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Por: Bruno Carvalho

Crítica | A misteriosa e fascinante Dark, série alemã da Netflix

Não é rara a sensação de encaramos a vida em ciclos que, em maior ou menor grau, parece repetir situações, traumas e eventos já antes vivenciados. Dark, a primeira produção alemã da Netflix, utiliza essa premissa como base para explorar uma fascinante trama de mistérios em que o tempo ancora sua narrativa. A pergunta que todos os 10 capítulos deixa não é “como isso aconteceu?”, mas sim: “quando?”.

Aparentemente complexa e confusa, especialmente em seus três primeiros episódios, Dark deixa as evidências sobre seu universo de forma bastante didática, mas exige ser acompanhada com atenção pelo espectador (guarde o celular pra lá ao assistir). Diferente de séries norte-americanas que trazem explicações expositivas, o drama alemão o se desenrola com cadência e cuidado, o que pode deixar o espectador de ocasião perdido em meio aos conceitos e revelações que são apresentados desde o 1º capítulo.

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Isso porque Dark é exibida em fragmentos que somente fazem sentido à medida em que a história avança e quanto mais e mais informações são pinceladas na tela. Não é esta uma série de desenvolvimento de personagens como LOST, por exemplo, que possui similaridades temáticas com este drama. Protagonizada por quatro famílias (os Kahwald, os Tiedeman, os Nielsen e os Doppler), a série faz questão de que seus sujeitos sejam uniformemente estéreis em termos de motivação e personalidade, pois estão todos mergulhados na angústia de viver na cidade Winden sendo parte de algo que sentem ser importante e grande, mas não compreendem (assim como nós, à princípio).

Tecnicamente irrepreensível, Dark conta com uma fotografia maravilhosa, decupagem brilhante (a forma como divide o roteiro em cenas), uma montagem absurdamente eficiente e que favorece cada aspecto da trama, além de direção e roteiro impecáveis dos showrunners Baran bo Odar e Jantje Friese. Se for assistir, largue o celular de lado, pegue papel e caneta e anote os nomes e parentescos dos personagens, pois isso vai te ajudar. A partir daqui, o texto contém spoilers que são inevitáveis para discutí-la. Se não assistiu ainda, pare aqui e volte depois.

Laços de família

Dark começa in media res (ou seja, com a trama já em andamento) com o desaparecimento do garoto Erik Obendorf em 2019 na cidade de Winden, algo que rapidamente descobrimos que não é um acontecimento isolado ou inédito naquele lugar. Outros dois desaparecimentos na floresta ocorrem de forma subsequente (Mikkel e Yasin), aparentemente ligados à usina de energia nuclear da cidade que é conectada à uma rede de cavernas subterrâneas.

Décadas antes, uma similar sequência de acontecimentos ocorrera e é isso que liga as quatro famílias objeto desta narrativa. Importante, então, tomar nota da árvore genealógica e das relações interpessoais entre aqueles que surgem em tela desde o 1º momento:

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Além dos desaparecimentos, as amizades, uniões, mortes trágicas e traições também são temas recorrentes em Winden há anos e que parecem estar já dormentes na memória coletiva daquele povoado. Mas tudo que está dormente, assim como um vulcão, uma hora pode despertar…

Uma dobra no tempo

Em suma, a trama é ambientada em três épocas – 1953 • 1986 • 2019 – não coincidentemente separadas por 33 anos entre si. Coincidência, inclusive, é algo que não existe em Winden e logo descobrimos que tudo e todos estão “interligados” pelos mencionados relacionamentos, traumas, tragédias, acontecimentos e, é claro, segredos. O tempo, como a própria série faz questão de martelar, é o que liga tudo.

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Assim, o drama traz, apresenta e desenvolve noções sobre buracos negros (ou buracos de minhoca, os wormholes) e outros preceitos básicos da física quântica que já vimos não apenas em LOST, como também em Arquivo XFringe e, é claro, De Volta Para o Futuro que, inclusive, é citada. Logo, descobrimos que em Winden o tempo é vivenciado de forma cíclica graças à anomalia que existe no sistema de cavernas logo abaixo da usina e é pra lá ou de lá que os desaparecimentos ocorrem, gerando interessantes paradoxos temporais que o roteiro resolve de forma elegante e inteligente (em especial aquelas vividas por Ulrich, Mikkel/Michael e Helge).

Passado, presente e futuro

Uma vez estabelecido o conceito da série, é possível avançar nos capítulos com a noção de que nem tudo o que aparenta é e começamos a desconfiar de vários personagens que, inicialmente pacíficos e pacatos, possuem uma ligação muito mais profunda com as principais motivações de duas facções que brigam para “controlar” a narrativa temporal da cidade. Não apenas o vilanesco Noah, como outros players deste intrincado jogo estão ali para tentar consertar a anomalia de acordo com seus motivos (escusos ou não dependendo da perspectiva) – e utilizam os personagens como peões em um tabuleiro quase impossível de ser 100% decifrado.

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Não há um gênero ou uma forma simplória de caracterizar Dark (as comparações com Stranger Things são pueris). Essa é, talvez, uma das poucas séries recentes que valem uma releitura logo após assistida pela primeira vez, tamanho o sucesso de seus competes realizadores em criar uma trama que é ao mesmo tempo concisa, rica e complexa.

Há muito o que se discutir, em especial acerca da cena final que acrescenta mais uma camada temporal – 2052 – e que evidencia que a guerra entre o “bem” e o “mal” (não usei aspas à toa) está apenas começando (sim, ela já está renovada). Há quem goste de caçar easter errgs e teorias, pois a série dá muito material pra isso, mas prefiro me ater ao que está na tela. Ainda assim, só de fomentar a discussão, Dark mostra que existe muito mais coisa a ser explorada fora do eixo televisivo EUA/Reino Unido.

Que bela série.

4 respostas para “Crítica | A misteriosa e fascinante Dark, série alemã da Netflix”

  1. thiago coelho disse:

    Que série fantástica

  2. Leonardo Damaso disse:

    Por onde leio algo sobre DARK.
    Impressionante o destaque ALEMÃ.
    pq?

  3. Luciano Carvalho disse:

    muito boa mesmo… desde Lost não me empolgava tanto.

  4. Paulo Siqueira disse:

    Confesso que odiei Lost, porque ela se perdeu completamente a partir da 2ª temporada. Teve uma primeira temporada maravilhosa e depois só desandou. Mas, esta é mais curta e seu roteiro muito bom. Espero que não a estraguem “no futuro” (na perspectiva da série em qualquer momento do espaço-tempo), repetindo sempre a lógica do herói que quer consertar/modificar a linha do tempo.

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