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Por: Redação Ligado em Série

Crítica | Hannibal 2×06/2×07: Futamono e Yakimono

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[contém spoilers] Quando crianças, adorávamos assistir a desenhos como Tom & Jerry ou os embates entre o Coiote e o Papa-Léguas. Era divertido acompanhar as maneiras – originais ou não – encontradas por Tom e pelo Coiote para capturar seus rivais, e que sempre acabavam frustrando os perseguidores. No próximo episódio, novamente eles tentavam encontrar uma forma para atingir o mesmo objetivo, mas também não dava muito certo. E esse procedimento se repetia constantemente, episódio após episódio, até chegar o momento em que fomos gradativamente perdendo o interesse por essa disputa. E Hannibal parece estar flertando perigosamente com esse modus operandi.

Mostrando os eventos subsequentes do encontro de Miriam Lass, o que acaba por inocentar Will, os episódios continuam seu enfoque no embate entre este e Hannibal Lecter, que permanece em sua cruzada para cobrir todos os rastros dos crimes que cometeu. A seu lado, Alana Bloom ainda acredita em sua versão dos fatos, enquanto Jack parece imune a qualquer prova irrefutável que absolva o doutor, se aliando a Will em suas acusações. O grande problema desses episódios é que parte do que foi escrito sobre eles acima também se aplicaria a alguns outros dessa mesma temporada. Ou seja, a série começou a andar em círculos: Will e Jack parecem próximos de obter uma prova contra Hannibal; logo em seguida, descobrimos que Lecter já se precaveu quanto a isso e eles acabam de mãos abanando. Com isso, a série começa a andar em círculos e nada de fato acaba acontecendo.

No entanto, o que trouxe uma enorme carga de decepção foi o fato de utilizarem um expediente tão risível para que Miriam Lass não reconhecesse Hannibal como o Estripador de Cheesepeake: a nossa velha conhecida amnésia. E não interessa se ela foi provocada ou não, ou as circunstância em que ela ocorreu; o uso da perda de memória para adiar um acontecimento importante numa série não condiz com a qualidade do roteiro que até agora nos foi apresentado (espero esse tipo de argumento risível numa série-dramalhão como Revenge, não aqui); pelo contrário, soa como uma pobre conveniência que permite ao roteiro enrolar um pouquinho mais nesse ponto. O fato de que Lecter aparentemente implantou em Miriam a certeza de que era Chilton quem a estava aprisionando torna tudo ainda mais implausível (e torço para que a explicação de tudo isso seja bem convincente e me contradiga).

Também é bem difícil imaginar como Hannibal transportou um Gideon moribundo com todo um aparato médico para a casa de Chilton sem que uma câmera de tráfego não o flagrasse (bem como sua visita ao hospital, que não possui um circuito interno de vigilância, mesmo com um conhecido assassino hospitalizado no local). Ao mesmo tempo, beira o absurdo o fácil acesso que Lecter tem aos mais variados aposentos e residências (por exemplo, toda a opulência da casa de Chilton nos leva a crer que ele deveria ter algum tipo de alarme instalado nela, não?). Por sua vez, Alana Bloom continua sendo uma figurante com meia dúzia de falas ocasionais, e sua reação de quase indiferença amorosa para com Will soa contraditória se compararmos o tipo de sentimentos que ela nutria pelo amigo antes que ele fosse acusado. Bastou uma noite com Lecter para que ela esquecesse tudo aquilo que passou com Graham?

Por outro lado, a série continua acertando em seus aspectos técnicos: a montagem do episódio novamente se mostra eficaz ao estabelecer uma ligação entre a realidade e a fantasia na mente de Will, e a fotografia continua a investir numa paleta dessaturada (curiosamente, esse recurso ganha força na cena final entre Hannibal e Will, quando este surge vestido com cores mais fortes, indicando que o tom da série deve mudar de agora em diante). A direção tambem foi feliz ao utilizar alguns recursos de câmera que tornam Hannibal mais perigoso ainda, como na cena em que Chilton se depara com Lecter em sua casa e podemos ver apenas as pernas do doutor frente ao outro subjugado no chão (se não conseguimos ver a ameaça, ela se torna ainda mais ameaçadora), bem como planos que trazem o psiquiatra num belíssimo contra-plongè.

No entanto, não adianta brilhar por sua técnica, mas pecar na história que se propõe a contar, e já passou da hora de Bryan Fuller dar um novo rumo à série, antes que comecemos a torcer pelo Papa-Léguas por acharmos o Coiote bobo demais.

2star

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