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Por: Bruno Carvalho

Across the Sea

(LOST “6×15: Actoss the Sea”) A mãe de Jacob e de seu irmão, que segue sem nome, chegou na ilha como qualquer outra pessoa: por acaso. Recém-nascidos, os futuros rivais foram criados por uma misteriosa mulher que, em data indefinida, tinha o encargo de proteger algo muito importante do mal constante existente no mundo. Quem é essa mulher? De onde ela veio? Que poderes ela tem? O que raios está acontecendo? Não sei, mas segundo ela a resposta de uma pergunta somente levará a outra pergunta, o que indica que este processo de sucessão provavelmente ocorre há milhares de anos. Criticado, odiado, adorado ou incompreendido, Across the Sea inquestionavelmente traz consigo a coragem de LOST em contar sua história através de um capítulo tão rico e carregado de simbolismos, mas pecante em revelar o que grande parte do público esperaria a pouco mais de 10 dias para o final. E em vez de pensar no pouco tempo que falta, que tal considerarmos o que já vimos nos últimos 6 anos para tentar entender a importância e a relevância deste capítulo na mitologia da série? Jacob e seu irmão representam os arquétipos de algo muito mais grandioso e obscuro do que meros habitantes de uma ínsula. É notório como os gêmeos bivitelinos foram crescendo de forma diametralmente oposta até se tornarem eternos rivais ideológicos, confinados numa existência indefinida e ligados apenas pelo vínculo forçado, mas invariavelmente real, com a mãe adotiva. E essa conturbada relação culminou nas diversas tragédias que moldaram as vontades, medos, escolhas e ações de dois seres imperfeitos por natureza, mas igualmente especiais. E novamente o acaso aparece para dar forma ao que chamamos de “bem e mal”, cada mais vez estabelecidos como dependentes um do outro.

Afinal, existiria o mal sem o bem e vice-versa? A conduta exigida seria a mesma se as circunstâncias fossem diferentes? De forma extremamente poética, Across the Sea nos apresentou à ideia da “essência de tudo” através da caverna iluminada, num exercício brilhantemente executado na tentativa de entender a origem metafísica do mundo. Mas o que isso tem a ver com o voo 815, com os sobreviventes, a Iniciativa Dharma, as viagens no tempo e cada pequeno problema, caso ou situação ocorridos na ilha? Ora é exatamente o equilíbrio obrigatoriamente existente entre Jacob e o Homem de Preto o causador e catalisador de tudo: do momento em que um irmão mata a manipuladora mãe até que esta é vingada. O que aconteceu aconteceu. Este antepenúltimo capítulo abriu nossos olhos para enxergarmos, de uma vez por todas, que o ser que temos como “malvado”, capaz de arquitetar a morte de seu irmão e dos candidatos deste, apenas age seguindo a sua convicção, sua força própria. Jacob também matou, mentiu, manipulou e o fez de acordo com sua fé inerente – ambos fieis motivados por aquilo que cresceram condicionados a ser. Mas e se, por exemplo, uma bomba H mudasse as variáveis da complicada equação da vida? Seriam as escolhas diferentes? O que é estabelecido como “bem” poderia eventualmente ser visto como “mal”? Essa história, meus caros, não é nova para nós, ainda mais depois que conhecemos os flashsideways nesta temporada. Quem não gostaria de uma segunda chance, ainda que na prática ela fosse impossível? No mundo das ideias tudo é praticável, lícito e viável. Em Across the Sea os círculos começaram a se fechar; “Adão e Eva” já não têm mais este nome e nossa percepção sobre este inigualável universo criado foi necessariamente abalada (você percebeu?). É hora de curtir, com novos olhos, a jornada que nos aguarda para o fim desta magnífica história.

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