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Por: André Costa

Crítica | Como Treinar Seu Dragão 2

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[contém spoilers do filme] Esta é Berk. Após descobrir que répteis alados e cuspidores de fogo são os melhores amigos dos vikings, a aldeia se tornou um lugar animado, repleto de corridas de dragões e lançadores de ovelhas. Entretanto, enquanto buscava emular o Google Maps por aí, Soluço descobre uma nova ameaça na forma de Drago, um entroncado e maligno caçador de dragões com nome de adversário do Rocky e que não é bom em fazer amigos – e, para dar cabo do problema, Soluço e Banguela terão que passar por muitas piruetas no ar, trilha épica e até mesmo um reencontro inesperado e emocionante.

How to Train Your Dragon 2 (Como Treinar Seu Dragão 2) é realmente uma continuação do primeiro filme: ao invés de simplesmente repetir o que deu certo no anterior, expande a história, pensa nos desdobramentos e consequências das ações da película anterior e coloca suas personagens em novos conflitos. E, melhor, o faz enquanto bombardeia sequências de ação emocionantes polvilhadas com situações hilárias, criando uma narrativa tão cativante que dá vontade de pedir ela em casamento ao final da projeção.

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Para isso, apresenta novos elementos que surgem das mudanças estabelecidas no primeiro filme, como as corridas de dragões, os novos caçadores (e a escassez de dragões para eles caçarem) e a busca de Soluço por descobrir que terras estão escondidas por esse mundão afora. Ao longo de How to Train Your Dragon 2, o espectador vai descobrindo as coisas junto com as personagens, em uma abordagem que anaboliza a narrativa de tensão e imprevisibilidade (por exemplo, o comando do Alfa sobre os outros tira a principal arma dos vikings) enquanto permite que, graças à qualidade desconcertante da  animação e ao apuro visual do diretor Dean DeBlois, o maravilhamento de Soluço em determinados momentos transborde tela afora e afogue o público com a beleza das cenas (se agências de turismo tivessem pacotes para as terras que o garoto descobre, ninguém mais iria para o Caribe).

Aliás, Dean DeBlois – co-diretor do primeiro filme ao lado de Chris Sanders – mostra que manja e muito do riscado ao investir em planos longos, que acompanham o (insira aqui o coletivo de dragões) e mergulham o espectador na ação. As sequências de voo são absolutamente fantásticas ao aproveitar toda a liberdade da animação para circular, passar por cima, por baixo, utilizar planos subjetivos e muito mais, sendo claramente construídas para matar todo mundo de vertigem (e é interessante perceber como a câmera “passa” pelo Soluço quando ele abre seu wingsuit medieval, mostrando como a invenção do rapaz desafia a gravidade). How to Train Your Dragon 2 é um passeio por chãos feitos de nuvens e paisagens de tirar o fôlego.

Além disso, a abordagem do diretor jamais é burocrática, utilizando suas lentes (virtuais) para atribuir significado às cenas – por exemplo, o momento em que Soluço é apresentado ao Alfa revela a grandiosidade daquele Godzilla albino, e, quando o mesmo plano é repetido na hora em que Stoico e Valka fogem do outro Alfa, essa dimensão ganha ares assustadores. Planos-detalhe, câmera lenta e outros recursos cinematográficos são usados na dosagem certa para informar e/ou criar humor, como na cena em que Cabeçaquente bota os olhos em Eret (e cujo grito de “me leva” no desfecho é um dos momentos mais engraçados do ano) ou quando Melequento e Perna-de-Peixe salvam a mesma Cabeçaquente.

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E tudo isso é feito com uma animação espetacular, fluída, que impressiona seja no movimento da água ou nos detalhes mínimos  (a barba de Stoico em alguns planos fechados merece por si só um Oscar de animação). Até mesmo os movimentos das personagens são diferenciados, já que o andar pesadão de Stoico nada tem a ver com os trejeitos desajeitados de seu filho ou os movimentos leves da Valka. Inclusive os dragões se destacam nesse quesito, já que seu comportamento físico remete bastante ao dos animais de estimação que temos aqui no mundo de carne e osso (e que não cospem fogo), o que se torna um gigantesco catalisador da empatia do público para com os bichanos e permite gags físicas hilárias, como a língua de Banguela presa no gelo ou Tempestade correndo voando atrás de um objeto.

Mas, acima de tudo, How to Train Your Dragon 2 é um filme de personagens. E sabe disso. Assim, a película apresenta diversas cenas que mostram a interação entre a galera, investindo nos relacionamentos por saber que, quanto mais o público sentir que aquela relação é verdadeira, mais vai se envolver com ela. Através dessa abordagem, cria uma dinâmica divertida pacas entre Soluço e sua turminha (cada um tem sua função no grupo), Soluço e Astrid (a conversa entre eles logo no início, repleta de interrupções e tirações de sarro, ilustra o quanto um entende e se diverte com o outro) e, principalmente, Soluço e Banguela: o relacionamento implicante, descontraído e leal dos dois transborda cumplicidade, e ver eles sorrindo ao voarem lado a lado é uma das cenas mais bonitas do longa.

O que não impede a película de pegar toda essa sensibilidade e cuidado na hora de construir as relações e usar como uma faca para cortar o coração do espectador. A cena da morte de Stoico, após um tempo precioso gasto para mostrar a doçura da Valka e a felicidade da reunião familiar, é daquelas coisas que dão um nó de marinheiro no estômago, ainda mais quando perpetrada pelo melhor amigo do Soluço. Uma decisão ousada e que, além de toda a carga dramática que carrega, escreve em letras garrafais que Drago não é uma ameaça leviana e que a batalha terá consequências. A jornada de Soluço não é fácil e How to Train Your Dragon 2 constrói um herói mais humano e dá mais valor às suas conquistas através dela.

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É verdade que, embora extremamente eficiente em sua função, a trama da Valka acaba diluindo um pouco a narrativa principal, que não chega a atingir a escala que deveria (é como se tivesse pegado um atalho de um ponto a outro), e o desfecho da batalha fica um pouco aquém do nível de levantar os braços e gritar “é isso aí!” esperado. Mas são problemas menores em um roteiro que flutua pela aventura, ação, drama e humor com coesão, colocando os elementos na narrativa de forma orgânica e sem apelar para soluções fáceis, além de apostar em diálogos hilários (“Ele tem vinte anos e é um viking. É a pior combinação possível“). Nada soa gratuito, tudo contribui para a atmosfera envolvente da produção.

Contando com um 3D vitorioso graças à grande profundidade de campo usada pelo diretor (e constantemente as piadas em segundo plano tornam a cena mais divertida) e uma trilha que deve ser a versão musical do sentido da vida, How To Train Your Dragon 2 é uma experiência envolvente, emocionante, engraçada, cativante e épica a ponto de chover cópias de Ben-Hur na sala de cinema. Não só um dos melhores blockbusters do ano como um dos melhores filmes do ano. Um daqueles de encher os olhos e capaz de mergulhar o público em uma história bem construída e bem contada. Amigos da DreamWorks: seja lá  que estiverem fazendo, atirem tudo para a Sony e invistam só na série How to Train Your Dragon. É aí que está o pulo do dragão.

5star

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