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Por: Davi Garcia

Breaking Bad: Blood Money

“Se você não sabe quem eu sou, então é melhor ter cautela”

Breaking Bad 509[com spoilers do ep. 5×09] A culpa de Jesse e o orgulho de Walter. Dois sentimentos que resumem bem o curso de ações que tomam forma nesse excelente “Blood Money”, episódio que marcou o início do derradeiro arco de Breaking Bad e que além de nos dar, a exemplo do que ocorrera em “Live Free or Die” (o primeiro episódio dessa temporada final), um novo e ainda mais impactante vislumbre do futuro próximo que cerca Walter White, apresentou, de maneira categórica (vide a brilhante cena final), as ameaças reais do presente que podem e certamente irão minar os planos da “aposentadoria” tranquila então planejada por Walt, que naquele futuro é o reflexo de um homem totalmente consumido e distorcido pelas escolhas que fez e pelos eventos que ainda nos são angustiantemente misteriosos.

Breaking Bad 509 Heisenberg

Retomando a trama do exato ponto em que parou quando Hank finalmente descobre que seu pacato cunhado e o mítico Heisenberg são a mesma pessoa, o episódio explora mais uma vez como o orgulho de Walter, aliado ao seu claro comportamento sociopata (vide, por exemplo, a forma como de novo mente e tenta manipular Jesse a certa altura) o guiam em direção à escuridão que seu sobrenome opõe e que ele agora curiosamente tanto tenta disfarçar ao surgir com roupas de tonalidade clara ou mesmo quando esbanja simpatia com clientes e empregados de seu lava jato.

Breaking Bad 509 (Walter White)

Com 51 anos e meses antes de assustar sua vizinha como se fosse um fantasma ao revisitar a casa então abandonada e cujo interior está pichado com a identificação de seu alter ego, Walter White é aquele animal que mesmo acuado e ferido (sofrendo os efeitos colaterais do câncer que de fato retornou), não hesita em partir para o ataque contra seja lá quem for, um fato que ficou absolutamente evidente na excepcional cena que encerrou o episódio e que trouxe Walter encarando Hank (àquela altura também consumido, mas ainda desnorteado pela descoberta que fizera) de forma aberta e, após fazer apelos infrutíferos, “aconselhando-o”, já que este disse não mais reconhecê-lo, a tomar bastante cuidado com o que faria dali para frente, numa clara referência mais elaborada e sutil à sua porção “eu sou o perigo“.

Breaking Bad 509 (Walt & Hank)

E foi nesse mesmo contexto, aliás, que também vimos Walter (1) ignorando num tom bem objetivo os apelos da outrora parceira Lydia para que ele voltasse aos “negócios” (no que também rendeu por tabela um breve momento bem marcante e de certa forma territorialista de Skyler) e (2) agindo para tentar controlar o risco inerente do comportamento errático de Jesse claramente alimentado pela culpa refletida nas mortes que cercavam a origem de todo aquele dinheiro sangrento que inclusive serviu de título para esse nono episódio.

Breaking Bad 509 (Jesse & Walt)

E se já destaquei o embate entre Walter e Hank, foi aquele mais velado do químico com Jesse que mais chamou minha atenção neste capítulo da história. Afinal, é curioso perceber como ele sintetiza bem o desenvolvimento e a jornada dos dois protagonistas da série nesses seis anos ao mostrar Jesse como aquele viciado que nunca pensa nas consequências de seus atos e age apenas na busca do alívio momentâneo ou de uma rota de fuga para suas dores mais imediatas ao passo em que Walt aparece sempre como o sujeito frio, racional e de hábitos e postura extremamente egoísta, cruel e metódica.

Sob esse prisma, a constatação óbvia: enquanto para Walter parece ser fácil seguir em frente e esquecer o que passou (ou distorcer a verdade a seu critério), para Jesse o fardo da culpa é um peso que droga ou compensação financeira nenhuma parece ser capaz de diminuir nesse jogo em que não há mocinhos e todos, em maior ou menor escala, são vilões de si mesmos.

Contundente ao apresentar as diversas motivações de seus personagens e extremamente eficaz na introdução das perguntas fomentadas pelo flash forward da abertura (o que aconteceu com Skyler? Foi morta ou está escondida? Para que Walter precisa da ricina quando tem metralhadoras a sua disposição? Um artifício final para alguém que abriu mão do tratamento do câncer depois de perder a família e está disposto a dar uma de Scarface para cima daqueles que o ameaçam?), o retorno de Breaking Bad deixa no ar uma aparente certeza de que não haverá redenção para seu principal personagem ao mesmo tempo em que reforça a grande questão constantemente feita pela série: apesar de tudo, por que nós não nos incomodamos em torcer para Walt, afinal?

5star

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