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Por: Redação Ligado em Série

Hannibal: os excelentes episódios Sakizuki e Hassun

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[com spoilers dos episódios 2×02 e 2×03] É absolutamente inevitável para os fãs de The Silence of the Lambs (O Silêncio dos Inocentes) não realizar comparações com o que assistem na tela a cada episódio de Hannibal. E ainda que essas comparações, admito, atrapalhem e muito a percepção do que estamos assistindo no momento, vão gradativamente diminuindo, embotando, até desaparecer em determinado ponto. Ao que parece, nestes dois últimos episódios tivemos o mais claro exemplo de como a série se dissociou por completo do filme. E isso é algo digno de aplausos.

A tênue linha que ainda ligava as produções residia no laço que unia Hannibal a Will Graham (persona que era representada pela figura de Clarice Sterling no filme). Utilizando jogos mentais a fim de atingir seus objetivos, Lecter manipulava Will como alguém que manuseia uma marionete, até o ponto em que o mesmo, tendo cumprido sua função no plano elaborado pelo doutor, não tivesse mais serventia. Porém, enquanto Lecter exibia apenas uma curiosidade e, ao mesmo tempo, fascinação pelo histórico familiar e profissional de Clarice, estabelecendo a troca de informações como acordo para dar as informações que ela precisava (quid pro quo), aqui Hannibal parece realmente ter desenvolvido uma ligação mais forte com Will, chegando ao ponto de alterar seus planos ao tentar tirá-lo da cadeia para reatar sua relação de amizade com o antigo paciente e retomar sua relação com o perturbado acusado.

Dito isso, é fascinante o modo como Hannibal vai se tornando mais e mais complexo à medida em que a série vai progredindo e o “sentimento” que ele parece ter por Will nem de longe atenua seus crimes e muito menos sua face psicopata (basta notar o sorriso de satisfação que surge em seu rosto no momento em que a promotora acusa Will pelos assassinatos e sugere que o responsável pelos crimes é a pessoa mais inteligente do recinto). Por outro lado, são essas novas facetas que o diferenciam do personagem composto por Anthony Hopkins (igualmente soberbo), que em momento algum deu sinais que fugissem dos claros indícios de psicopatia que podíamos perceber nele. Também é curioso perceber como o assassino parece ter começado a agir para livrar Will do julgamento – e, consequentemente, reverter seu plano inicial – a partir do momento em que sua terapeuta resolveu deixá-lo, sugerindo que a mesma funcionava como uma âncora que o mantinha estável. Agora ele parece estar mais propenso a cometer erros.

E por falar na curiosa relação entre Hannibal e sua psicóloga (onde fica bem claro que é o paciente quem toma as rédeas da consulta a todo momento), qualquer dúvida sobre o conhecimento que a Dra. Bedelia tinha da face real de Lecter foi dissipada no momento em que a mesma resolveu fugir, já prevendo – acertadamente – que seria a próxima vítima do doutor (não sem antes confirmar as suspeitas de Will ao visita-lo na prisão).

Já a direção da série até aqui alterna momentos pouco inspirados de Peter Medak, que insiste nos planos de 360° vez ou outra (como na cena de abertura do episódio 2×03, que apenas consegue entontecer o espectador) e nos closes óbvios de câmera progressiva (como na cena em que o zelador encontra o corpo do juiz, cujo movimento de câmera seria uma novidade na década de 70), mas também eficaz ao retratar o estado emocional dos personagens: ao se prepararem para o julgamento, assistimos como Hannibal e Will são metódicos e parecidos em certos aspectos; mas o diretor enquadra Lecter no lado direito da tela (o mais forte, confiante), e Graham no lado esquerdo (o mais fraco, temeroso).

O roteiro, por outro lado, continua afiado (e destaco aqui o diálogo entre Will e seu advogado, que nos proporcionou pérolas como “‘Inocente’ não é veredicto. ‘Não culpado’ é“), e a montagem, sempre um trabalho complicado, se mostra primorosa, estabelecendo uma ligação eficaz entre as alucinações de Will e a realidade que o cerca. Trazendo um Jack Crawford resignado pela doença que fatalmente levará sua esposa embora, mas esperançoso com relação a uma possível inocência para Will (o que lhe absolveria também perante o FBI), ainda somos apresentados pelo roteiro a uma “sessão de terapia” entre Crawford e Lecter, na qual o primeiro mais uma vez é manipulado pelo doutor, o que causa um inevitável sentimento de incômodo, já que sabemos que, em algumas semanas, o policial finalmente conhecerá a real face de seu atual conselheiro. E os momentos que antecedem esse confronto estão se revelando particularmente saborosos (com o perdão do trocadilho).

5star

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