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Por: Davi Garcia

Crítica: O Lobo de Wall Street

The Wolf of Wall Street

Dentre todos os sistemas econômicos que o mundo já experimentou, o capitalismo, apesar de todas as fragilidades, ainda é a melhor (ou menos pior) escolha. Afinal, se por um lado ele alimenta mecanismos capazes de gerar desigualdade social, por outro proporciona oportunidades de enriquecimento que nem um outro dá. Partindo desse conceito, e tendo em vista que os grandes beneficiários deste sistema geralmente são vilões da vida real (ou pelo menos percebidos assim por todos nós que estamos do outro lado da moeda), O Lobo de Wall Street, novo filme de Martin Scorsese, funciona como um registro curioso e bizarramente divertido da vida de um desses caras que, movido pela ganância sem limites e agindo sem pudores, constrói um império financeiro baseado em manipulações, mentiras, corrupção moral e muitos vícios.

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Escrito por Terence Winter (Boardwalk Empire) a partir do livro de memórias de Jordan Belfort, ex-corretor da bolsa que montou um esquema fraudulento que movimentou milhões de dólares em Wall Street na década de 90, O Lobo de Wall Street traz Leonardo DiCaprio – trabalhando pela quinta vez sob a batuta de Scorsese – inspiradíssimo na pele do próprio Belfort (que foi consultor do filme, inclusive), um sujeito que surge no início da história como aquele típico jovem recém formado em busca de um espaço no concorrido mercado financeiro, mas que ao sofrer um revés (gerado por um crash na bolsa), enxerga uma brecha no sistema e, ao explorá-la com talento singular, começa a perder todos os seus princípios à medida em que abraça a chance de enriquecer rapidamente à base do custe o que custar.

Sob essa perspectiva, O Lobo de Wall Street lembra a série Breaking Bad, já que Jordan Belfort se estabelece praticamente como uma espécie de Walter White do mercado financeiro consumido pela sociopatia motivada a partir da ambição de montar um império. Belfort, aliás, tem aquela mesma capacidade de despertar identificação no espectador ao surgir como um underdog inteligente que explora as circunstâncias que o cercam para se transformar em algo muito maior. A diferença básica entre o professor de química e o corretor, no entanto, reside na percepção que Winter, Scorsese e DiCaprio tiveram de ampliar as contradições desse personagem ao sustentar suas ações e comportamentos através de uma série de eventos que conferem à trajetória dele, um inequívoco tom de comédia do exagero e do absurdo.

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A propósito, se o próprio Jordan Belfort já não tivesse dito em entrevistas que ele realmente viveu tudo o que o filme nos mostra, seria difícil acreditar que alguém teria experimentado e conquistado tanta coisa em tão pouco tempo e principalmente naquele nível de intensidade. Dono de carisma e oratória impressionantes, Belfort é aquele vendedor capaz de convencer um esquimó a comprar gelo e de treinar, através de táticas manipuladoras, outras pessoas a fazerem o mesmo à medida em que enriquece no processo. Aliás, Belfort é viciado nisso e é justamente aqui que O Lobo de Wall Street ganha força, já que além de não tentar defender o que seu protagonista faz, tampouco deixa de evidenciar como sua dependência à vários tipos de drogas, por exemplo, sabotam seus esforços para manter a roda da fortuna então criada, girando.

Nesse panorama, a corretora que ele monta tem um ambiente de trabalho que beira o surreal com direito a drogas, visitas de prostitutas, espetáculos bizarros (que incluem até arremesso de anões!) e festas homéricas que condensavam tudo isso e serviam como prêmio para a imensa equipe de ‘colaboradores’ montada por ele ao lado de amigos como Donnie Azoff (Jonah Hill, excelente). Todo o circo em que se transforma a vida de Belfort durante aqueles anos nos revela, mais do que um sujeito de comportamento sociopata e irresponsável (tendo em vista que o esquema fraudulento que ele pôs em prática certamente arruinou muita gente), também  um cara egocêntrico e que se recusa a abrir mão de tudo aquilo mesmo quando uma investigação do FBI surge como ameaça.

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Ao ser confrontado em seu luxuoso iate por um agente do FBI (Kyle Chandler da série Friday Night Lights) – no que se torna um dos grandes momentos do filme pela natureza do díalogo -, e descobrir que nem todos são corruptíveis e seduzidos pelo ganho fácil a qualquer custo, Belfort, em vez de recuar frente o claro risco ao qual estava exposto, tem a reação peculiar dos que estão cegos pelo poder que o dinheiro traz: faz pouco caso da investigação da qual era o centro e tenta humilhar o agente que a partir dali dedica ainda mais energia ao caso.

Com quase três horas de duração, O Lobo de Wall Street perde um pouco do fôlego no terceiro ato quando a dinâmica envolvendo as jogadas de Berfort nos negócios e seus muitos abusos com drogas e outros vícios já parecem ter sido extrapolados, mas a leve escorregada é incapaz de empalidecer a eficiente sátira exagerada e carregada de humor negro que Scorsese, DiCaprio e cia (Matthew McConaughey tem uma participação curta, porém memorável) fizeram não só sobre a vida de um homem, mas também sobre os excessos e distorções que o próprio capitalismo alimenta.

5star

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