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Por: André Costa

Críica: O Hobbit – A Desolação de Smaug

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Continuando de onde o primeiro filme parou, The Hobbit: The Desolation of Smaug (O Hobbit: A Desolação de Smaug) acompanha Bilbo de Neve e os Treze Anões enquanto eles atravessam a Floresta das Trevas e a Cidade do Lago ou 24 territórios a sua escolha para chegar na Montanha Solitária, caixa forte do aparentemente desolado Smaug. Enquanto isso, Gandalf e Radagast (a versão da Terra-média para o PETA) investigam o mistério do Necromancer, que parece ser uma ameaça poderosa.

Dá para dizer que Desolation of Smaug é uma atualização de software do filme anterior: adicionaram novos atrativos, novas funções, novas personagens, consertaram um ou outro bug, mas no geral continua mais ou menos com as mesmas falhas e os mesmos sucessos – tornando-se um blockbuster até agradável, mas despido de todas aquelas características que constroem um filme épico (tão presentes na Trilogia do Anel).

Um dos avanços é o fato de que, embora ainda excessivamente longo, Desolation of Smaug possui um ritmo bem menos arrastado do que seu antecessor, principalmente graças às sequêncais de ação, que encheram a cara de adrenalina e se tornaram, na maior parte das vezes, empolgantes: da tensa luta com as aranhas na floresta (mas também, qualquer coisa envolvendo aranhas gigantes é tensa) à pancadaria alucinada na corredeira (que dará uma fase de videogame muito legal em alguma plataforma), passando pelo encontro de Gandalf com o Necromancer, a produção se esmera para que essas cenas impressionem – a aventura na corredeira, por exemplo, possui um momento sensacional acompanhando um anão em um barril descontrolado e outro em que um travelling maroto acompanha a correria de Legolas. Peter Jackson ainda consegue se aproveitar bem do 3D nas cenas de ação, como no plano em que uma flecha atravessa o campo até acertar alguém em primeiro plano, embora aqui e ali a técnica fique irrelevante graças à produnfidade de campo curta.

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A parte técnica também merece brindes com cerveja belga, já que cria um mundo completamente fantasioso e ao mesmo tempo completamente crível, utilizando o design de produção para conferir diferentes climas a diferentes lugares da Terra-Média (a Cidade do Lago, cheia de canais e estruturas irregulares que parecem improvisadas, é impressionante, assim como a dimensão de Erebor, com suas linhas retas e aristocratas. Só a Floresta das Trevas é que surge meio que como um cover da Fangorn de Lord of the Rings e de todos os filmes de Tim Burton que possuem árvores) – além disso, existem algumas sacadas visuais realmente inspiradas, como usar a silhueta de Sauron como pálpebra do olho de fogo (tudo bem, volta e meia os bonecos digitais parecem ter voltado aos 16 bits, mas são exceções). Só Jackson é que parece ter sofrido de crise de labirinto e mantém a câmera constantemente (e, várias vezes, desnecessariamente) em movimento, embora os enquadramentos tortos ajudem a criar as alucinações da floresta  e o perigo em Dol Guldur (os planos aéreos continuam de encher os olhos).

A grande questão aqui é que, assim como grande parte de The Hobbit: An Unexpected Journey (O Hobbit: Uma Jornada Inesperada), The Desolation of Smaug retrata a comitiva de anões e Bilbo simplesmente indo. OK, eventualmente eles chegam lá, mas a premissa de ficar três horas acompanhando um pessoal caminhando do ponto A até o ponto B envolve a criação de diversos obstáculos e paradas, muitos dos quais se tornam completamente irrelevantes – como a entrada na Cidade do Lago (uma das sequências que culminam com a salvação de última hora, que se reproduz também nos momentos em que Kili vai abrir um portão e Bilbo vai fugir da adega élfica) e a busca por armas nessa mesma cidade (que sequer jamais se tornam importantes no filme). Sabe aquela prova de questões discursivas onde os alunos dão voltas nas respostas para fingir que sabem mais? The Desolation of Smaug é por aí.

Além disso, a produção investe em um triângulo amoroso absurdo envolvendo Legolas, Kili e Tauriel. Absurdo porque em nenhum momento recebe desenvolvimento além de olhares piegas e trocas de historinhas edificantes, e, pior, divide a cena no clímax com a tentativa de domesticar um dragão e o encontro entre Galndalf e o Necromancer, estes sim eventos-chave na história – aliás, a decisão de usar uma montagem paralela no terceiro ato é a demência em formato fílmico, já que a constante mudança entre as histórias aniquila completamente qualquer suspense construído até ali pela trama (e o encontro de Bilbo com Smaug, apesar de se arrastar mais do que o necessário, consegue criar uma boa atmosfera de tensão). Mas tudo bem, o que é enfrentar um dragão comparado às vicissitudes de roubar uma planta de um porco enquanto um bando de orcs facilmente matáveis aparecem ali para serem mortos (inclusive, nunca se determina quantos orcs são ou como eles se locomovem, porque daí podem simplesmente aparecer conforme o roteiro precisa)?

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Mas o que realmente atira Desolation of Smaug contra as cordas é o mesmo grande problema do primeiro filme: a comitiva principal nada mais é do que um amontoado de gente, sem nenhuma personagem carismática ou mesmo forma de diferenciar (e se identificar) com os anões, que muitas vezes se transformam em uma massa disforme de barbas e narigões, ao contrário da Sociedade do Anel. Claro, Thorin ganha destaque, mas ele é um sujeito tão aborrecido e preocupado em fazer poses heróicas,tão conveniente às necessidades do roteiro (o momento onde ele desiste de tudo só por não ter encontrado uma fechadura é quase ofensivo), que dá até vontade de ver ele caindo em um precípio qualquer. E há Bilbo, que aqui é interpretado com menos maneirismos e mais carisma por Martin Freeman –  tornando-se responsável pelos bons momentos cômicos do filme -, mas até mesmo a cena em que a personagem se torna mais tridimensional (a fúria pela perda do anel) é frustrado por um diálogo expositivo logo na sequência (Bilbo pega o aneu e emula Gollum dizendo “é meu”).

No geral, The Hobbit: Desolation of Smaug é uma aventura eficiente, reunindo boas sequências de ação, efeitos visuais impressionantes e Gandalf, que é sempre um atrativo à parte (e Ian McKellen novamente se sobressai, conferindo intensidade na medida certa ao mago). Entretanto, a produção falha ao entregar qualquer coisa além disso, esquecendo de investir em um desenvolvimento mínimo de personagens para que o espectador se identifique com elas, se importe com elas, torça por elas – e, sem isso, o envolvimento do público na  trama, se torna tão invisível quanto Bilbo usando o anel.

3star

 

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