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Por: Davi Garcia

Crítica: Ninfomaníaca – Parte 1

Ninfomaníaca

Taxado como polêmico antes mesmo de chegar aos Cinemas, Ninfomaníaca – cuja parte 1 estreou no último dia 10 de janeiro no Brasil -, tem, é verdade, uma boa dose de cenas mais ousadas aqui e ali que você provavelmente não iria querer assistir na companhia da sua avó, por exemplo. Dito isso, fato é que no fim das contas, o filme passa longe de poder ser considerado um pornô travestido de drama saído da mente de um cineasta pervertido. Afinal, amparado muito mais por diálogos (ora inspirados, ora nem tanto) do que por cenas explícitas (que sim, existem, mas sem qualquer apelo erótico dado o contexto em que ocorrem), o novo trabalho do dinamarquês Lars Von Trier (Melancolia) funciona mais como registro de uma longa sessão de terapia de uma viciada em sexo do que qualquer outra coisa.

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Estabelecendo desde o início uma dinâmica quase de consultório de psicanálise, Ninfomaníaca nos conta a história de Joe (Charlotte Gainsbourg), mulher que ao ser acudida por um senhor chamado Seligman (Stellan Skarsgård) depois de ser encontrada ferida num beco escuro, revela para aquele homem suas memórias mais marcantes envolvendo o surgimento do seu vício em sexo e as supostas origens de comportamentos e traumas que poderiam ou não explicá-lo.  Nesses relatos (que nessa parte 1 do filme centram-se totalmente na sua juventude), Joe surge como uma mulher já madura, mas que parece se dividir, de maneira contraditória, entre o arrependimento das escolhas que fez e uma postura de defesa que as justifique.

Ninfomaníaca (4)

Feita pela novata Stacy Martin (que, apesar de bela, infelizmente acaba se transformando no ponto fraco do filme pela inexpressividade), a versão jovem de Joe que conhecemos pelos flashbacks é uma garota tímida que nunca parece ter tido uma relação fraternal com a mãe (Connie Nielsen) e que encontra no pai (Christian Slater) a imagem mais próxima de um porto seguro. Com personalidade apática que se reflete na própria postura corporal da moça e seu olhar perdido, Joe embarca numa série de aventuras sexuais motivadas tanto por apostas tolas e absurdas como “quem transar com mais homens nessa viagem de trem ganha um saco de bombons” quanto pela aparente incapacidade de se envolver emocionalmente com alguém.

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A propósito, não é à toa que Joe evite se referir àqueles homens com quem se relaciona por seus nomes, preferindo quase sempre identificá-los por letras (S, F etc), como se fosse uma tentativa de reforçar o distanciamento que tinha deles. A exceção da regra é Jerôme (Shia LaBeouf), o sujeito que ela escolhera na adolescência para tirar sua virgindade e que ao fazê-lo de forma fria e mecânica (sem mencionar traumatizante), a marca para sempre meio que contribuindo para definir a própria visão que ela teria do sexo dali por diante: uma experiência que tinha que ser buscada incessantemente ainda que isso quase nunca lhe trouxesse prazer efetivo.

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Colecionando amantes ocasionais, Joe chega a fazer uma espécie de roleta russa para selecionar o parceiro da vez e monta até um cronograma dedicado aos horários em que receberia ou se encontraria com fulano ou beltrano. Numa dessas passagens, aliás, fica evidente (como se outras já não apontassem pro óbvio) o quão doentia era a relação dela com o sexo, visto que mesmo sem se permitir ter qualquer laço emocional com seus parceiros, ela acabava fisgando o interesse maior de um ou outro e sob essa perspectiva, destroçava vidas alheias.  Essa noção fica clara, por exemplo, durante toda a bizarra sequência (ilustrada com muito humor negro) envolvendo a personagem de Uma Thurman que, acompanhada dos filhos,  segue o marido (então decidido a abandonar a família) até a casa de Joe onde expõe todo o absurdo que o comportamento irresponsável da moça provocava.

Funcionando como mais um capítulo da saga de von Trier com viés depressivo, a parte 1 de Ninfomaníaca talvez seja também a mais “leve” dela. Sofre, como eu disse antes, pela inexpressividade da versão jovem de sua protagonista, mas ganha relevância por conseguir tratar de uma tragédia (e o vício, seja no que for, é sempre uma) com seriedade e até uma certa dose de humor negro.

4star

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