FOTO: REPRODUçãO

Por: André Costa

Crítica | Jogos Vorazes: Em Chamas

hungergames

Após os eventos do primeiro filme, Katniss se encontra naquele momento da vida onde precisa lidar com as típicas situações adolescentes, como o romance com os meninos, o trauma por ter matado pessoas e a manipulação por parte de um velhote barbudo psicopata e homicida e totalitário. Só que os distritos, cansados de sua função de abatedouros, começam a ensaiar uma revolução – e, para aniquilar o ânimo deles, o velhote barbudo supracitado cria uma nova edição dos Jogos Vorazes com os vencedores das edições anteriores.

The Hunger Games: Catching Fire (Jogos Vorazes: Em Chamas) é um filme melancólico. Ele já começa cinza, dessaturado, nos mostrando uma realidade totalmente sem cor – a própria Capital aqui é menos cartunesca e mais sóbria. É um mundo totalmente militarizado, com os distritos sofrendo bullying psicológico por parte da turminha que utiliza armas e exércitos e tanques para dizer “come quieto e baixa a cabeça aí senão vai para a cama sem sobremesa e sem as tripas“. Sim, a produção evoluiu, evitando o comum erro de simplesmente repetir o que deu certo no filme anterior.

E evolui bem. O clima melancólico e cinza combina com a situação, já que os distritos estão prontos para reunirem uma multidão de pessoas furiosas com tochas e tocar o terror na Capital, que, por sua vez, precisa meio que não deixar isso acontecer (e é um princípio de revolta plausível, calcado na dor, sofrimento, na perda de pessoas queridas. Não é aquele lance de simplesmente “oh, eles são os vilões e precisamos fazer algo a respeito!“). Há uma tensão, uma urgência maior, retratada também na montagem ágil e na câmera na mão, além de uma trilha que chega na área para tomar conta (embora aqui e ali tente inserir uma musiquinha mais animada que não encaixa). A direção de Francis Lawrence é precisa e bastante focada nas personagens, trabalhando os planos fechados de forma vencedora – muitas vezes a câmera praticamente dá um selinho no rosto da Katniss para que a) possamos apreciar sua beleza descomunal e b) levar o público para mais perto da moça, reforçando assim a conexão com a luta e o sofrimento dela.

emchamas

Luta, aliás, que ganha bastante em intensidade com relação ao primeiro filme – embora, claro, o grupinho de protagonistas jamais chegue a comer capim pela raiz, o que dilui um pouco a força das ameaças. Ainda assim, o filme não deixa dúvidas de que a nova arena dos jogos foi criada com o único intuito de descer o sarrafo como nunca antes um sarrafo foi descido antes, uma vez que os perigos enfrentados vêm mais do ambiente e dos realizadores e menos dos participantes. E é interessante contrastar a violência desses ataques com a inteligência que Snow usa para tentar controlar os distritos, transformando Katniss em uma estrela, exibindo-a como um chocalho para que a galera não preste atenção na balbúrdia ao redor e, mais tarde, tentando distorcer as ações da moça em uma típica campanha de difamação.

Enquanto isso, o roteiro joga na trama novos personagens que inicialmente parecem ser apenas uma função (o desenvolvedor dos jogos, o inimigo arrogante, a inimiga esquisita), mas que logo fogem da unidimensionalidade: Plutarch vai aos poucos assumindo um ar de dubiedade e segurança que se tornam cada vez mais interessantes, ao mesmo tempo em que Finnick combina sua arrogância com surpreendentes carinho e raciocínio e Johanna se mostra mais esperta e menos histérica. Peeta também ganha mais destaque, tornando-se um sujeito com mais conflitos pela forma “Disney” com que vê o mundo, sempre tentando fazer o melhor mesmo que isso lhe doa, e pela paixonite cada vez mais crescente por Katniss.

Katniss. A garota que se voluntariou no lugar de sua irmã, quase comeu as frutinhas que o diabo amassou e que neste Catching Fire continua revivendo os traumas de olhar a morte em um primeiríssimo plano e de matar – a expressão de pavor dela ao descobrir que voltaria à arena é digna de interromper uma guerra civil (e o fato de que ela mudou fica claro quando Katniss, ao contrário da outra vez, vai direto atrás da arma. Agora há raiva junto). Sempre tensa, ela não deixa sequer espaço para ficar de beijoquinhas com Gale ou Peeta, como ela mesmo confidencia ao primeiro – mais do que isso, se sujeita a uma vida de infelicidade justamente para evitar que sua família saia machucada. É esse o tamanho do medo da moça. Ela entra na dança de Snow e quer que as coisas se mantenham assim, pois isso garante a sobrevivência da mãe e da irmã, mesmo que as consequências possam ir longe demais (em certo momento, uma garotinha se aproxima dela e diz que, assim como a protagonista, um dia quer se voluntariar para os jogos).

emchamas02

E esse é o grande acerto do segundo tempo do filme: embora temas como revolução, totalitarismo e matança façam parte da produção, ela não é sobre isso. É a história dessa rapariga que saiu viva dos Jogos, mas não escapou deles (“não há vitoriosos, apenas sobreviventes“, como aponta Haymitch). Sua posição a impede de levar uma vida qualquer, e até mesmo gestos de carinho e desabafo (como o discurso sobre Rue e a luta para impedir Gale de ser açoitado) são sempre interpretados como uma ameaça ao sistema e um símbolo de revolução, quando a própria Katniss admite que não quer nenhuma dessas bolas jogadas para ela. O status político que alcançou faz com que seja manipulada não apenas por Snow, mas também pela galerinha da revolução, que monta e bota em prática toda uma situação sem levar em conta a única exigência feita por Katniss: o bem-estar de Peeta. E se torna bastante trágico que a garota que saiu vitoriosa, que desafiou o sistema e que provou ser esperta o suficiente para se unir a esse sistema quando não havia mais saída, é usada como joguete por duas forças que tentam se aproveitar da sua posição, quando tudo que ela quer é sobreviver.

Novamente interpretada por Jennifer Lawrence com uma entrega total, conseguindo cativar e emocionar o espectador através de um simples tremer de lábios ou olhar (além de viver cenas bastante dramáticas sem exagerar – reparem como é mais a atuação dela e menos a construção da cena que se torna comovente no momento em que Peeta quase morre), Katniss se torna uma personagem ao mesmo tempo trágica e forte. A presença dela em cena é magnética, e sua característica recorrente de chutar o balde só faz com que sua posição de lutadora se torne ainda mais forte. Por isso a cena final de Catching Fire é tão impactante: sabemos do que essa morena de olhos claros e andar sensual é capaz, e, agora que e a casa caiu de vez, queremos ver que coelho ela vai tirar da cartola para conseguir botar tudo nos trinques. Aliás, mais do que isso, vamos torcer para que ela consiga.

5star

Deixe uma resposta

ss