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Por: Bruno Carvalho

Crítica | Os Defensores encerra de forma grandiosa a “Fase 1” da Marvel/Netflix

[PARTE 01: SEM SPOILERS] Depois de apresentar os quatro herois, Marvel e Netflix tinham um trabalho grande pela frente: unificar os universos criados em DemolidorJessica JonesLuke CagePunho de Ferro – cada um com suas peculiaridades, problemas e qualidades – e criar uma série coesa com tudo o que foi apresentado até aqui. O resultado é positivo e me deu até um certo alívio.


Leia mais: Minha visita ao set de Os Defensores em Nova York!


Os Defensores é situada depois dos eventos vistos em todas as produções anteriores e consegue limpar o paladar após a fraca Punho de Ferro. Pra não ser injusto, ressalto logo de cara que a dupla Danny (Finn Jones) e Luke Cage (Mike Colter) é um dos melhores aspectos da produção (e que certamente vai deixar os fãs de Power Man and Iron Fist bastante felizes). Isso indica também que os problemas do quarto exemplar da saga estavam muito mais no comando do péssimo showrunner Scott Buck (que felizmente foi trocado) do que no personagem em si.

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Na série, um evento catalisado pela vilã Alexandra (Sigourney Weaver) – que tem uma importância proeminente no Tentáculo – inadvertidamente faz com que os erráticos caminhos de Matt, Jessica, Luke e Danny se cruzem. Assim, os dois primeiros episódios (de oito) gastam um necessário, mas bem utilizado tempo para justificar a junção do grupo, algo que é feito com inventividade e coerência considerando as tramas das séries anteriores, em vez de apenas usar a enfermeira Claire Temple (Rosario Dawson) para a tarefa (ela é útil, mas não é exclusivamente responsável pelo feito).

Mas o melhor do começo de Os Defensores nem é a união do time em si, e sim os percalços e conflitos gerados pelas personalidades de cada herói e a patente falta de sinergia entre eles. Além da mencionada excelente dinâmica de Danny e Luke (que também começa com estranhamento), destaque vai para o retorno de Jessica Jones (Krysten Ritter), cujo humor ácido está mais afiado do que nunca. Cética, cínica e desbocada, ela protagoniza os momentos mais inspirados desses quatro primeiros episódios, fazendo o papel do espectador ao questionar o “misticismo” que permeia a trama e até mesmo os nomes vindos dos quadrinhos como “Tentáculo” (Hand) e “O Imortal Punho de Ferro”. Já o relutante Matt Murdock de Charlie Cox carrega o peso necessário para se tornar o líder, especialmente por ele ser o mais envolvido em tudo (claro, pois ele já teve uma temporada a mais).

Em termos de produção, apenas achei desnecessário o uso forçado de filtros e transições entre as cenas de cada herói para “reforçar” que estamos essencialmente vendo quatro universos distintos. É de certa forma ilógico conceber que a Nova York roxa e noir de Jessica Jones fica situada naquela amarela e ensolarada de Luke Cage ou na escura e rubra de Demolidor. Algo que funcionava em cada produção isoladamente, apenas evidencia que aqui o recurso foi utilizado de forma exagerada, especialmente quando os quatro se encontram num restaurante chinês que acaba virando uma boate de tantas cores que o design de produção quis colocar no mesmo ambiente para “retratar” a junção daquela turma.

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Isso, porém, vira apenas um detalhe a partir do momento em que os quatro percebem estar do mesmo lado e protagonizam uma eletrizante cena de luta (num corredor, é claro). Em seus momentos isolados ou em duplas, é possível ver como as habilidades de cada um dos Defensores foi sabiamente utilizada pelos coreógrafos de luta, em sequências que mostram também o cuidado dos diretores com a geografia de cada cena, permitindo que o espectador compreenda o que está acontecendo em meio ao caos.

Os Defensores amplia a mitologia introduzida lá atrás na ótima Demolidor e traz exatamente aquilo que a gente queria ver numa série que reúne quatro heróis. Além disso, é possível assistir a essa série sem ter necessariamente visto todas as outras (embora algumas referências sejam obviamente perdidas), já que o roteiro é expositivo apenas no que é necessário para instruir ou relembrar acontecimentos passados.

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[PARTE 02: COM SPOILERSOs Defensores é concisa e talvez 8 episódios deveria ser o padrão a ser seguido por Marvel e Netflix daqui pra frente, pois funciona muito melhor que os usuais 13. Com a trama mais condensada, a produção não gasta aquele tempo enchendo linguiça que sempre esteve presente em DemolidorJessica JonesLuke Cage e, especialmente, na inchada e bagunçada Punho de Ferro.

A partir da segunda metade da leva de capítulos, inclusive, o plano do Tentáculo passa a ser mais objetivo e não apenas um mero MacGuffin (algo que move a série pra frente sem muita explicação). Ainda que aumentando a carga de diálogos explanatórios, a série pelo menos engatilha e mira em um só foco: o tal buraco no prédio Midland Center e a necessidade dos cinco dedos da “mão” de correr atrás da tal substância imortal.

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Ainda que questionável, a decisão de Alexandra de usar o restante que tinham (algo que nunca ficou claro exatamente quanto) para criar a Céu Negro, ou “a Elektra do mal”, é compreensível considerando que eles falharam na missão de capturar o Imortal Punho de Ferro. Aliás, o único propósito de Danny Rand, na real, é ser capturado para abrir a “tal” parede no fundo do poço.

Confesso que, mesmo parte de uma mitologia, toda a história de K’um L’um, dragões e misticismo é utilizada em excesso por Os Defensores, o que acaba subaproveitando parte do grupo, em especial Jessica Jones e Luke Cage. Felizmente a reta final da série segue num ritmo frenético, lotada de ótimas sequências de ação e luta e com direito a boas reviravoltas – inclusive as envolvendo Stick, Alexandra e Elektra. Inevitável, porém, o número de concessões que temos que fazer sobre aquele núcleo da delegacia (e com direito a um pernamente efeito colateral em Misty Knight e que é um belo fan service).

O ato final na caverna, contudo, é eficiente e, além de apresentar bons momentos envolvendo todos os personagens que percorreram as séries até agora, fiquei feliz que decidiram não utilizar a “morte” de Matt Murdock como um cliffhanger, pois seria algo inútil considerando que a 3ª temporada de Demolidor já está encomendada.

Os Defensores é empolgante, divertida e ágil na medida certa, encerrando de forma grandiosa essa “Fase 1” do universo Marvel/Netflix.

13 respostas para “Crítica | Os Defensores encerra de forma grandiosa a “Fase 1” da Marvel/Netflix”

  1. Helga Possas disse:

    Amei a crítica. Inclusive, considero essa série uma das melhores da Netflix….

  2. Everaldo Junior disse:

    Muito boa crítica e ótima série. Sempre fui puxa saco de Jessica Jones, e achei o papel dela o melhor dos 4.

  3. “o número de concessões que temos que fazer sobre aquele núcleo da delegacia e com direito a um pernamente efeito colateral em Misty Knight”. Não é uma concessão. Demorou para isso acontecer, uma vez que nos quadrinhos ela não tem um dos braços, ele é mecânico.

  4. Não falo sobre o braço, que é um fan service (tá escrito lá). Falo sobre eles serem incompetentes, deixarem os herois escaparem, darem uma katana pra Colleen e deixar ela levar explosivos da delegacia.

  5. Tatiana Sabino disse:

    Otima critica! Amei a série e estou ansiosa para uma possível segunda temporada

  6. Inka Diéz Ibañez disse:

    Gostei da crítica, mas você não viu a arte na parte da iluminação. É isso que eles querem mostrar, que os personagens, mesmo tendo tons diferentes, estão todos na mesma cidade. Não acho de maneira alguma irritante, achei incrível. Faz parecer que os heróis tem uma espécie de aura.

  7. Mateus Cardoso disse:

    Tenho que discordar no uso da paleta de cores, pra mim foi a melhor sacada da série, principalmente a cena do restaurante.
    Me diverti muito procurando a cor de cada 1 no decorrer das cenas.

  8. Viny Matos GO disse:

    Os Defensores é empolgante, divertida e ágil na medida certa, encerrando de forma grandiosa essa “Fase 1” do universo Marvel/Netflix ?????
    Sério?!?!?!?!?!?!?!?!?
    Tens certeza que olhou Os Defensores?

  9. andremacola disse:

    Acho que não foi a mesma série que eu assisti.

  10. márcio xavier disse:

    uma estrela por cada personagem: Elektra, Luke, Jessica, Matt…. Com esse punho de ferro realmente não tem como dar 5. Talvez se ele fosse raptado pelo Tentáculo no primeiro episódio e solto apenas no último. amordaçado, lógico..

  11. klaus disse:

    Terminei de ver agora. Realmente muito boa.

  12. Jose Aquiles disse:

    Parabéns pela critica, gostei muito de defensores, Jessica Jones está ótima. Uma pergunta , é verdade que quando elektra entra na sala cheia de armas há um easter egg de bleach? uma das espadas lá seria do anime…

  13. Yuri disse:

    Uma das piores coisas que assisti esse ano. SPOILERS. Explico: 1. Direção: as cenas de luta são melhor coreografadas do que as do Punho de Ferro (o que não quer dizer nada), mas são terrivelmente dirigidas, mas sabemos o que acontece na cena. A série abusa do “ângulo holandês” sem absolutamente qualquer função narrativa. Além disso, por diversas vezes a câmera fica circundando as personagens, de novo sem qualquer função narrativa. 2. Montagem: Já falei dos péssimos cortes e acrescento o péssimo ritmo dos episódios (como parece regra nas sérias Marvel/Netflix, exceto Demolidor). Tudo é sempre arrastado e repetitivo. 3. Roteiro: Olha, não é porque é baseada em quadrinhos de super-heróis que a série não precise ter coerência. Tem tantos erros e pede tantas concessões que chega a ser risível. Vou tentar lembrar de algumas coisas que me irritaram profundamente: quando a vilã vivida pela Sigourney Weaver vai ao médico, ele dá a notícia que ela está morrendo ao abrir a porta do que parece ser a ante sala de atendimento (!), pra logo em seguida à noticia pedir pra ela se deitar pra fazer um exame lá. Pra mim esse médico foi o vilão mais cruel da história; Luke Cage leva soco do Punho de Ferro e ok, daí leva um chute da Elektra/Céu Negro e desmaia; Matt Murdock joga às favas qualquer preocupação com sua identidade, largando mão de usar o cachecol da Jessica Jones mesmo com outras pessoas ao redor; a construção da vilã é péssima, se queriam dar algum traço de humanidade deveriam ter se inspirado no Rei do Crime, vilão com V maiúsculo e ao mesmo tempo com características bem humanas. Aqui, a vilã em momento algum é digna da alcunha, o que também se relaciona com seu relacionamento patética com “sua criança”, a Elektra/Céu Negro, que também não amedronta e é, também, pessimamente construida; também não amedrontam ou são dignos de um desafio os “ninjas” do Tentáculo (menção à cena do Punho de Ferro invadindo a reunião dos ninjas/empresários… que coisa mais risível); a utilização do elenco de apoio é fraca e forçada, sendo o ápice tudo que ocorre na delegacia, a começar com o motivo de todos eles irem pra delegacia (qual foi a motivação mesmo? Proteção? Contra os “ninjas motherfuckers do Tentáculo”?); os heróis se escondendo e fazendo uma boquinha num restaurante qualquer; nessa mesmo cenário, a Jessica Jones jogando o carro no restaurante e fazendo uma entrada “triunfal” (com a música subindo como se fosse um momento “super heroístico”); por falar em Jessica Jones, como funciona sua super força? É sazonal? Ou é parecida com a do Punho de Ferro, que só funciona se ele franzir a testa e ficar encarando a mão (ops, o punho)?; o Punho de Ferro é importante pra caramba por qual motivo? Pq só ele podia dar um murro na paredinha lá? E pq NY tinha que ser destruída? E pq a Elektra virou o Céu Negro? E o que diabos é o Céu Negro? Ela não me pareceu uma ninja das mais mortais e decididas; pq quando a detetive lá deu um tiro pra entrar no prédio, no final, nenhum outro policial ouviu e foi atrás dela?; pq eu nunca fiquei sabendo que basta uma confusão pra eu conseguir entrar na sala de evidência de uma delegacia e sair com uma porrada de c4?; do mesmo modo, pq eu sempre achei que explodir um edifício fosse mais complicado do que é realmente?; outra, os heróis ficam conversando sobre o quão cabuloso é destruir um prédio sem ninguém dentro e não se importam um minuto sequer com as consequenciais de se explodir um prédio; todos ficam tristinhos quando o Demolidor “morreu”, mas na hora de deixar ele pra trás, mesmo após ele praticamente se despedir com o Punho de Ferro, ninguém parece se importar muito (e ele ficou pra trás pra que mesmo? pra salvar a Elektra? Pra dar um beijinho antes de morrer?). As lembranças estão meio fora da ordem em que apareceram e tem vários outros “melhores momentos”, mas melhor parar por aqui. Mas deu pra entender: suspensão de descrença tem limite. Atuações: difícil até avaliar, dado o material e a qualidade sofrível dos diálogos, mas quem tenta dar um pouco de dignidade: a já mencionada vilã, Demolidor, Stick e Jessica Jones. Luke Cage e Punho de Ferro… não aguento olhar pra cara de bebê chorão desses “heróis”, com destaque para o Imortal Punho de Ferro. Trilha sonora: aquele rap na luta final já diz tudo. O que (com boa vontade) salva: fotografia e a interação dos heróis quando estão em duplas. Se a trama não forçasse a mão no uso dos coadjuvantes das séries solo, se o roteiro não fosse tão irritantemente expositivo (me recordo com carinho do trecho mostrando o elevador caindo e o Punho de Ferro dizendo: “o elevador está caindo”), se as situações não fossem repetidas à exaustão, se os diálogos não beirassem o infantil, se não achassem que enrolação narrativa é sinônimo de desenvolvimento de personagens, bem, aí a série seria divertida. Não é o caso. Já lamento antecipadamente pelo Justiceiro (e torço pra dessa vez ser surpreendido positivamente).

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