Crítica | 2ª temporada de Big Little Lies foi uma longa aula de como encher linguiça
Crítica | 2ª temporada de Big Little Lies foi uma longa aula de como encher linguiça

Crítica | 2ª temporada de Big Little Lies foi uma longa aula de como encher linguiça

Eu fui um dos que defenderam a existência da 2ª temporada de Big Little Lies pelo simples fato de que ainda havia história a ser contada após o final do magistroso primeiro ano. A grande “mentira” tinha acabado de ser cometida e era natural o público querer testemunhar os desdobramentos do homicídio culposo de Perry pelas mãos de Bonnie, encobertado pelas amigas, ainda mais quando desenvolveram um universo tão rico de temas e boas personagens a serem explorados.

E se o primeiro episódio indicou, muito por meio da chegada da mãe de Perry, Mary Louise (vivida pela gigantesca Meryl Streep), que teríamos potencial uma bela temporada à frente, o desenvolvimento pífio de sua narrativa nos trouxe ao final (espero que seja o fim de tudo) a confirmação de que seus inchados sete episódios jamais eram necessários para que a trama fosse concluída da forma que foi.

Pra piorar, no meio da exibição veio a público a notícia, por meio do site IndieWire, que a versão criativa da diretora de todos os episódios, Andrea Arnold, foi retirada pela HBO e entregue ao atual produtor e ex-diretor da minisérie Jean-Marc Vallée (o canal afirma que foi apenas um realinhamento criativo).

Mesmo contando com monstros da atuação e uma produção caprichada, fato é que Big Little Lies encheu linguiça durante sete semanas com apenas três temas recorrentes e repetidos à exaustão na falta de algo melhor: os questionamentos de Mary Louise sobre a versão da morte de seu filho Perry e suas cutucadas, os problemas maritais vividos por Renata Klein (Laura Dern, a que mais salvou esta temporada) e Madeline (Reese Witherspoon) e a enfadonha chegada da mãe de Bonnie. Todos os capítulos giraram invariavelmente em torno destas histórias, que foram esticadas ao máximo para preencher tempo em tela.

Pra piorar, ao não focar na questão policial (não entendi a presença da delegada e das cenas de depoimentos esparsas, que ao final não serviram pra absolutamente nada), o drama retirou de pauta seu maior trunfo, que seria a investigação do “acidente” e como a grande “mentira” impactaria o grupo de amigas. No lugar, ainda que tivemos ótimos momentos envolvendo Renata e o processo de falência, tudo foi resumido a um processo judicial de guarda de família (quem em sã consciência ia querer aqueles dois moleques agressivos? – divago) extremamente mal retratado e sem o menor sentido lógico, ainda mais considerando que David E. Kelley, outro produtor executivo, comandou grandes dramas jurídicos como Ally McBeal e Boston Legal). Da condução do julgamento pela juíza que atropela noções mínimas de processo, até a total inépcia dos advogados de ambas as partes, que apenas serviram de escada para que Streep e Kidman tivessem seus momentos dramáticos.

Depois de tanto vai e vem, flashes rápidos (como o daquele afogamento envolvendo Bonnie), a 2ª temporada de Big Little Lies foi apenas uma sucessão de Emmy Tapes (cenas com bons diálogos para submeter as atrizes a premiações) intercaladas por vazios e com um desfecho apressado, mesmo havendo tempo suficiente para desenvolver melhor a tal confissão. É uma pena que um projeto tão bom como esse foi sabotado em nome de prêmios e dinheiro, tanto pela autora Liane Moriarty (responsável pelo ralo roteiro que extrapolou a história do livro original), quanto pela própria HBO e produção.