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Por: Davi Garcia

True Detective: segundo episódio confirma alto nível da série

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[com leves spoilers do ep. 1×02] E bastaram dois episódios para que True Detective se tornasse minha série nova favorita. Culpa, claro, da sua impressionante e perfeita combinação entre direção, roteiro, atuações e de todo tipo de discussão moral, filosófica etc que ela desperta de maneira instigante. Sendo assim,  se o primeiro capítulo já nos dera boas indicações de que a série trataria, como destaquei nesse texto, muito mais sobre a natureza e as constradições dos que investigam um crime do que sobre o próprio ato em si, este “Seeing Things” corroborou essa noção deixando-a ainda mais explícita.

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Reforçando, através da singular e incomum dinâmica de conflito estabelecida entre seus dois protagonistas (algo que essa cena ilustra muito bem), o conceito de que True Detective não é uma série policial comparável a praticamente nenhuma outra, esse segundo episódio escancarou de vez, e sem qualquer pudor, a ideia de que se o detetive Rust Cohle de Matthew McConaughey representa, dentre outras coisas, o tipo bad cop durão e antissocial do gênero, o Martin Hurt de Woody Harrelson por sua vez, reflete a imagem de um cara absolutamente hipócrita e que por isso mesmo se torna ainda pior do que seu parceiro.

Sob esse contexto, acompanhar o desenvolvimento desses dois personagens se torna um jogo irresistivelmente curioso, visto que, ao contrário do que geralmente ocorre na maioria das histórias envolvendo duplas de detetives em que pelo menos um deles logo se torna capaz de criar identificação no espectador, em True Detective nenhum dos dois, dada a complexidade característica de cada um, parece talhado a cumprir esse papel ainda que, em contradição, acabemos totalmente interessados em conhecer mais e mais deles.

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Cuidadoso ao conferir um senso de realidade às dificuldades que cercam uma investigação desse tipo (daí o fato de chegarmos ao final do episódio sem ainda termos qualquer ideia sobre quem seria o autor daquele crime macabro), o roteiro, mais uma vez assinado pelo criador da série, Nic Pizzolatto, preocupa-se, através de diálogos magistralmente construídos e imagens belíssimas (capturadas pelas lentes do diretor Cary Fukunaga), ilustrar a solidão e o senso de abandono daquele cenário ao mesmo tempo em que evidencia as gritantes diferenças entre seus protagonistas e a própria forma como respondem àquilo tudo.

Assim, ao passo em que o niilista Rust Cohle de McConaughey (cuja composição segue sendo um dos pontos altos da série) não faz qualquer esforço para esconder como enxerga o mundo e a humanidade de forma negativa e sombria (e talvez por isso ele tenha o distanciamento necessário para perceber detalhes que outros não veem nos crimes), o Martin Hart de Harrelson é o sujeito que se vende como modelo de perfeição e equilíbrio para todos que o cercam, mas que não hesita em abraçar desejos e desvios (como a de ter uma amante, por exemplo) que depõem, ainda que ele pareça não perceber isso, fortemente contra a imagem de paladino da moral que ele tanto tenta passar.

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Seguindo essa linha e considerando as contradições que separam esses dois personagens, um fato, contudo, já parece óbvio na série: o de que ambos foram consumidos pelo trabalho e encontraram maneiras diferentes de lidar com isso. Dessa forma, se no presente Rust já surge, pelo menos para aqueles que o ouvem, como suspeito e não parece temer nem um pouco ser encarado como tal, Martin, por sua vez, dado o comportamento errático do passado que só o espectador já conhece, parece justamente representar a imagem do lobo que se traveste de cordeiro. E é justamente por causa dessa intrigante dicotomia que True Detective se torna, até aqui, uma série de raríssimas qualidades e por isso mesmo imperdível.

5star

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