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Por: André Costa

Crítica: Nebraska, de Alexander Payne

NEBRASKA

Woody é um sujeito bastante idoso e com uma mobilidade tão instável que poderia ser muito bem titular da seleção brasileira. Ao receber um panfleto publicitário dizendo que ganhou um milhão de dólares, ele decide ir a pé até outro estado para coletar a bolada, mas seu filho logo percebe que força de vontade não é o suficiente para sobreviver a mais de mil quilômetros de caminhada e decide levar o pai até o local, conquistando alguns momentos pai-e-filho, algumas aventuras, alguns conflitos e algumas reconciliações no caminho (como em toda boa road trip).

Nebraska é um filme árido. Tomado por uma paisagem sem vida tanto na cidade de Billings quanto na diminuta Hawthorne – árvores sem folha e tortas, vegetação escassa, ausência total de qualquer coisa que remeta a líquido – , o filme faz questão de mostrar, através dos cenários, que as pessoas ali também são secas e que a existência de vida no local se baseia única e exclusivamente na teimosia. Tais características são reforçadas ainda mais pela fotografia, que utiliza o preto e branco e um grão mais grosso para mostrar que nada é colorido, tudo é sem graça e que aquelas pessoas ali provavelmente vivem eternamente com sede.

Já no primeiro plano, que encontra Woody camihando com dificuldade em frente à câmera e com a paisagem opressiva por trás, fica claro que esta será uma jornada difícil, truncada, repleta de situações divertidas e tristes. É uma trama aparentemente simples que se complica nas relações entre as personagens, e (em geral) a produção consegue tocar a narrativa de forma eficiente e justificando as ações de cada um. Por exemplo, só após três ou quatro escapadas de seu pai – que interrompem sua vida, inclusive seu trabalho chato – é que Dave entende que não é algo passageiro e resolve fazer algo a respeito. Nebraska não se preocupa em apenas empurrar a história para a frente, mas em fazer o espectador sentir que isso está acontecendo de forma natural.

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Alexander Payne acompanha tudo com uma sensibilidade incrível, abrindo o coração do espectador, colocando Dave e Woody ali e fechando a chave. O diretor aposta em uma abordagem mais parada, com a câmera estática e planos abertos que deixam a mise-en-scene rolar solta – e a simples (ok, não é simples) composição do quadro evoca diferente coisas: solidão (quando não há nada ao redor), humor (a cena no sofá) e até mesmo uma certa resignação (quando estão os irmãos na frente da TV). É uma história cadenciada, que Payne prefere olhar de forma contemplativa para nos deixar mais perto para que o público possa testemunhar o desenvolvimento das situações.

Além disso, há uma clara sensação de crescimento. O que inicia como uma trama tipo “vamos do ponto A ao ponto B” (ou seja, basicamente um The Hobbit em preto e branco) lentamente se transforma em uma exploração do passado, de relações e da necessidade de Woody em viver, em não simplesmente se acomodar esperando a morte – algo que fica claro na já citada cena onde todos sentam em frente à televisão, mostrando como suas rotinas são estáticas, tão desprovidas de vida quanto a paisagem, algo que Woody quer evitar. Portanto, o prêmio se torna um objetivo, algo para o tirar da mesmice, o que Dave acaba entendendo ao longo da jornada. Aliás, Nebraska possui uma construção tão cuidadosa que, no momento em que o panfleto do prêmio se perde, o simples fato de ver o protagonista bebendo leite ao invés de álcool é o suficiente para indicar a gravidade da situação.

Mas a produção também é esponteamente bem-humorada em muitas cenas, criando uma abordagem agridoce que mantém um equilíbrio digno de apresentação no circo para cativar o público. Aterrisando na forma ranzinza da Kate ou em diálogos estupidamente brilhantes (“lincoln nem tem uma orelha”), o humor surge de forma natural e Nebraska jamais se desvia do caminho apenas para ser engraçado, apostando muitas vezes nas limitações físicas da melhor idade ou nas limitações mentais de uma dupla de gêmeos para fazer o público rir. Assim, é uma pena que aqui e ali a bateria do GPS acabe e o filme perca a direção, investindo em conversas expositivas (“ele nunca ligou para mim ou para você”, “eu queria deixar alguma coisa para vocês”), piadas que podem ser vistas a um continente de distância (“aqueles carros nunca paravam de funcionar. Mas diga, você ainda tem o seu? “Não, parou de funcionar”) ou subtramas tão forçadas que podem ser acusadas de arrombamento (como em um momento envolvendo pessoas pedindo dinheiro ou um soco dos mais piegas na história envolvendo Ed – que também destoa da qualidade geral da produção).

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A maior vitória de Nebraska, entretanto, reside na descomunal atuação de seu protagonista: vivendo Woody como um senhor cansado, quebradiço, com uma postura curvada e a cabeça frequentemente inclinada, como se não estivesse entendendo o mundo ao redor, Bruce Dern transborda carisma e sutileza, transmitindo as sensações de Woody sem apelar para exageros -isso fica evidente na cena do cemitório e no momento onde ele pega o panfleto de volta, tornando o protagonista tão frágil que a situação toda acaba ficando ultrajante. E Dern possui uma ótima química com Will Forte, que interpreta Dave com um olhar cansado mas sempre gentil e compreensível, além de mostrar seu desconforto em determinadas situações através de trejeitos. E se Bob Odenkirk consegue ser intenso nas suas aparições, June Squibb faz de Kate Grant uma figura extremamente forte e ríspida, conseguindo ainda assim exibir o amor dela pelo marido em uma determinada cena sem perder a pose e o mal humor.

Uma cativante história de viver e sobreviver, de relações e gerações, Nebraska é aquele tipo de filme que consegue dar um significado especial a gestos simples, como passar a mão em uma caminhonete nova ou comprar um novo compressor de ar. Acaba batendo o joelho na quina da mesa algumas vezes durante o caminho, é verdade, mas o resultado final é tão envolvente e comovente que isso não chega a comprometer. Talvez não seja o um milhão de dólares que Woody queria, mas é uma história tão bem contada que a jornada percorrida pelas duas personagens acaba se tornando maior do que qualquer prêmio.

4star

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