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Por: Bruno Carvalho

The Good Wife: Hitting the Fan

Grandioso

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[com spoilers do episódio 5×05] Não é casamento vermelho, roxo, amarelo… Não é gatuno, felino ou felina. O melhor episódio que você poderia ver numa série até agora esse ano é, incontestavelmente, Hitting the Fan de The Good Wife. E não se trata de estreia, final de série, final de temporada, capítulo comemorativo, nada. Apenas o quinto episódio da quinta temporada de uma das melhores séries da TV no ar hoje. “Por que afirma isso com tanta audácia?”, questionaria um leitor. Por que a esse ponto ou você assiste a este incrível drama e sabe do que eu estou falando ou não assiste e acha tudo um exagero. Não há meio termo e não é um exagero.

Em vez de enveredar-se em vingancinhas bobas, reviravoltas artificiais ou utilizar-se de qualquer artifício chama-público (notadamente o hype), The Good Wife calma e quietamente arquitetou uma das sequências de episódios mais fantásticas dos últimos tempos, numa trama que não apenas respeitou a inteligência do espectador, como também manteve-se fiel a tudo que a série já pôs em tela desde o seu piloto.

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Cada ato, fato ou decisão das últimas quatro temporadas assumiram um papel importante aqui: o romance de Will e Alicia, a eleição do governador Peter Florrick, o senso moral de Eli, os casos, os clientes, os juízes, Zack, Grace, o escândalo de Will… Tudo foi e será um fator importante  na corajosa virada dramática que todo procedural que se preze evita, representada aqui pela cisão parcial do Lockhart/Gardner e derivação do Florrick, Agos & Associates, com direito a demissões em massa, traições, complôs e muita intriga da boa.

Hitting the Fan marcou um ponto sem volta para a série e um avanço imensurável para o desenvolvimento das personagens, como dificilmente vemos na TV aberta norte-americana. Se precisarmos voltar no tempo para indicar como tudo o que vimos nesse intenso capítulo começou, apontaria como mera referência as dificuldades financeiras do Lockhart/Gardner, que impulsionou Will e Diane a adiarem a contratação dos sócios do quarto ano. Isso colocou Cary Agos em ação e o gradativo distanciamento de Will e Alicia (e natural reaproximação desta ao marido infiel em reabilitação) não ajudou.

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No jogo de interesses privados não há certo, errado, justo ou imoral. Não há como torcer incondicionalmente para somente um dos lados. Por mais que Alicia seja a protagonista, vê-la “roubando” clientes do escritório que ajudou a restabelecer sua carreira não conta muitos pontos a favor da moça. Da mesma forma, a arrogância e petulância de Will e David Lee, apesar de enérgicos, os descreditam à medida em que agem de forma impensada e impulsionados pelo ódio. A indecisão de Diane também não pode ser celebrada. Este episódio, além de tenso, ergueu uma guerra e polarizou de forma grandiosa uma mera disputa entre firmas de advocacia e sócios.

É algo trivial, que acontece todos os dias no mercado. Não há ninguém em perigo, não há guerras, carteis, assassinos seriais, espiões, fugitivos e não há dragões cuspindo fogo (pelo menos não literalmente). Ninguém morreu infectado, degolado ou explodido. Mas o poder da narrativa, especialmente na forma como cada partícula do roteiro foi bem colocada desde o início da temporada para chegar até aqui, torna épico e chocante aquilo que poderíamos classificar como prosaico.

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Hitting the Fan trouxe o impensável a The Good Wife, subvertendo o gênero “caso da semana” e colocando a outrora família feliz em um clima de batalha, onde cada movimento de câmera, olhada de canto, corte de cena, ligação ou petição ao juiz de plantão pode subitamente mudar as cartas do jogo. E no meio de toda a guerra entre Will e Alicia, David Lee e Cary (e assim por diante), a série ainda cuidadosamente plantou a pista para uma recompensa futura ao final dos próximos 10 ou 15 episódios: se ouvirem as palavras impeachmentGovernador por aí, não finjam surpresa.

Provando que uma produção aberta não precisa ser óbvia, volátil ou “acessível” para chamar a atenção, The Good Wife consolida-se aqui e prova o que eu e muitos já vínhamos dizendo há tempos: esta é a melhor série da TV aberta estadunidense e os fatos que corroboram este entendimento estão à disposição dos espectadores litigantes ao clique de um botão.

chumhumMais uma vez The Good Wife se superou e até as cenas dos próximos episódios (o que foi aquele take com a Grace, gente?), mesmo estando fora da narrativa e do contexto do episódio, foram um show à parte. Que venha mais, muito mais nesta já memorável e irrepreensível temporada.

5star

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