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Por: Davi Garcia

A ótima estreia da terceira temporada de Sherlock

Após dois anos de hiato, série britânica retorna com excelente episódio

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[com spoilers do ep. 3×01] Quando Sir Arthur Conan Doyle começou a escrever as aventuras de Sherlock Holmes ainda no final do século 19, ele obviamente nem sequer poderia imaginar que sua icônica criação ganharia releitura mais de cem anos depois, mas tenho a leve suspeita de que se ele pudesse ver o resultado da adaptação assinada por Mark Gatiss e Steven Moffat, diria que Sherlock,  muito mais do que um produto que respeita conceitos da obra que ele criou ao mesmo tempo em que busca imprimir sua própria identidade na era de smartphones, blogs, hashtags e afins, é uma dessas séries essenciais que todo mundo deveria assistir.

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Dois anos depois do cliffhanger mais comentado da TV nos últimos anos, a expectativa para o retorno de Sherlock era grande. Afinal, além da responsabilidade de explicar de forma plausível (se é que dava para fazer isso) o grande mistério deixado no desfecho de “The Reichenbach Fall”, a série também teria que encontrar meios de alavancar um novo arco que pudesse trazer tanto um senso de progressão ao desenvolvimento daqueles personagens que já conhecíamos quanto introduzir outros (como Mary, a noiva de Watson), que trouxessem elementos novos para as relações entre os protagonistas e os crimes/mistérios que investigam.

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Nesse contexto, o roteiro de Mark Gatiss para este “The Empty Hearse” (que é livremente inspirado no conto “The Adventure of the Empty House” escrito por Doyle) acerta em cheio ao colocar a “resolução” do mistério não como parte central do episódio, mas sim como um meio para refletir não uma, mas várias hipóteses que soavam ao mesmo tempo exageradas e inventivas o bastante para encontrar eco nas teorias feitas pelos fãs durante esse período em que a série esteve fora do ar.

Gatiss, aliás, foi feliz ao dramatizar as explicações (como aquela bem curiosa em que Sherlock encena o suicídio ao lado de Moriarty, por exemplo) usando ideias de supostos fãs londrinos do detetive, bem como quando colocou Anderson (que, assim como muitos de nós, ficara claramente obcecado por descobrir o segredo daquilo), “enlouquecendo” ao ouvir da boca do próprio Sherlock, a resolução logisticamente complexa, ainda que simples no conceito, o que, claro, foi um jeito divertido do roteirista nos dizer que os mistérios são sempre mais interessantes enquanto não são revelados.

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E ainda que sobre espaço para discutirmos se o que Sherlock disse a Anderson deve ou não ser levado a sério como explicação para o mistério, o que realmente importou neste retorno da série foi a maneira como se deu a retomada da curiosa relação entre o protagonista e Watson, já que este último sem qualquer dúvida foi, dentre todos os personagens, o que mais sentira o impacto da ausência do detetive.

Sob esse prisma, o episódio valorizou, entre piadas (como aquela em que Mrs. Hudson questiona a sexualidade de John) e gags fiéis ao humor tipicamente inglês (como na mise-en-scène que sustentou o reencontro dos dois no restaurante), o reestabelecimento daquela amizade que teve na ameaça da vez, a desculpa perfeita para colocar os dois personagens num perigo iminente nos subterrâneos londrinos ao mesmo tempo em que reforçou os laços de confiança que os unem numa conjunção singular de emoção (Watson) e razão (Sherlock) ampliada pela composição sempre cuidadosa e repleta de sutilezas dos dois personagens vividos por Cumberbatch e Freeman.

A espera foi longa, mas valeu a pena, não?

5star

Curiosidades:

– A cena em que Watson puxa a barba de um paciente achando que aquele era o Sherlock disfarçado, remete a uma passagem de “The Adventure of the Empty House”, conto que inspirou este episódio no qual Sherlock pregava uma peça no amigo.

– No conto, que também trata do retorno de Sherlock que todos julgavam estar morto, apenas Mycroft sabia da verdade ao passo que na série, considerando o que o próprio Sherlock diz, umas 30 pessoas sabiam do esquema.

– Os pais de Sherlock que conhecemos agora, foram feitos pelos verdadeiros pais de Benedict Cumberbatch.  Aliás, por falar em parentesco, Amanda Abbington, atriz que faz a noiva de Watson, Mary, é casada com Martin Freeman.

Este foi o episódio de maior audiência da série até aqui.

– E que tal o easter egg na cena do Sherlock no topo do prédio remetendo a uma bem parecida de Skyfall, o mais recente filme de James Bond?

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