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Por: Davi Garcia

True Detective: sonhos, ‘monstros’ e afins marcam novo e ótimo episódio

True Detective 103

[com leves spoilers para quem não viu o ep. 1×03] Se a única coisa que mantém uma pessoa decente é a expectativa de uma recompensa divina, então, meu amigo, essa pessoa não vale merda nenhuma.” Tá fácil gostar de True Detective, mas são frases como essa dita por Rust Cohle que despertam em mim o desejo de rever cada episódio da série assim que terminam. Afinal, mais até do que sua fluidez narrativa e a instigante construção/desenvolvimento de seus ótimos personagens, o que define a série pra mim até aqui, colocando-a anos luz a frente de qualquer outra hoje no ar, é a riqueza de seus diálogos, do tom provocador que carregam e as muitas reflexões que despertam.

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Sob esse prisma, os primeiros minutos deste excelente “The Locked Room” são sintomáticos para reforçar os aspectos mais prementes da dupla protagonista, já que ao colocar sob discussão o papel da religião e a própria natureza da relação que as pessoas (em grande parte ignorantes, como aponta Cohle) estabelecem com ela, o texto do criador da série, Nic Pizzolato, mais uma vez expõe a forma diametralmente oposta que aqueles dois detetives tem de enxergar e lidar com a hipocrisia do mundo que os rodeia.

Assim, não é por acaso que Rust Cohle diz que os que se rendem à religião (ou conto de fadas como ele prefere dizer) o fazem para escapar da realidade à medida que Martin defende que é justamente a fé dessas pessoas em algo superior que as mantém civilizadas, já que, dentre outros, são esses conceitos que ajudam a definir o reflexo da personalidade de cada um. Cohle é o atormentado cínico que questiona as “verdades” universais. Martin o acomodado que prefere abraçar o status quo.

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Nesse panorama, o Cohle de McConaughey, que a primeira vista poderia ser encarado como o estranho com algo a esconder, nada mais é do que um cara que não se limita por convenções nem por dizer o que pensa, ao passo em que o Martin de Harrelson é justamente o oposto: um sujeito que vive sob a máscara do balisamento social que casamento, família e disciplina do trabalho dão para que assim ele possa ocultar sua real natureza.

A natureza de ambos, aliás, ainda que diametralmente oposta, traz sempre um quê de tragédia particular em comum, visto que à medida em que abraçam suas obsessões (Cohle pelo trabalho; Martin pela necessidade de viver sob o disfarce de que tem tudo sob controle), ambos se definem como homens ruins cuja existência parece resumir-se em caçar outros que são ainda piores do que qualquer uma de suas contradições.

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No momento, um desses homens atende pelo nome de Reggie Ledoux, o monstro no final dos sonhos (como define Cohle em uma de suas digressões) e que ao surgir quase como uma versão B mascarada e bizarra de um Walter White saído de um filme de horror, pode conferir uma mudança de tom no próprio ritmo da história pelo menos no que tange à ação, já que o peso das pequenas descobertas e dos mistérios sobre toda a investigação e seus investigadores  tendem a continuar sendo alimentados pela entrevista/interrogatório que acompanhamos no ‘presente’.

Dessa forma,  ao mesmo tempo em que não creio numa resolução/reviravolta a la Clube da Luta para a história como alguns já teorizam, tampouco creio que um dos dois detetives possa ser o real autor daqueles crimes, já que por mais que Cohle seja vendido como um maníaco e Martin um sociopata no limite, ainda prefiro interpretar esses aspectos como um recado da série para seus espectadores, meio que dizendo, através desses dois personagens, que a linha que separa aqueles que poderiam apelar para a violência sem maiores motivos e aqueles que realmente o fazem pode ser bastante tênue e, talvez por isso, tão intrigante.

 5star

Nota: Em função do Superbowl (final da NFL) no próximo domingo, 2 de fevereiro, True Detective retorna com episódio inédito só no dia 9.

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