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Por: André Costa

Crítica: 12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen

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Nos EUA pré-Guerra Civil, Solomon Northup é um negro livre que, após ser traído por dois artistas que acompanhava como violinista, é vendido para um mercador de escravos. A partir daí, testemunha de perto o horror dos homens brancos e maus da época, o horror dos homens brancos e (que se julgam) bons, o horror da exploração… enfim, o horror (abraço, Coronel Kurtz), em uma jornada que carrega o espectador para o olho do furacão de uma das maiores vergonhas da humanidade.

12 Years a Slave (12 Anos de Escravidão) é um filme poderoso. É o tipo de obra que leva a pessoa a ficar sentada no cantinho, quieta, pensando sobre tudo que viu. Porque, mais do que se resumir a pessoas más chicoteando negros até que um branco bondoso, corajoso e com cabelos esvoaçando ao vento surja para salvá-los, a produção mergulha na mentalidade da época, realmente mostrando como a coisa era institucionalizada. Assim, logo após dois brancos usarem e venderem Solomon sem nenhum remorso (o filme nem mostra o momento decisivo, como se fosse algo corriqueiro), um vendedor renomeia o sujeito e o coloca à venda junto com vários outros negros – e a palavra “venda” se aplica literalmente, já que ele os expõe nus em uma residência, divulgando os atributos e qualidades de cada um. Da mesma forma, em determinado momento uma outra personagem simplesmente troca seus escravos por alguns meses. Sem nenhuma maldade ou intenção de castigo, apenas por oportunidade financeira. Porque eles não são pessoas: são coisas, mercadorias, objetos.

Dessa forma, o filme permeia a opressão por toda a história, sem a necessidade de usar cenas de violência física além da conta – algo que os vitoriosos efeitos sonoros reforçam, já que mesmo pequenos tapinhas e agressões “leves” possuem baques poderosos, mostrando o quanto essas ações agridem (fisicamente e psicologicamente) as vítimas. Não que 12 Years a Slave esconda os castigos físicos: a pancadaria covarde e autoritária corre solta, ganhando novas dimensões porque McQueen faz questão de mostrar o quanto ela é normal, já que pessoas brincam e realizam atividades de rotina enquanto Solomon passa desoncertantes horas pendurado pelo pescoço na frente de todos. O simples fato de colocar os negros amontoados em locais menores do que um lanche do McDonalds já é por si só uma agressão, deixando o espectador desconfortável com o que vê na tela sem precisar apelar para sequências gráficas (o que acaba tornando os momentos violentos da película ainda mais impactantes). E a resignação dos negros diante da situação, sabendo que baixar a cabeça é a única forma de ficar vivo, dói demais.

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Isso tudo porque nos envolvemos com Solomon. É uma figura forte, inteligente, que, mesmo vendo sua tentativa de fuga mais simples e espontânea falhar (quando encontra os caras na floresta), tenta dar no pé por outros meios mais elaborados (inclusive uma carta). Aliás, boa parte das personagens que surgem ao longo do filme são complexa: Ford busca ser bom e justo, sem perceber que o simples fato de ter escravos já é desumano (e, ao “salvar” Solomon do enforcamento, ele coloca o protagonista para descansar… no chão de sua casa. Um ato de “gentileza” vindo de alguém acostumado a ver os negros como inferiores), Epps se martiriza pela paixão que tem por Patsy ao mesmo tempo em que a considera inferior e até mesmo Bass, cuja função na trama é bem pequena (e conveniente), demonstra um certo medo e receio antes de fazer aquilo que acredita ser o certo.

Assim, é uma pena que 12 Years a Slave de vez em quando aposte em momentos como a inexplicável presença de Tibeats, cuja participação se resume a ficar histérico até criar um motivo para Solomon partir. A própria posição contraditória de Ford, tão bem colocada na cena pós-enforcamento (e em outra envolvendo um violino), é depois detalhadamente explicada por outra personagem, só para ter certeza que a mensagem foi passada caso o público seja formado por cegos – e, se o filme não exagera nas cenas gráficas, o exagero no drama ocorre sem piedade no momento onde Patsy pede a Solomon um favor e em um determinado reencontro, já no terceiro ato, onde a película faz uma personagem pedir desculpas para tentar caracterizá-la como ainda mais grandiosa e digna, como se tudo que viveu até ali tivesse sido um chá da tarde.

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Felizmente o elenco não liga muito para isso, preenchendo a produção com atuações intensas – com exceção de Paul Dano, que se limita a choramingar e chutar as coisas feito uma criança (ou um adulto jogando videogame). Mas os destaques acabam ficando por conta de Chiwetel Ejiofor, que tem carisma suficiente para levar o espectador junto com Solomon e acerta também ao trocar a postura confiante (pré-escravidão) por uma mais arqueada, com os braços largados, como se estivesse rendido (e consegue passar pelos momentos de drama sem se tornar caricatural); Lupita Nyong’o, que confere à Patsey uma sutil fragilidade através de um olhar desolado, sem esperança (como o momento onde, deitada, ela levanta apenas a cabeça para olhar para Solomon); e Michael Fassbender, que torna Epps um sujeito complexo, cuja naturalidade ao se sentir superior aos negros é tão evidente quanto incômoda, reforçada com um tom de voz autoritário e movimentos duros, pragmáticos – Fassbender jamais denota o sentimento de superioridade e propriedade de Epps como arrogância, mas sim como a ordem natural das coisas. E os três conseguem fazer com que uma longa cena envolvendo chicoatadas seja, desde já, uma das mais impactantes do ano.

Ao final, 12 Years of Slave se mostra um complexo retrato do tema, fugindo (na maior parte do tempo) de cenas dramáticas fáceis e jamais buscando uma recompensa que dê uma sensação de alívio ao final. Tudo bem, de vez em quando soa bastante convencional e até tem direito a diálogos retirados de PowerPoint de auto-ajuda (“Não quero sobreviver. Quero viver”), mas a força da história transcede qualquer deslize (a trilha emocionante de Hans Zimmer ajuda bastante). Steve McQueen nos mostra um perturbador mundo onde um homem abraça chorando seu dono por ele ser menos pior do que outro; onde uma mulher desconta seu ciúme e raiva em outra pessoa como se ela fosse um objeto, como se estivesse jogando um copo na parede em um momento de descontrole. Não há saídas em 12 Years of Slave, não há compensação, não há justiça, não há nada – a não ser a descomunal vergonha que fica ao final da projeção por perceber o quanto muitos sofreram apenas porque uns se acham melhores do que os outros.

4star

Uma resposta para “Crítica: 12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen”

  1. Danilo disse:

    Esse filme foi muito triste

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