos assim:

Em seus primeiros minutos, o episódio retoma a fuga do doppelgänger e de Ray. Após um desvio para evitar a estrada principal, “Cooper” é traído e baleado pelo parceiro. Na sequência, Ray entra em contato com Phillip Jeffries, personagem interpretado por David Bowie no filme Fire Walk With Me que desapareceu por 2 anos durante um caso em Buenos Aires. Dois detalhes importantes aqui: a cidade já apareceu na 5ª parte do revival, é onde fica um aparelho de comunicação já visto em um cena de outro episódio; no filme, durante o reaparecimento de Jeffries, ele menciona um encontro que aconteceu acima de uma loja de conveniências (mais sobre isso a seguir). Em um dos momentos mais desconcertantes da temporada, vários homens como aquele que apareceu na prisão (chamados de woodsmen, de acordo com os créditos no longa de 1992 e nos novos episódios), surgem e realizam um ritual no corpo do doppelgänger, aparentemente removendo Bob e fazendo com que ele volte a viver.

O restante do episódio passou por diversas épocas e lugares, mostrando primeiramente a origem de Bob em uma passagem que inicia com a explosão de uma bomba nuclear em 1945, durante o Projeto Manhattan. Vale ser mencionado que um quadro com uma explosão semelhante faz parte da decoração da sala de Gordon Cole e que, na primeira temporada, em uma conversa com Cooper, Gerard/Mike diz que Bob está presente entre eles por aproximadamente 40 anos. A música que acompanha essa cena impressionante é Threnody for the Victims of Hiroshima, de Krzysztof Penderecki, e seus violinos estridentes acabam dando um clima de terror ao episódio (me lembrou um pouco as trilhas criadas por Bernard Herrmann para Psicose e Um Corpo que Cai, por exemplo). Podemos interpretar que esse nascimento do mal foi ocasionado por um dos atos mais perversos causados pelo homem, o que fez com que aquela entidade que apareceu no primeiro episódio dentro da caixa de vidro, a “mãe” a que a moça sem olhos se refere na sala púrpura, vomitasse uma substância que dá origem ao maligno espírito conhecido por Bob (seria garmonbozia, o creme de milho que simboliza uma espécie de má energia e da qual os espíritos do Black Lodge se alimentam?).

De outro lado, no White Lodge, em uma linda sequência em preto e branco, vemos o nosso conhecido gigante acompanhado de uma mulher, creditada como Señorita Dido. Os dois testemunham em um telão a explosão e o nascimento de Bob, e da mente do gigante sai uma esfera brilhante que revela o rosto de Laura Palmer (imagino como essa descrição deve soar para alguém que não está familiarizado com Twin Peaks ou com a obra de Lynch). Ela é enviada à Terra, representando o bem que poderá combater o mal criado, a luz que poderá neutralizar a sombra. Mas se nos voltarmos à série clássica, vale lembrar que o Man From Another Place, também conhecido como o braço de Mike, possui uma prima que se parece com Laura, o que pode trazer ainda outra simbologia: a de que bem e mal são “parentes”, e de um próprio mal nasce seu bem correspondente para combatê-lo. De qualquer forma, estamos falando de forças antagônicas que estão, mais do que nunca, no cerne da série, assim como Black Lodge x White Lodge e Cooper x doppelgänger.

Tudo certo até aqui? Então vamos voltar aos woodsmen: a cena em que eles ficam perambulando em frente a uma loja de conveniência de um posto de gasolina remete ao filme já mencionado, que mostra Bob e Mike vivendo junto a outros espíritos do Black Lodge em uma sala acima de um local similar. O episódio pula para 1956, no Novo México, onde o Woodsman sai assustadoramente pedindo fogo aos habitantes, comete alguns assassinatos com a maior facilidade e faz uma transmissão que atordoa aqueles que a ouvem.

Uma teoria popular entre os fãs diz que esse Woodsman seria o marido de Margaret, a Senhora do Tronco, pois ele era um lenhador e morreu em um incêndio (e essa figura tem o rosto preto, como se fosse coberto de fuligem). Esse trecho que se passa em 1956 também envolve um dos ovos que surgiram do vômito da “mãe”, do qual nasce uma criatura híbrida, meio inseto e meio sapo, que entra pela boca de uma garota. Ainda não sabemos quem ela é (algumas teorias falam sobre Sarah Palmer, a mãe de Laura, e outras sobre a própria Senhora do Tronco). De qualquer forma, provavelmente se trata de outra origem, algo como o início de uma linhagem. Resta agora aguardar a sequência desse episódio complexo, com uma estética belíssima, efeitos sonoros perturbadores e recheado de momentos que já deixaram marcas na mitologia de Twin Peaks e seguirão nos arrepiando por muito, muito tempo.


Outras observações:

– Não é curioso que os famosos versos da primeira temporada da série se referem ao fogo e os deste episódio à água?

Through the darkness of futures past

The magician longs to see

One chants out between two worlds

Fire walk with me.

X

This is the water, and this is the well

Drink full, and descend

The horse is the white of the eyes, and dark within

(lembrando também que o cavalo branco é um elemento importante na série)

– A banda que se apresentou no Roadhouse neste episódio foi ~apenas~ Nine Inch Nails, que tocou She’s Gone Away. Se interpretarmos tanto o título quanto a letra, podemos fazer uma relação com a mitologia de Twin Peaks, como tem acontecido como outras músicas cuidadosamente selecionadas para a trilha do revival.

7 respostas para “Crítica | Twin Peaks expande sua mitologia no episódio 3×08”

  1. Skalako disse:

    Adorei a review. Ansiosíssimo para o próximo. Apenas uma questão, quando o bom Cooper acordará?

  2. Ana Carolina Nicolau disse:

    “The” Nine Inch Nails uahuauah
    ótima crítica, Ana!

  3. Ana Carolina Nicolau disse:

    talvez no episódio 17 uahuahuah

  4. Ana disse:

    Que bom que gostou. :-)
    Olha, acho que o Cooper só vai acordar na reta final, infelizmente.

  5. Ana disse:

    Obrigada, querida. :-D

  6. (Quase) Acertô miseravi

  7. Ana Carolina Nicolau disse:

    kkk saca que no ep 3, naquele espaço lá que o cooper vai e vê a mulher sem olhos, tem dois trecos de energia, um com uma placa de 3 e outro com uma placa de 15. ele entra nessa tomada gigante escrito 3 no ep 3. saiu pela tomada no ep 15 =P

Deixe um comentário

ss