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Por: Bruno Carvalho

Crítica: Jobs

Primeira cinebiografia póstuma de Steve Jobs decepciona pela falta de foco

jobsJobs, filme que chega hoje aos cinemas brasileiros, é a primeira produção cinematográfica após a morte do executivo Steve Jobs e que curiosamente traz Ashton Kutcher (Two and a Half Men) no papel do visionário criador da Apple. Adotando um ritmo descompassado desde os primeiros minutos de projeção – que começa com Jobs apresentando o iPod para jamais voltar a este ponto da história – o longa segue apresentando mais erros do que acertos. Até mesmo para aqueles que não são usuários e consumidores da marca e de seus produtos, é inegável reconhecer (e até mesmo aplaudir) as conquistas deste ser-humano notoriamente problemático que, utilizando-se mais da sagacidade comercial do que inventividade e honestidade, impactou profundamente a informática, a telefonia móvel e a indústria do entretenimento. Assim, o trabalho de trazer tudo isso às telas chega com certa carga de responsabilidade, já que estamos falando de uma história recente, largamente conhecida e de uma figura pública que ganhou grande destaque nos últimos anos em biografias e especiais, seja após a popularização de gadgets como o iPod, iPhone e iPad, como após o advento da doença e morte do criador.

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Infelizmente o diretor Joshua Michael Stern, o roteirista Matt Whiteley e o intérprete Kutcher não conseguiram entregar algo que o público composto de fãs e curiosos esperava e merecia. Ignorando sem razão narrativa clara alguns marcos importantíssimos da vida do CEO – como o próprio desenvolvimento do iPod, a aquisição e ascensão da Pixar e até mesmo o câncer que culminou em seu falecimento – Jobs também gasta muito do tempo em tela com reuniões de diretoria, diálogos expositivos e personagens secundários em vez de explorar de forma mais profunda e menos esquemática a complicada personalidade do jovem rebelde, gênio dos negócios, pai ausente e perfeccionista. Estes fatos e características, em contrapartida, são apenas pinceladas pelo roteiro e executadas pela atuação-cópia sem emoção do limitado Kutcher. Enquanto isso, o talentoso Josh Gad pouco tem a fazer com Woz que, como na vida real, foi jogado a segundo plano (e aquele diálogo no carro onde o verdadeiro gênio da informática discute o possível nome da empresa é apenas um exemplo de uma ótima dinâmica que é desperdiçada pelos realizadores).

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Outras participações de bons atores como Dermot Mulroney, J.K. Simmons, Kevin Dunn e James Woods, por exemplo, soam esmaecidas pelo roteiro que não emprega foco à história que quer contar. A montagem e a fotografia também jamais se estabelecem coesas, vezes apresentando cortes secos e rápidos para emular longas e abrutas passagens de tempo ou para ilustrar – com recursos óbvios – emoções fortes e uso de drogas. Na maior parte do tempo, o trabalho de câmera limita-se a incontáveis plano/contra-plano das cansativas sequências de discussões de negócios. O fato é que Jobs teria sido um filme adequado se lançado pouco depois da apresentação dos novos iMacs ao mundo em 1998, mas pelo menos aqui exibe com fidelidade as décadas narradas em seu design de produção. Acertando ao não “endeusar” imediatamente o personagem-título, o filme infelizmente acaba se tornando um mero e parcial registro histórico de uma figura pública que foi bem mais complexa e interessante que aquela aqui retratada.

Que Sorkin consiga evocar melhor essa boa história.

2star

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