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Por: Bruno Carvalho

Crítica: RoboCop, de José Padilha

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[O texto contém spoilers da trama] Uma sociedade reprimida pela violência cogita abrir mão de direitos fundamentais ao permitir, sob o forte apoio da mídia conservadora, a utilização de métodos paramiltares implacáveis contra criminosos em metrópoles violentas, algo que já é praticado na “dominância” que países como os EUA utilizam em sua “política externa”. Qualquer semelhança deste RoboCop de José Padilha (Tropa de Elite) com a atual realidade do mundo e a paranoia fomentada por Sheherazades, Globos e Fox News da vida, não é mera coincidência. O roteiro de Joshua Zetumer, baseado no argumento de Edward Neumeier e Michael Miner do filme homônimo de 1987, traz – num longa repleto de ação – uma crítica importante sobre o rumo que as coisas estão tomando à medida em que a população não passa apenas a aceitar, como exigir que máquinas como drones, câmeras de vigilância potentes e (no caso do filme) androides passem a ditar o estado totalitário monista da Lei e da Ordem.

Contrário a esta ideia, o senador Hubert Dreyfuss (Zach Grenier, de The Good Wife) propõe uma discussão maior sobre a utilização destes recursos em território nacional, resistência essa que é respondida com uma solução simplória do CEO da OmniCorp, Raymond Sellars (Michael Keaton), e principal interessado em ter seus recursos bélicos licitados ao governo: “vamos colocar um homem dentro de uma máquina”. E é aí que a história se torna familiar, quando o policial Alex Murphy (Joel Kinnaman, de The Killing) sofre um conveniente atentado quase fatal e partes de seu corpo são utilizadas para criar – com direito a cenas gráficas e chocantes – o andróide humano RoboCop.

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Paralelo ao comentário social, o longa não faz feio em seus quesitos técnicos. A direção de Padilha é precisa e toda a criação e montagem das sequências de ação é eficiente, forte e crua. Além disso, contrapondo diferentes pontos da narrativa com “inserts” do programa conservador de Pat Novak (Samuel L. Jackson), o filme se torna orgânico, permitindo que a trama gradativamente avance para entregar seu “golpe” final. Se num primeiro momento a existência de um robô policial implacável soa como uma boa ideia para conter o crime descontrolado em Detroit (que pode ser facilmente substituída por qualquer outra metrópole moderna), logo vemos que os interesses eminentemente privados e econômicos por trás da concepção podem ser demasiadamente perigosos.

Apesar de ser parte-humano para agradar a opinião pública e facilitar o aceite aos outros “métodos” coercitivos da OmniCorp, Murphy nada mais é do que um fantoche corporativo cirurgicamente controlado pelo Dr. Dennet Norton (Gary Oldman). Porém, o ativo passa a se tornar um problema para seus criadores quando a parte do “livre arbítrio” humano passa a assumir cada vez mais controle sobre a máquina. Impecável também em seus efeitos visuais e nas interpretações de todo o elenco – e destaco aqui Michael Keaton, que retorna ao cinema no papel de um vilão que jamais soa caricato e exagerado – RoboCop traz também uma dura (porém sutil) crítica à mania dos EUA de meter o bedelho na política outros países (e é curioso que, daqui a 14 anos, época em que o filme se passa, a base de operações da OmniCorp seja na China) sob o pretexto de “pacificador” do mundo, quando na verdade sabemos que a realidade é outra.

É claro que a maioria dos norte-americanos sairá de dentro do cinema aplaudindo as frases de efeito de Novak em seu discurso final, incapazes de compreender que seu livre-arbítrio como indivíduo está cada vez mais vendido a corporações como a OmniCorp a mando de formadores de opinião com oratória paternalista e eficiente. Os gritos de “Yeah, America” ao final da sessão que compareci nos EUA mostram que a realidade apresentada em RoboCop não tem nada de distópica e está muito mais próxima do que imaginamos.

5star

RoboCop estreia no Brasil dia 21 de fevereiro.

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