FOTO: REPRODUçãO

Por: André Costa

Crítica: A Vida Secreta de Walter Mitty

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Walter Mitty é um sujeito sonhador que leva uma existência bastante pacata e reprmida, ainda que trabalhe na revista LIFE, o que de forma alguma é uma metáfora. Mas após perder o negativo que um fotógrafo mandou para ser a capa da última edição, Walter precisa ir atrás dele antes que um cara com a barba menos crível da história do cinema descubra.

The Secret Life of Walter Mitty (A Vida Secreta de Walter Mitty) é o Eat, Pray, Love (Comer, Rezar, Amar) dos hipsters: tem nostalgia tecnológica (já na primeira cena Walter aparece com um toca-discos na sua casa), amor à fotografia, bicicleta, música do David Bowie e por aí vai. Ah sim, e também tem um monte de auto-ajuda que tenta se disfarçar de cool através da nostalgia tecnológica, do amor à fotografia, das bicicletas, do David Bowie e etc – mas, com as cenas previsíveis, a falta de dedicação às personagens e de um arco dramático forte, soa menos como uma jornada de revelação e mais como uma corrente de email com Powerpoint anexado.

A produção até começa bem, fotografando a rotina de Walter com um filtro que puxa pro ciano e mantendo a câmera normalmente estática – além disso, a simetria entre os elementos do quadro (em uma abordagem bastante wesandersoniana) e a mise-en-scéne bastante contida ajudam a criar esse clima de repartição pública na vida do protagonista. E as cenas onde ele sonha acordado são (na maioria) interessantes, desenvolvendo as situações de forma criativa e mantendo grande parte do aspecto visual (o que reforça o fato de que o sonho se infiltra inesperadamente no meio de uma situação).

Ben Stiller in a still from The Secret Life of Walter Mitty

Infelizmente, The Secret Life of Walter Mitty prefere investir mais em planos que poderiam ser postados no Instagram (contraluz, paisagens, pôr-do-sol, estradas) do que em suas personagens, o que direciona o filme inevitavelmente para o fracasso: toda a personalidade do protagonsita se resume a ser alguém que nunca faz nada da vida e que tem uma quedinha pela colega de trabalho – paixonite essa que nunca é trabalhada pelo filme, ou seja, entendemos que Walter gosta dela porque sim. Da mesma forma, o antagonista é aquele empresário frio e insensível que só pensa em gráficos e números, porque todas as grandes empresas são malévolas e saem pelas ruas tirando doces de crianças. Apostando em personagens que surgem mais como funções do roteiro do que como elementos do filme (Walter é a mensagem de que podemos mudar nossas vidas se estamos infelizes; Cheryl é o motivo da necessidade de mudar; Ted é a pressão que catalisa a mudança; Sean O’Connel é a inspiração), a produção mina o envolvimento do espectador com aquelas pessoas e se torna, no final das contas, uma história completamente estéril.

Mas até mesmo as aventuras nas quais Walter se envolve acabam soando pontuais, artificiais e muitas vezes previsíveis (o momento em que ele pula de um helicóptero é um bom exemplo). Embora as situações sejam encadeadas e tudo tenha um climão meio caça ao tesouro, é tudo muito arrumado, muito equilibrado, tudo parece estar só esperando o protagonista chegar e resolver aquela etapa da jornada (olha a facilidade com que o cara escalou o Himalaia. O Himalaia! Milhares de metros de neve e bullying na vida), impedindo que o público sinta o esforço dele e veja a personagem crescer ao longo da projeção.

Assim, o arco dramático percorrido por Walter se torna extremamente superficial – em um momento ele só sonha, em outro ele já está fazendo as coisas e era isso – e dá uma rasteira na catarse dramática que deveria existir no final da história para justificar a trajetória percorrida até ali (e que, pela falta de investimento nas personagens e no crescimento do protagonista, aqui soa mais como uma comédia romântica tradicional).

kinopoisk.ru

Prejudicado por um roteiro artificial, não há muito que o elenco possa fazer para salvar a balbúrdia; Ben Stiller se mantém acertadamente contido e com um tom de voz monocórdico, já que interpreta um cara que basicamente vive estagnado, mas tem um carisma legal para que demore um pouco a perceber como Walter é chato; Kristen Wiig cria uma Cheryl bem espontânea e divertida, com trejeitos bastante alegres; já Adam Scott se limita a ser arrogante e tentar fazer com que todos os odeiem enquanto Sean Penn, na eficiência habitual, confere a intensidade e a sensibilidade necessárias para o fotógrafo Sean O’Connel. Além disso, os efeitos visuais são excelentes, assim como a direção de arte, que trabalha bem com os diferentes cenários e brinca com o figurino do protagonista (que antes, todo certinho, acaba vestindo roupas mais despojadas). E a trilha atinge níveis épicos, inclusive utilizando Space oddity, do David Bowie, em uma situação quase literal e que acaba sendo a melhor cena do longa.

Existe um momento em The Secret Life of Walter Mitty em que Sean tira o olho da câmera e admira a vista sem ter uma telinha à frente. É uma cena bastante bonita, mostrando uma personagem aventureira e que já viu tudo claramente comovida com a situação. Mas o filme logo estraga tudo fazendo com que o fotógrafo explique o que acabou de ser mostrado, deixando bem claro que, para The Secret Life of Walter Mitty, o que importa não é envolver o público na mensagem, mas sim dizer explicitamente qual deve ser o significado daquilo. Exatamente como uma hashtag em uma foto de Instagram. Um pra eles, um pra si mesmo, né Ben?

2star

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