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Por: Bruno Carvalho

A quarta temporada de Arrested Development

Série retorna sete anos após cancelamento num complexo emaranhado de tramas

arrestedA tarefa de Mitch Hurwitz em trazer de volta os personagens de Arrested Development após sete anos de seu cancelamento foi complicada do ponto de vista logístico e que resultou num esforço criativo que raramente temos a oportunidade de ver, especialmente quando hoje predominam na TV comédias “acessíveis” e óbvias. Arrested Development nunca foi óbvia em suas três temporadas exibidas na Fox e certamente não retornou com este objetivo. Além disso, Hurwitz aproveitou a complicação que seria reunir o elenco e transformou a quarta temporada num quebra-cabeças capaz de deixar até mesmo os maiores fãs da comédia confusos.

O Modelo Netflix

Disponibilizar todos os episódios de uma vez, para serem assistidos por maratonas ininterruptas (como fiz) ou aproveitados em pequenas doses, foi fundamental para impactar na forma e na estrutura narrativa utilizada. Para a Netflix os intervalos comerciais, audiência, cliffhangers e outros recursos necessários na TV tradicional não importam. Este modelo arrojado de negócio visa quebrar o paradigma estabelecido pela network television controlada e ditada pela Nielsen Ratings (o Ibope norte-americano) e Hurwitz (assim como Eli Roth fez com Hemlock Grove e David Fincher e Kevin Spacey em House of Cards) aproveitaram-se disso e o resultado está sendo “exibido” agora e ininterruptamente para um mundo de assinantes e à critério destes.

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Maratona

Assistir aos 15 episódios de Arrested Development em uma “sentada” é uma experiência ao mesmo tempo prazerosa, interessante, cansativa e curiosa. Eu realmente recomendo que, quem puder, vá com calma. Apesar de construída de uma forma que, mesmo sem cliffhangers, você fica ansiosamente aguardando o próximo capítulo, o próprio criador do show recomendou pausas para podermos assimilar melhor o que vemos.

Metalinguagem

Falar da própria série, assim como Community recentemente fez com propriedade nas três primeiras temporadas comandadas por Dan Harmon, é uma marca registrada de Arrested Development. Com a liberdade criativa dada pela Netflix, a metalinguagem tomou proporções inimagináveis. Isso pode ser visto desde a nova sequência de abertura que claramente menciona o cancelamento, como também nos diálogos soltos ao longo dos episódios que enaltecem as “Internet Companies” sobre as tradicionais e até mesmo na forma com que os diversos flashbacks e flashforwards foram dispostos, simulando o sistema de retroceder e avançar do próprio player do serviço de streaming. As piadas, bordões e todas as referências às temporadas anteriores estavam presentes, mas sempre com um twist e, na maior parte das vezes, bastante sutis. Note, por exemplo, quando Michael está prestes a entrar no táxi em Phoenix e queima a mão na maçaneta de ferro  em alusão ao fritador que George Sr. lançou décadas antes, fora menções mais óbvias – e não menos elegantemente construídas – como o acrônimo da igreja de Ann, (HER) que culminou nesta grandiosa e inesperada piada.

Estrutura Narrativa

Entender a estrutura desta temporada leva alguns episódios, causando estranhamento nos primeiros capítulos quando referências a acontecimentos jamais vistos eram feitas como algo intrínseco e orgânico. Mas logo descobrimos que a linha temporal da série começa com uma reunião da família num galpão da capitania dos portos, logo após Lucille Bluth ter propositalmente afundado o Queen Mary (mais uma vez, numa alusão à série ter “afundado” também), seguindo, a partir daí, com a jornada individual que cada membro dos Bluth e agregados seguiu no que eles chamaram de “território obscuro”, ou seja, nos anos em que a comédia ficou fora do ar.

Porém, rapidamente vemos que os acontecimentos isolados com Michael, George Michael, GOB, Lindsay, Tobias, George Sr., Lucille, Buster e Maeby estavam interligados num emaranhado complexo de tramas e subtramas paralelas, simultâneas e totalmente interligadas entre si, exigindo um esforço grande do espectador, mesmo aquele acostumado com as idas e vindas de narrativas compostas de séries como LOST, Fringe e Breaking Bad, por exemplo. Além dos já mencionados flashbacks  e flashforwards, a história foi contada com múltiplos pontos de vista de um mesmo acontecimento – especialmente o feriado Cinco de Cuatro e os três eventos no centro de convenção, tornando este também um exercício constante de memória (e paciência).

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A temporada

Invariavelmente presente em todos os episódios como o fio condutor estava Michael Bluth na trama mais proeminente (e talvez a mais ligada com a história externa da série), já que seu objetivo era o de conseguir autorização de todos os membros de sua família para um filme a ser produzido por Ron Howard e Brian Grazer (o primeiro narrador da série e ambos executivos da Imagine Entertainment, a responsável por colocá-la no ar) reproduzindo o mesmo esforço que seu intérprete Jason Bateman teve fora das telas para ajudar a organizar a temporada e o tão esperado filme (que, conforme disse Maeby, pode não acontecer da forma que esperamos). E ainda que a história funcione sem qualquer conhecimento prévio do espectador do que aconteceu nos “bastidores” da produção (o que, em regra, é o certo), ela adquire uma profundidade muito maior quando sabemos o que de fato ocorreu. E essa pequena indulgência que a série se permite denota uma espécie de consideração e respeito com aqueles que, assim como Bateman, nunca perderam as esperanças no retorno de Arrested.

Talvez a timeline mais complicada foi a de George Sr., já que, lançada nos primeiros e nebulosos episódios, tinha em si uma trama política que nem o próprio entendia, com a construção do tão mencionado “muro” – somente sugestionada pelo seu rival Stan Sitwell. Tudo ficou ainda mais complexo com a adição do irmão gêmeo de George, Oscar Bluth, e os diversos “vai e vem” de e para a imaginária fronteira dos EUA e México que Buster desenhou em seu falho exercício de cartografia. Além disso, com Lucille detida em três momentos distintos (em casa antes do julgamento, na prisão de luxo e na rehab de Lucille), foi ainda mais difícil acompanhar o que se passava, onde e como. Mas “montar” o quebra-cabeças foi parte da diversão.

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Enquanto isso GOB, apesar de contribuir e interferir aqui e ali, seguiu numa trajetória paralela de pseudo auto-conhecimento, protagonizando as piadas mais ácidas e elaboradas da temporada, em especial às várias alfinetadas evangélicas – chegando ao ponto de, ao se referir a uma figura de Jesus, dizer “pensei que fosse um sujeito de verdade“. Ainda, realizando um estudo de personagem preciso quando o mostrou tentando ser desesperadamente parte de uma entourage, Hurwitz construiu a recorrente e brilhante referência à abertura da série Entourage com o bar “and Jeremy Piven“.

Protagonizando episódios divertidos e peculiares, Lindsay e Tobias Fünke também passaram por transformações no período off the air para, então, retornarem com força total numa sequência divertida e atrapalhada de desventuras que culminaram na diversidade e loucura que foi o feriado Cinco de Cuatro. Aliás, todas as brincadeiras com “licenciamento” do filme Fantastic Four revela, ainda que em tom de brincadeira, a dificuldade que é viabilizar a manifestação artística com tanta burocracia e direitos autorais em Hollywood.

George Michael e Maeby, por sua vez, ganharam histórias que serviram como uma espécie de “fechamento” da temporada, amarrando as pontas que estavam soltas ao longo dos capítulos. Os roteiristas aqui pegaram a latente “paixonite” do primo esquisito com a já não tão novinha Maeby e a potencializaram com o enorme mal entendido envolvendo um aplicativo que tinha a promessa de resolver os problemas de privacidade do mundo e – em mais uma bela referência metalinguística – pirataria de conteúdo digital, quando na verdade se tratava de um dos vários softwares musicais já disponíveis para celular que imitava um bloco acústico (daí o nome Fakeblock).

A temporada também não teria sido grandiosa sem os diversos retornos, cameos e participações especiais que conferiam um brilho ainda mais distinto a toda essa algazarra televisiva. De John Slattery a Dan Harmon, de Isla Fischer a Liza Minelli, passando por Kristen Wiig e Seth Rogen, foi notório em tela o esforço conjunto e criativo. Fechando a história da temporada e ampliando as possibilidades novamente para um futuro incerto (Filme? Série? Temporada estendida?), Buster protagonizou apenas um capítulo que foi decisivo para o “gancho” final – o que aconteceu com Lucille 2? – e que despertou o interesse de altos e já conhecidos executivos da Imagine Entertainment.

michaelbluthtobias

Arrested Development retornou digna de todos os aplausos, restabelecendo-se como a melhor comédia da TV (é TV?) ou da Internet ou, melhor, da atualidade. É claro que há muito mais pra ser esmiuçado, discutido e pormenorizado, mas isso será objeto de outros encontros nossos e em outros formatos. Uma coisa é certa: foi muito bom ter os Bluth de volta!

5star

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