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Por: Davi Garcia

Breaking Bad: Ozymandias

Walter White está morto. Heisenberg vive

Breaking Bad 514[com spoilers do ep. 5×14]Meu nome é Ozymandias, Rei dos Reis. Vejam minhas obras e se desesperem! Nada mais resta. Em volta, só a decadência dessa colossal destruição, crua e sem limites.” Em seu poema sobre o inevitável declínio de impérios, o poeta inglês Percy Bysshe Shelley traça um paralelo sobre a queda do faraó, mas o trecho que abre esse texto podia muito bem ser usado numa eventual lápide de Walter White e seu alter ego, Heinsenberg. Afinal, a verdade irreversível que surge ao final deste ante penúltimo episódio de Breaking Bad é a de que aquele (pequeno) resquício de possibilidade de redenção do químico se foi junto do último traço de humanidade que insistia em se manifestar nele de forma conflituosa, mas que sucumbiu à sociopatia que acabou dominando esse homem que broke bad por completo.

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Dirigido com precisão cirúrgica por Rian Johnson (do ep. 3×10 “Fly”) a partir do não menos brilhante roteiro de Moira Walley-Beckett (que além de “Fly” também já escrevera o 5×08 “Gliding Over All”), esse “Ozymandias” revela o desfecho do intenso tiroteio que encerrou o episódio anterior (sim, Walter perdeu quase todo o dinheiro que escondera; Hank morreu agarrado a seu orgulho e honra ao passo em que Jesse, além de ouvir Walt confessar ter deixado Jane morrer, acabou capturado e torturado pelos trafinazis sob a sombra da ameaça de ver Andrea e Brock mortos caso não os ajudasse a “cozinhar”).

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Contudo, antes de fazer a revelação que todos esperavam, o episódio dedicou sua sequência de abertura a um flashback da primeira “produção” do então pacato químico no deserto que serviu para (1) estabelecer mais uma ponte dos eventos do presente com o início da história e (2) para reforçar a dolorosa noção de tudo que Walter sacrificou a partir daquele momento: sua identidade e, principalmente, sua família, o único elemento que sustentava de forma frágil aquele já mencionado resquício de humanidade que persistia em existir no personagem (e não foi à toa que ele apelou até o último segundo para que Jack não matasse Hank).

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E se é fato que a identidade/humanidade de Walter White já parecia condenada há muito tempo, foi justamente a perda da família, refletida pela “traição” derradeira (representada, claro, pela tentativa quase literal de Skyler em apunhalá-lo pelas costas) que ativou o gatilho que faltava para que ele se rendesse de vez à sua porção egocêntrica, impiedosa, vingativa e assustadoramente implacável que veio à tona num diálogo por telefone carregado pelo ódio e seguido pela terrível ação de um pai outrora exemplar, mas que se transformou num monstro que simplesmente se recusa a perder tudo quando a conquista já parecia tão certa e efetiva.

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Walter White está morto e tudo o que resta agora é um Heisenberg que recua na promessa de retornar como se fosse um Tony Montana sem mais nada a perder e absolutamente disposto a mandar um say hello to my little friendPra tudo e pra todos.

5star

2 respostas para “Breaking Bad: Ozymandias”

  1. raisenbãr disse:

    A conversa por telefone não foi carregada de ódio, foi apenas uma estratégia para livrar Skyler de qualquer acusação de cumplicidade, tanto que o Walter se segura para não chorar, pois sabe que daquela conversa em diante ele não terá mais nada, nem sequer o amor dos filhos.

  2. Carol disse:

    Mas também havia ódio. Parte do que ele disse não foi mentira. Walter uniu o útil (tirar um pouco do peso da esposa) ao agradável (dizer algumas verdades).

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