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Por: André Costa

Ação continua desenfreada no terceiro episódio de 24: Live Another Day

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O terceiro episódio de 24: Live Another Day, temporada onde Jack Bauer vai mostrar que é tão chutador de bundas que fará tudo na metade do tempo das outras, manteve o tradicional ritmo de urgência, de desconfiança, de imprevisibilidade e de correria ensandecida. A coisa é tão tensa que os poucos momentos de respiro são em situações familiares onde a desconfiança é quase total. Assim, apesar de um tropeço em uma cena importante e de murchar na trama do presidente, o episódio provoca nos espectadores o nível de taquicardia necessário para fazer jus à série.

E é incrível como o número menor de episódios torna a coisa mais concisa: desde o início, todas as histórias se conectam direto ao plot principal, sem ficar de enrolação ou esperando muito. Com isso, a sensação de que algo está prestes a acontecer fica ainda maior – e 24: Live Another Day mantém a tradição de subverter a expectativa do público diante de certas cenas, seguindo uma abordagem padrão para depois criar um obstáculo e jogar as personagens no olho do furacão. Assim, por exemplo, esperamos que o otimismo do presidente prove que seu genro, como todos os outros genros do mundo (ao menos na visão dos sogros), está errado, mas mal ele dá ignição nas cordas vocais e o linchamento verbal já começa.  O mesmo com a ida de Bauer à embaixada, que de bem organizada vira o caos absoluto. Essa atmosfera de imprevisibilidade ajuda com a tensão e é uma das responsáveis pelas pessoas assistirem à série com uma cartelinha de Omeprazol ao lado.

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Além disso, mostra que é um universo povoado por personagens que manjam do riscado. A forma que Kate achou de fazer o suspeito falar, o modo como Simone escapou do vagão do metrô e a entrada de Bauer na embaixada foram saídas inteligentes e improvisadas, provando que essas pessoas são mais do que qualificadas para brincar de polícia e ladrão. A entrada de Bauer, aliás, é chocante e maníaca de uma forma clinicamente insana, mas completamente de acordo com alguém que está disposto a tudo para completar sua missão. Afinal, esse é o mundo da espionagem e de tiroteios eventuais, e se preocupar com os sentimentos ou a saúde das panturrilhas alheias seria mais um obstáculo em uma situação já abarrotada de obstáculos. 24: Live Another Day entende que o anti-herói não é só alguém com cara de mau, mas alguém que consegue cativar e assustar o público.

Ainda nesse clima de “todo mundo é substituível”, temos uma terrorista que mantém o genro na coleira e comemora o sucesso da filha em uma missão mexendo em uma ferida – tipo, literalmente (não quero nem pensar o que acontecia quando a moça quebrava um prato sem querer). O contraste entre a preocupação de Margot ao costurar um corte do tamanho do Grand Canyon na perna da filha e o castigo enquanto faz essa costura torna a mulher dura na queda, implacavelmente obcecada com a missão, não importando quem ela tenha que machucar costurando no caminho. Sim, o episódio determina muito bem que Margot não é flor que se cheire e que você não gostaria de cruzar com ela em um beco escuro (ou mesmo em um beco iluminado).

Fica bem claro também que, no universo de 24: Live Another Day, não há espaço para amaciar ambições ou objetivos. Cada um está ali por um motivo e discursos piegas não vão mudar a cabeça das pessoas (ok, na maior parte das vezes) -assim, Adrian não se comove com o pedido de Jack, Mark não se importa de magoar a família com as decisões que acha corretas e por aí vai. Nada nunca é fácil, até porque normalmente as situações envolvem armas e tal. Tem lugar até para política, seja no claro questionamento à eficácia dos drones, na forma com que ações de campo estão sujeitas a maquinações políticas ou nos prejuízos que um evento pode causar.

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Por isso, fica difícil entender a cena súbita e convencional onde Chloe, em uma coincidência tão incrível que não exige suspensão da descrença, e sim o nível olímpico em salto em altura da descrença, conta a Jack sobre o que aconteceu com a sua família. O momento em si já não é muito envolvente, uma vez que Mary Linn Rajskub deixa bastante a desejar na atuação, mas seria bem passável se não tentasse convencer o espectador de que aquela solução é realmente séria e que não, ninguém vai voltar no tempo e refazer ela. Da mesma forma, o episódio entra em coma enduzido sempre que volta à trama de Mark e Heller: girando ao redor da batida ideia de ter um chefe de gabinete que discorda de tudo que seu presidente quer fazer, a história acaba soando maçante e até aqui falha na criação de algum conflito ou envolvimento emocional.

Fotografando Londres com as cores mais dessaturadas e puxando para o ciano, a série aposta em um visual documental que combina com a câmera na mão, os zooms frequentes, os enquadramentos próximos dos atores e a montagem frenética (os planos normalmente são curtos). Há que se elogiar também a direção de arte, que, usando bem tons impessoais e estruturas irregulares, torna a mansão de Margot um lugar claramente desconfortável e nem um pouco aconchegante. Tudo isso para manter unhas sempre roídas e sequestrar a atenção do espectador, já que a tensão é grande, a história caminha em direção a confrontos épicos, frases de efeito são ditas (“quatro minutos até a próxima estação“, “precisamos chegar lá em três“) e algo de importância imensurável pode acontecer a qualquer hora – talvez até na próxima.

4star

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