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Por: André Costa

Homeland: Gerontion

Entre pieguices e espionagens, série dá um passo à frente

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Ao que tudo indica, Homeland tomou água de coco e saiu da ressaca absoluta pela qual tropegou nos últimos episódios: Gerontion, o capítulo 3×07, deu um tapa na cara dos roteiristas e gritou “recomponham-se!”, trazendo tramas intensas, bem construídas e que devem atrasar um pouco a criação de um grupo de apoio para quem assiste à série. Infelizmente, nem tudo na vida é The Newsroom e algumas pieguices se esgueiraram pelos cantos, mas nada que atrapalhasse muito a experiência como um todo.

Sem perder tempo, o episódio logo começou no MMA psicológico entre Saul e Javadi, dois antagonistas inteligentes que ficam se estudando e tentando levar a melhor um sobre o outro – e, ao mostrar Saul ciente de sua superioridade, deixando que Javadi dê o pontapé inicial e jogando o jogo do adversário, torna o barbudo americano uma figura ainda mais central e capaz (Saul questiona cada palavra de seu interlocutor, derrubando por terra os argumentos contrários e conseguindo exacerbar os ânimos do sujeito). Aliás, o diretor interino da CIA se mostra cada vez mais faca na bota, planejando e manipulando as situações e conseguindo sempre ter uma visão mais ampla da balbúrdia – por exemplo, a segurança dele ao ser confrontado pelo senador e a forma com que contorna as acusações do político são uma maneira do roteiro mostrar que o personagem esperava por esse momento, que lidar com aquele sujeito com pensamentos tão escassos quanto seus cabelos estava previsto (até porque era inevitável). E não é nada daqueles planejamentos cheios de reviravolta tipo “oh meu Deus o Saul e a Carrie trabalhavam juntos o tempo todo e eles na verdade são irmãos gêmeos”, mas sim uma forma sensata de prever comportamentos e trabalhar em torno disso.

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Claro, o senador Andrew não se mostra uma ameaça grande porque a) ele tem cara de bonachão e b) sua personagem está ali claramente apenas para disparar falas agressivas e se tornar um obstáculo a ser superado, sem nunca buscar compreender qualquer coisa que seja. Por outro lado, a série fortalece Javaldi ao colocar o iraniano com uma percepção aguçada da situação, tentando se antecipar aos outros (ele já dá suas exigências e se compromete a cooperar antes de Saul falar qualquer coisa) e, principalmente, conseguindo – mesmo com as limitações do momento – pertubar agentes inteligentes como Carrie e Fara, entrando na cabeça delas como se fosse um mestre Jedi ou um jingle político. Afinal, por mais brutal que o cara seja, é sua sagacidade, sua capacidade de ser o anti-Saul que são mais perigosas – e, mesmo que Javadi tenha que se controlar no Irã para que não toquem o terror pra cima dele (literalmente), as características apresentadas até aqui tornam plausível que ele volte a ser um adversário.

Gerontion também aborda de forma interessante a questão do envolvimento das agências de inteligência no cotidiano da polícia: em filmes e séries, é normal vermos algum chefão de um cargo alto ligar para alguém dizendo “parem” e todo mundo dizer “sim, senhor” e sentar quietinho, como se lidar com a Lei fosse como um grande almoço de família. Mas no episódio a coisa ganha desdobramento, precisa ser negociada, renegociada, explicada e por aí vai. É uma pena que no final sirva apenas como gatilho forçado para uma crise de fé de Quinn, mas não deixa de ser uma abordagem bacana. Aliás, por falar em crise de fé, ecos da bebedeira que assolou a produção de Homeland anteriormente se encontram não só no arco “filme da Disney” que provavelmente Quinn enfrentará, mas também naquela pieguice sem sentido entre Saul e Mira (alguém realmente se importa com ela?), que surge no final apenas porque parece existir uma cota de diálogos batidos a preencher (“eu esqueci como você é linda”).

Contando mais uma vez com a ajuda de um elenco afiado (destaque novamente para Mandy Patinkin, que amplia a confiança de Saul com seus movimentos contidos e tom de voz equilibrado) e uma montagem sensacional, que mantém o episódio conciso e tenso, Gerontion não apaga os absurdos que vimos até aqui na temporada, mas toma duas decisões que enchem os fãs da série de esperança: pensa nos desdobramentos dos acontecimentos, ao invés de investir em soluções fáceis; e não coloca a Dana em cena.

4star

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