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Por: Bruno Carvalho

Fringe e a Psicologia Analítica

Além de possuir um ótimo roteiro com atores perfeitos para cada papel, Fringe também consegue ser referência crítica em diversas áreas, seja a Física Quântica, a Medicina ou até mesmo a Psicologia. Quando Peter Bishop diz que “a realidade é só uma questão de percepção”, ele não está somente reafirmando a ideia base da série, mas também discutindo um dos pontos do psiquiatra suíço Carl Jung, criador da psicologia analítica. Uma das características do sistema junguiano, é que ele se baseia em vários autores. O filósofo Immanuel Kant aplicava em sua teoria o conceito de “conhecimento a priori”, algo que o indivíduo herda de seus antepassados. Um exemplo está na infância: muitos pais têm a impressão que seus filhos já nasceram, por exemplo, sabendo mexer no computador.

Na primeira temporada da série, Olivia afirma que sempre foi boa com números. Esse é o conhecimento prévio do qual se trata; como se um pen drive contendo informações fosse passado de geração para geração, e que fosse possível acessar estes dados. Jung então vem a utilizar esse conceito, que irá fazer parte da concepção da realidade subjetiva, algo largamente propagado por Fringe. Outro conceito importante para entender essa relatividade é o de arquétipo. Ele corresponde a uma visão pré-concebida de símbolos, como o da Grande Mãe (aquela pessoa carinhosa, que cuida e estimula). O arquétipo vem daquela mesma informação “dos antepassados”. É uma forma inicial, uma ideia a qual cada um irá preencher de acordo com as pessoas que venha a conhecer e com a sua experiência de vida. Sempre há alguém que podemos representar como o Velho sábio, o Herói, a Virgem. Em Fringe, notamos os arquétipos recorrentes de personagens, como Walter, no papel do complexo cientista.

Esses dois conceitos são parte da teoria de apologética do subjetivismo de Jung e o ponto de partida para vários episódios deste drama. Como o conhecimento a priori e o arquétipo se manifestam de forma diferente em cada pessoa, isso faz com que cada evento signifique algo distinto para cada um e que cada manifestação do Padrão em Fringe tome uma proporção única dependendo do referencial: Olivia, Peter, Broyles, Nina ou Walter. Assim sendo, cada indivíduo enxergará aquela realidade baseado em que sua psique permita. No episódio 3×17 (Stowaway), Willivia apresenta duas explicações para o caso da aparentemente imortal Dana Grey: a primeira é racional, com base na física e biologia e a segunda com fundamento na fé. Essas maneiras diferentes de ver a vida faz com que não exista uma verdade única. O que é possível para mim, pode não ser possível para você. E é nessa tecla que Fringe bate toda semana. Abra sua mente, aceite que possa existir coisas das quais você ainda não se deu conta. Dessa forma, pessoas podem desenvolver habilidades extraordinárias e universos paralelos tornam-se não apenas factíveis, como até mesmo aceitáveis.

21 respostas para “Fringe e a Psicologia Analítica”

  1. Jow disse:

    Texto mais que sensacional! Mesmo sendo bem metodológico, é explicativo. Só assim pra passar com uma potência avassaladora a intrigante série que é Fringe.

  2. Fernando disse:

    Posso ser sincero? Eu particularmente nunca achei graça em Fringe, via as propagandas mas nunca me senti motivado a querer curtir.

    Mas depois desse texto, fiquei muito curioso pra ver como se configuram essas relações que vocês fizeram com a psicologia analítica. Acho que vou dar uma chance pra série. Curti o texto! ;)

  3. Ale Rocha disse:

    Vi os primeiros episódios de Fringe e desisti. Muita gente elogia, mas mesmo assim reluto em retomar. Esse texto, no entanto, despertou enorme curiosidade em assistir à série

  4. Bruno Carvalho disse:

    Pode retomar sem receio, Ale.

  5. Camila Picheth disse:

    Valeu Fernando! E vale a pena sim assistir!

  6. Camila Picheth disse:

    Fringe começa a ficar bom mesmo lá pelo episódio 8. Se vc voltar a assistir, não irá se arrepender.

  7. TAISA disse:

    Fazia tempo q eu não lia texto tão bom. Fringe é tipo Ame-o ou Deixe-o. Quem não o entende…… Valeu Camila!

  8. Matheus de Carvalho disse:

    Ótimo texto…
    Ale Rocha, realmente o começo de Fringe é meio sem sal…mas depois, é impossível deixar de assistir!

  9. Giovanna Lima disse:

    Texto muito interessante. Espero ler mais textos seus em breve.

  10. Eduardo disse:

    “a realidade é só uma questão de percepção”. MUITO CUIDADO COM ISSO, a realidade pode ser percebida de distintas formas mas existe um estatuto ontologico da realidade, a existência de algo não é uma questão de ponto de vista, sua percepção sim. Um dos grandes méritos de Jung foi historicizar os conteúdos da psique.

  11. Camila Picheth disse:

    Em nenhum momento do texto digo que a existência de algo é subjetivo, mas sim a forma que a pessoa a vê.
    Eu resumi a teoria de Jung e usei palavras acessíveis a todos, e tenho certeza que a idéia ficou bem clara.

  12. Márcio Leite disse:

    Sou suspeito de fazer comentários de Fringe, pois um grande fã da série e de tudo que a envolve. Poucos programas de TV convidam os telespectadores a pensar sobre os fatos apresentados, por mais que seja mera ficção.
    As referências psicológicas são muito evidentes em muitos personagens e as teorias de ciência de borda fazem você até acreditar que tudo é possível, tudo dependerá do avanço da ciência realmente descobrir o outro lado.

  13. Ives Leocelso disse:

    Fringe é uma série estranha pra mim.. Tem momentos excepcionais, mas ao mesmo tempo não consigo me sentir compelido a assistir o episódio seguinte.
    Parei no começo da 3ª temporada, e o excelente texto me deu vontade de voltar a assistir! Muito obrigado.

  14. Melissa disse:

    Fringe é uma das poucas séries pela qual me apaixonei no primeiro episódio. Parte dessa paixão acredito que seja pela minha profissão de bióloga, então toda a parte científica da série eu acho interessantíssima, além de adorar a área forense e toda a manipulação de corpos que eles fazem. Uma das coisas que Fringe me fez pensar foi em todo o avanço da ciência que nós temos e como devemos usar nossas tecnologias de forma responsável, coisa que o Walter e o Belly não pensaram lá quando faziam seus experimentos e as consequências foram aparecer décadas depois.
    Fringe é realmente uma série envolvente, são poucas as pessoas que eu conheço que começaram a assistir e pararam. Aqui em casa já contagiei minha mãe e meu irmão e hoje assistimos aos episódios juntos.
    Não sei muito da área psicológica, mas achei a matéria interessante e, olha só, tenho mais uma visão da série agora.

  15. Isabel disse:

    Morro de vontade de assistir Fringe, mas não assisto por um simples motivo: já assisto séries demais.
    Mas, a cada texto, a cada comentário, tenho mais vontade de entrar pra turma dos fãs de Fringe. Desde o fim de Lost, sinto falta de uma série que dê nó na minha cabeça e me faça querer aprender mais e mais. Acho que é o caso de Fringe.
    Quem sabe não começo na midseason, né? Se alguém quiser me mandar os dvds… rs

  16. Gustavo disse:

    Ué, se você não disse que a existência de algo é subjetivo, o que significa “…aceite que possa existir coisas das quais você ainda não se deu conta.”?

  17. Gustavo disse:

    Eu fugiria dessa associação de Lost com Fringe. Seja pelo fato de ambas terem sido criadas por JJ Abrams ou pelo fato de se tratar de uma série de mistérios. Fringe é uma série policial de acontecimentos sobrenaturais, o que pode ser confundida com uma série cheia de mistérios. Porque não é! Ela só é complexa e densa, mas não é tão misteriosa quanto Lost foi. Muito pelo contrário, eu nunca me perco em devaneios quando assisto Fringe, quanto me perdia em Lost. Fringe apesar de ser sobrenatural, é muito mais sólida e transparente que Lost. Tem alguns pseudo-mistérios – digo pseudo porque não são tão mistérios-chave quanto os mistérios representavam em Lost. Por fim, Fringe se trata de uma série boa e interessante, mas muito diferente de Lost, é muito pé no chão e objetiva. O presente texto é uma maneira de ver a série, como algo relevante para a Psicologia Analítica, mas não é assim que vejo a série. Para mim a série é sobre acontecimentos sobrenaturais na Física, na Biologia num posto de vista investigativo/policial. Cada um tira proveito do que for da série. Concluindo, não acho que deve ser feita uma comparação de nenhum tipo de Fringe com Lost, porque ambas cativam de maneira muito diferente.

  18. Camila Picheth disse:

    A existência física não é algo subjetivo. Por exemplo, nunca iremos debater se uma cadeira que está na sua frente é real ou não. A questão de aceitar “que possa existir coisas das quais você ainda não se deu conta.” trata do que envolve a existência física. Explico melhor: A existência de um homem não é discutível, mas a existência de um homem com habilidades especiais é.

  19. Rubismar F disse:

    Tudo isso é pura NOÉTICA…. !!

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