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Por: André Costa

Crítica | O inesquecível final de Friends

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E acabou. Foram dez anos de noivas entrando em cafés, trigêmeos, dinossauros, namoros “dando um tempo”, massagens, lésbicas, “how are you doing?”, Londres, participações especiais, Days of Our Lives, namoros secretos, portas destrancadas. Dez anos de sarcasmo, maluquice, obsessão por limpeza, por compras, palentologia, conquistas amorosas e companheirismo. Dez anos de Friends se encerrando em um episódio envolvente, divertido, caloroso, que faz a gente dar risada e ficar com a garganta embargada. Agridoce como toda despedida acaba sendo.

Com 50 minutos de duração no total, as duas partes de The Last One acertadamente colocam as desventuras cotidianas de lado e mergulham na mitologia da série, levando para a trama diversos elementos consagrados em temporadas anteriores: o táxi de Phoebe, o pato e o pintinho, Regina Phalange, a mesa de pebolim, o “aperto de mão descolado ou abraço esquisito?“, a estátua do cachorro, o ódio da Mônica pela estátua do cachorro e por aí vai. Mas tudo entra de forma extremamente orgânica na narrativa, complementando as cenas e os temas ao invés de chamar a atenção para si (Regina Phalange é só o motivo que tira a Rachel do avião; a mesa de pebolim, o símbolo da dificuldade que Chandler e Joey têm de se separarem). Assim, a história corre de forma fluida e esses pequenos momentos pontuam o episódio com homenagens ao passado, provocando no espectador aquele sorriso reconfortante que só a nostalgia é capaz de proporcionar.

Mas, claro, é o series finale, e as coisas precisam se mover para a frente. E The Last One preenche bem seus minutos desenvolvendo as tramas – por exemplo, as cenas no hospital não se estendem nem repetem situações batidas, preferindo brincar com as relações entre as personagens ao invés (e torna-se responsável por uma das melhores tiradas do episódio, “talvez seja melhor você omitir isso, então“). Aliás, The Last One é completamente centrado nos seis amigos, sem muita presença de coadjuvantes ou figurantes (a não ser por uma pequena e ótima aparição de Jim Rash, o Dean Pelton de Community), em uma decisão que reforça ainda mais os laços de amizade entre o grupo, como se, perto da separação, fosse importante que eles passassem o máximo de tempo possível juntos (e que nós, o público, passássemos o máximo de tempo possível junto a eles antes da despedida).

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Afinal, tanto tempo com as câmeras apontadas para os protagonistas aproxima e envolve ainda mais os espectadores. E é interessante notar como Rachel é a que aparece mais tempo sozinha, uma vez que ela é quem está se afastando mais (inclusive mal teve tempo de ver os gêmeos) e o contraste entre as suas cenas (sozinha) e as do resto do grupo (nunca sozinhos) ilustram de forma sutil a falta que essas amizades vão fazer. Da mesma forma, parece que cada um se apega a uma coisa para evitar a chegada do futuro – Joey e Chandler com a mesa, Ross com a Rachel e Phoebe tentando ajudar os dois a reatarem. Só a Monica parece mais conformada porque, com esse novo papel de mãe, conseguiu seguir em frente (algo que eventualmente todos acabam fazendo).

Lógico, tudo isso acontece em um episódio anabolizado de momentos divertidos, seja em tiradas inspiradas (“não desde que a minha série policial foi cancelada“, “eu tenho tanta sorte em ter casado com você“, “você pisou no meu rolinho primavera?“) ou naquelas sequências histéricas e sensacionais onde todos em cena parecem fora de controle (a parte do táxi, basicamente). O humor de The Last One é extremamente dinâmico, com frequência pegando o espectador de surpresa (“essa janela está incrivelmente limpa“) e investindo nos desdobramentos das piadas (“apenas coloque no prato e vá embora“). Até mesmo alguns momentos mais previsíveis conseguem uma ou outra risada graças ao talento do elenco – como o overacting de Matt LeBlanc na cena em que Joey descobre a “surpresa”.

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Investindo também em uma abordagem menos esquemática no que diz respeito ao casal principal, The Last One foge das convenções ao “frustrar” as expectativas da tradicional “corrida desnfreada para impedir a pessoa de viajar” (uma instituição das comédias românticas) quando Rachel volta para o avião – aliás, até mesmo o discurso de Ross, sincero, cru, um pouco hesitante e nada “poético”, mas carregado de emoção, demonstra a urgência e importância do momento. E graças a isso o episódio cria uma cena memorável onde, após uma rápida sequência muito bem sustentada por David Schwimmer, Rachel fala “eu consegui descer do avião“, uma aula de como conferir significado a um simples diálogo (e vamos lá, é nada menos que emblemático que uma ida ao aeroporto seja o catalisador de tudo, pois foi dessa forma que a atração entre os dois se tornou recíproca lááá na primeira temporada, quando Ross viaja para a China).

Assim, o último episódio da última temporada de Friends encerra a série com tudo que tem direito, de gêmeos a corridas de táxis, de mesas de pebolim a abraços embaraçosos, se despedindo com o mesmo humor e o carinho que manteve pelas personagens durante dez anos. E quando percebemos que o apartamento só ficou vazio quando as situações foram resolvidas, os problemas foram superados e Ross, Rachel, Chandler, Monica, Joey e Phoebe seguiram em frente, percebemos que devemos seguir em frente como eles. E, quando bater uma saudade, sabemos que a qualquer hora podemos reencontrar os velhos amigos – afinal, mesmo quando a chuva começa a cair, eles estão aqui do nosso lado.

(apaga a luz do abajur ao lado do sofá)

5star

5 respostas para “Crítica | O inesquecível final de Friends”

  1. Israel Alcântara Wysty disse:

    Recentemente assisti a série desde o primeiro até o ultimo episódio na Netflix, no fim me deu um aperto no coração e ao ler essa matéria, uau, um nó na garganta. Nunca havia assistido a série em sequência, e sinceramente, o final me deixou com um medo do futuro que certamente foi superado kkk. Parabéns pela análise.

  2. Ilka Cardoso disse:

    Eu já assistir muitas vezes do começo ao fim, mas toda vez que faço isso e me aproximo do The Last One dá um aperto e parece que é a primeira despedida. E lendo essa matéria…ual dá aquela vontade de chorar como se passasse um filme com todos os episódios deles…a forma como foi divertido ver o amadurecimento desses 6 inesquecíveis amigos. Amo e pra sempre amarei <3

  3. Diogo Barroso disse:

    Eu ainda estou assistindo a primeira temporada,… mas estou super curioso em saber se Roos e Rachel ficam juntos ou não… digam-me por favor… gosto do casal

  4. Michelly Gomes disse:

    Assista tudo, Diogo! Vale a pena descobrir sozinho. ?

  5. Robson Oliveira disse:

    Assisti toda a série em sequência pela Netflix. Meus momentos favoritos eram quando a Phoebe ficava histérica e gritava. Eu ria tanto! Vou levar esse grupo de amigos para sempre comigo.

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