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Por: Davi Garcia

True Detective: sexto episódio valoriza estudo de personagens

True Detective 106

Pela falta de grandes surpresas ou reviravoltas (afinal, desde o início da história dava para imaginar que Maggie poderia ser a razão que levou Cohle e Marty a se distanciarem, não é mesmo?), “Haunted Houses” foi, é verdade, o episódio menos impactante de True Detective até aqui. Isso, contudo, não significa dizer que ele tenha sido irrelevante em termos de desenvolvimento da trama, já que ao ampliar um pouco mais o fascinante estudo de personagem centrado na dupla protagonista, o criador e roteirista da série, Nic Pizzolatto, também foi feliz ao construir um reflexo sutil da ideia levantada no episódio anterior: a de que todos estão fadados a repetir os mesmos comportamentos e ações.

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Partindo desse conceito, é curioso notar, por exemplo, como Marty, depois de ganhar uma segunda chance de Maggie, acabou cometendo os mesmos erros ao (1) agir de forma irascível ( como nos mostrou a sequência em que agrediu os dois jovens na cela) e (2) ao alimentar um caso extra conjugal com aquela ex-prostituta. Exatamente o mesmo tipo de coisa que minara seu casamento e, consequentemente, sua família em 1995 quando a história começa para nós.

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Nesse mesmo contexto, Cohle, depois daquele período de relativa (e estranha) acomodação, voltou a render-se não só à obsessão alimentada pelos mistérios do caso Dora Lange, bem como à visão obscura e negativa de mundo que tem. Não foi à toa, aliás, que a cena do interrogatório, na qual consegue manipular aquela mãe ao criar uma falsa empatia até o ponto em que ela confessa ter matado seus filhos, termina com o conselho seco dado pelo detetive para que ela se matasse se tivesse uma chance de fazê-lo.

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E se falei da relativa previsibilidade no que tange ao “fator Maggie” como responsável direto pelo fim da parceira Cohle/Martin em 2002, não deixou de ser curioso ver o marido ‘traído’ omitindo a explicação tanto para os colegas na ocasião da briga que protagoniza com Cohle quanto para os detetives em 2012, afinal, para o machista Martin Hart, admitir a verdade para aqueles homens era algo que ele simplesmente não se dispunha a fazer.

Da mesma maneira, é interessante perceber como a Maggie de 2012, mesmo podendo expor e diminuir a imagem até então inquestionável do ex-marido naquele ambiente, opta por não fazê-lo, talvez até pelo respeito que tinha por Cohle (cuja confiança ela sabotara ao seduzí-lo) ou, numa última análise, mesmo como saída para se preservar.

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Sob preservação, aliás, se já parece claro que o reverendo Billy Lee Tuttle tem ou tinha (para ser mais preciso, já que pelo que consta ele está morto em 2012) algum tipo de envolvimento com as mortes de mulheres e os desaparecimentos de crianças, também já parece evidente que a rede de corrupção que evitava grandes avanços na investigação iniciada em 95 pode ainda estar ativa em 2012 protegendo o segredo do passado e, quem sabe, atuando para subverter as suspeitas sobre Cohle.

Assim, ao beber nas fontes de séries como LOST (no que tange à reflexão mitológica/filosófica que sustenta), The Sopranos (ao mostrar como a vida profissional influencia a pessoal e vice-versa) e The Wire (no que se refere à maneira como valoriza os aspectos mais tangíveis e impactantes de um trabalho policial), True Detective segue – mesmo depois de um episódio que não chegou a ser brilhante como os anteriores – se estabelecendo como a grande e melhor novidade dos últimos tempos na TV.

E o fato de só nos restarem dois episódios dessa maravilha já é quase uma tortura antecipada.

4star

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