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Por: Bruno Carvalho

Crítica | Dois Papas é um filme maravilhoso sobre tolerância e empatia

Dirigido por Fernando Meirelles (Cidade de Deus) e com roteiro de Anthony McCarten (A Teoria de Tudo, Bohemian Rhapsody), Dois Papas não é um registro documental ou biográfico da transição clériga do papado de Bento XVI para Francisco, embora boa parte de sua projeção seja estruturada desta forma. Na verdade, o longa idealiza conversas inexistentes entre os dois chefes religiosos em um dos períodos mais conturbados da história recente da Igreja Católica. Este, também, não é um filme religioso, mas sim usa este pano de fundo para contar uma história tocante.

Brilhantemente interpretados pelos talentosíssimos Anthony Hopkins (Westworld) e Jonathan Pryce (Taboo), Joseph Ratzinger e Mario Bergolio não poderiam ser figuras mais antagônicas. O primeiro é conservador, recluso e acadêmico, e o segundo é liberal (dentro do contexto da instituição que representa, claro), progressista e prático. Fotografado e montado à perfeição, o longa tem início quando o atual pontífice envia ao seu antecessor um pedido de aposentadoria e é chamado ao Vaticano em meio a um escândalo de corrupção e desgraça para o catolicismo. À partir daí, o texto de McCarten começa uma série de fascinantes sessões de prosa entre os protagonistas sobre dogmas, ideologias, paradigmas religiosos, fundamentais, sociais e culturais, intercalados por registros reais, flashbacks e digressões.

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No centro de Dois Papas há uma mensagem tempestiva (diante do que vem ocorrendo no mundo e bem a tempo das festas de fim de ano) sobre humanidade e empatia. Igualmente fabulosa é a escalação dos dois atores para viver estas personalidades (ainda que imaginadas) tão diametralmente conflitantes, mas sempre retratadas de forma muito mais profunda sobre o que elas representam.

Enquanto Jonathan Pryce faz um trabalho estupendo incorporando a bondade, a ternura e simplicidade de Bergolio, Anthony Hopkins tem uma missão ligeiramente mais difícil ao personificar a figura daquele que já foi chamado “padre nazista” (por ser alemão e conservador) e que estava no centro de um escândalo, sem que ele se torne uma figura imediatamente antipatizada pelo espectador. Ambos atingem o feito com maestria e naturalidade, encarando ainda as dificuldades linguísticas (Papas são poliglotas e precisam se comunicar majoritariamente em italiano).

Aliás, Dois Papas é um filme tão bem-sucedido no que se propõe, que não é necessário ser católico, religioso ou até mesmo coadunar com o que a Igreja Católica é – para apreciar e até torcer por aqueles personagens (e o que a transição representou para o mundo). Evitando aprofundar em tópicos mais sensíveis como abuso de menores, embora o assunto esteja presente, o longa é um maravilhoso registro imaginativo e imagético sobre concessões, mudanças e tolerância. É o melhor e mais sensível filme da carreira de Meirelles, que executa a direção com domínio de cada frame, e um dos melhores de 2019 (e da própria Netflix, ao lado de O Irlandês).

https://www.youtube.com/watch?v=Tgdd94j…

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