FOTO: REPRODUçãO

Por: André Costa

Community: Geothermal Escapism

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Geothermal Escapism sem dúvidas é um dos episódios mais importantes de Community – e, sem dúvidas, o formato escolhido para representar essa importância foi uma daquelas decisões incrivelmente corretas: remetendo aos clássicos episódios de paintball e até mesmo à guerra dos fortes de travesseiros/lençóis, quando toda a universidade se envolveu com a brincadeira (como acontece com o jogo de lava quente), Geothermal Escapism cria uma trama que por si só já traz pitadas de nostalgia, antecipando o sentimento deixado pela despedida de Troy. Mas, ao invés de ligar o modo filmes da Marvel e simplesmente repetir o que deu certo, Dan Harmon e cia construíram mais uma história criativa, cativante e que envolve também o crescimento emocional de suas personagens.

Isso tudo porque Community, sabe-se lá como (meu palpite é magia negra), consegue desenvolver as situações muito além do que a maioria dos seres humanos é capaz. Assim, um jogo simples onde ninguém pode encostar no chão acaba resultando em uma atmosfera pós-apocalíptica, repleta de diferentes gangues (os “Garotos do Armário” – uma piada nada sutil com a personalidade afeminada de Chang), nomenclaturas e até mesmo uma Ilha da Shirley, uma fortaleza que remete muito aos atóis de Waterworld – mas usando móveis (e em uma história menos absurda). A atmosfera ganha urgência pela câmera chacoalhando de leve e pela direção de arte, que chama na genialidade e utiliza as luzes de emergência para criar uma iluminação avermelhada, como se realmente houvesse fogo e calor por perto (a fotografia também realça mais o vermelho, ajudando na composição). Além disso, a série se apropria dos tradicionais recursos do gênero para subvertê-los sem piedade, como no plano/contraplano de alguém fugindo de um veículo ou na disputa entre uma bolha e um carrinho movido a extintor de incêndio (sim, esta frase está certa).

Tudo isso mantendo aquele ritmo ágil e absurdo desse tipo de episódio: a algazarra é pontuada com ótimos diálogos (“meus livros auto-publicados não vão se publicar sozinhos!“, “Acho que esse diagnóstico simboliza a ausência do seu diploma em psicologia“), a ação é levada a sério mesmo que seus elementos sejam ridículos e/ou comida (“Leonard, manteiga neles!“) e os confrontos são abordados de uma forma… peculiar (aquela trash talk entre Jeff e Britta deve ser a maior trash talk de todos os tempos). E é incrível como, mesmo com essa subversão total, Geothermal Escapism consegue construir a história até o ponto onde há um clímax bem definido e sabemos o que está em jogo, um momento claro de definição entre os dois lados – afinal, essa abordagem séria dos acontecimentos só torna tudo ainda mais engraçado (por exemplo, nomes como “caminhadores de cadeiras” ou a forma “centopéia” de se locomover).

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E, claro, há o conflito principal: a relutância de Abed em deixar Troy ir embora. O escapismo do título, representado por uma brincadeira que Abed nunca quer terminar, é confrontado pela tentativa de conscientização por parte de Britta – e é emblemático que o indiano nerd decida deixá-la para trás logo após ela sugerir que o jogo é uma forma de escape à realidade, como se aquela ideia pudesse “morrer” com a amiga. Também não é à toa que vemos Troy e Abed literalmente em uma bolha, e que a realidade da situação comece a aparecer logo após o professor Hickey furar essa bolha. É então que se percebe o quanto isso é difícil para ambos, a força da amizade deles obrigando os dois a literalmente (ok, quase) morrer para deixar o amigo ir/conseguir ir embora. O passado está morto, e agora é o futuro que vem com tudo.

Porque assim é Community, sem exageros, sem grandes dramas, apostando bastante no simbolismo e na sua forma única de transmitir informações. Certo, os abraços no final soaram um pouco piegas, mas vamos lá, se fosse de qualquer outro jeito seria errado. Além do mais, qualquer pieguice eventual é soterrada por uma fala que consegue misturar tanta carga dramática/tristeza/nerdice quanto “Quando eu te clonei, precisei completar algumas partes do seu DNA com genes de uma pomba doméstica.  Você pode sentir alguns efeitos colaterais, como uma compulsão de voltar“.

5star

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