FOTO: REPRODUçãO

Por: Bruna Bottin

Crítica | O Negócio: a primeira temporada

ONegocio-Painel

Resumindo em uma frase, O Negócio é uma série da HBO Brasil sobre o universo das garotas de programa. “Mas brasileiro só sabe falar de putaria, né?”, talvez você pense – eu admito que fiz isso e julguei a produção como superficial antes da estreia em 2013. Mas não se deixe enganar pelos conceitos prévios que já estão infiltrados em sua mente. Abra a cabeça e invista nesse negócio, pois o retorno é garantido.

A primeira temporada inicia com calma, apresentando as lindas três protagonistas: Karin (Rafaela Mandelli), Luna (Juliana Schalch) e Magali (Michelle Batista). Com 31 anos, Karin percebe que, apesar de anos no ramo da prostituição, ela ainda não atingiu o status que queria para se aposentar. Cansada de depender da boa vontade de Ariel (Guilherme Weber), o seu booker (nome chique para cafetão), ela decide que não precisa de ninguém para agencia-la e resolve fazer programas por sua conta. Já Luna está mais interessada em encontrar um homem rico que possa bancar a vida de dondoca que sempre sonhou. Menina de família, esconde de todos os parentes a sua verdadeira profissão, mantendo inclusive um relacionamento falso com Yuri – o namorado perfeito no papel. E se Karin e Luna, de um jeito ou de outro, estão preocupadas com seu futuro, Magali quer mais é viver intensamente cada dia que passar nesse mundo.

Apesar das personalidades diferentes – representadas muito bem pelo figurino de cada uma -, as três mulheres encontram algo em comum: a vontade de subir na profissão que compartilham. Chega de boate, booker ou homens que possam ostentar somente uma semana de vida luxuosa. Elas querem (e merecem) muito mais. Porém, como fazer sucesso sem alguém para arrumar os encontros, já que discrição é a exigência número um da área? Usando estratégias de marketing, por que não? “O marketing está em todo lugar, menos na nossa profissão”, é o que Karin explica para as amigas que topam entrar nessa jogada. E então, pouco a pouco, nasce a Oceano Azul, empresa de qualidade de vida nomeada por um conceito de marketing que significa o mercado inexplorado.

ONegocioHBO

Eu diria que a qualidade da série sobe à medida em que a empresa das garotas começa a se estabelecer. Um dos melhores momentos da temporada ocorre quando Karin decide realizar um focus group – técnica utilizada na pesquisa de mercado qualitativa – para entender seu público-alvo: os homens. São em cenas como essa que O Negócio mostra a que veio, fazendo piada da hipocrisia da sociedade em relação à prostituição. A grande maioria utiliza (e muito) o serviço, mas são poucos que tem coragem de assumir que pagam por sexo. E assim a Oceano Azul vai conquistando mercado, começando por despedidas de solteiro, overbooking (sacada GENIAL) e cavando oportunidades ao aparecer em quadras de tênis para partidas noturnas, sempre com o foco de evoluírem para garotas de programa de luxo.

Por que cobrar 600 reais, se você pode cobrar 15 mil – ou melhor, deixar a critério do cliente generoso e satisfeito – com a abordagem certa? Karin, Luna e Magali logo estão marcando encontros com os homens mais poderosos e ricos do empresariado paulistano, e óbvio que isso acaba despertando a curiosidade do booker judeu Ariel. Esse personagem, por sinal, demorou para cair nas minhas graças. Fugindo do estereótipo cafetão badass, Ariel é caricato demais para o meu gosto, mas o ator Guilherme Weber está excelente e logo se torna indispensável como alívio cômico – mesmo quando deveria representar algum tipo de ameaça inicialmente. Destaque para o jogo de poker cafetão style.

Com a ajuda de Oscar (Gabriel Godoy), o trambiqueiro que tentou dar o golpe do baú em Luna (e vice-versa), as garotas criam a identidade de superiores, exclusivas e únicas. O reposicionamento da marca até lembra uma frase de Frank Underwood em House of Cards“Tudo é sobre sexo, exceto sexo. Sexo é sobre poder”. Elas não estão mais vendendo apenas o corpo e suas habilidades sexuais, e sim poder e status para os seus clientes. As discretas abotoaduras da Oceano Azul consolidam a marca, fazendo com que cada homem deseje freneticamente um par.

ONegocio-HBO

Na reta final da primeira temporada, é notório o desenvolvimento das personagens em comparação ao piloto. Elas estão ambiciosas, corajosas e querem fidelizar os clientes, mas como você vai exigir exclusividade para um público que não consegue ser fiel nem à esposa? O sagaz roteiro encontra uma solução inteligente, eficaz e que não deixa de ser uma piada sobre o meio corporativo: se elas só atendem clientes de alto escalão, o jeito é trazer o trabalho para a cama. É aí que as garotas subvertem as expectativas, auxiliando, debaixo dos lençóis, grandes operações societárias entre empresas. Em um mundo de negócios dominado pelo machismo em pleno século 21, Karin, Luna e Magali ganham força ao mostrar que sabem estar no controle da situação e, ainda, são capazes de influenciar com suas atividades esse universo corporativo.

O Negócio também encontra tempo para explorar o amor quando introduz Augusto (João Gabriel Vasconscellos), um ex-namorado de Karin nos tempos que a mesma atendia pelo nome de Joana, num arco narrativo que tinha tudo para ser piegas, mas ficou realmente interessante, principalmente por não roubar o foco da trama. A química entre os dois artistas flui naturalmente e torna o conflito curioso do jeito que o espectador gosta: os dois se querem, mas não tem como dar certo, né?

A produção da série caprichou nas cenas de sexo com bom gosto. É natural que os episódios sejam recheados de nudez, afinal isso faz parte da profissão. Sempre considero essas cenas as mais difíceis de serem representadas, pois existe uma linha tênue entre o sensual e o vulgar. Destaco a atriz Michelle Batista, a Magali, que até agora foi responsável pelos momentos mais intensos. O drama peca, contudo, por ainda não ter desenvolvido o lado ruim da vida dessas mulheres. Afinal, não posso acreditar que todos os clientes são lindos, ricos e educados como os que vimos até agora. A série vende uma profissão muito cor de rosa, quando sabemos que não é bem assim na vida real. Falta aprofundar com mais seriedade esse grande negócio, pois potencial tem, e muito!

4star

A segunda temporada de O Negócio estreia no Brasil dia 24 de agosto, assista ao teaser.

5 respostas para “Crítica | O Negócio: a primeira temporada”

  1. Carol disse:

    Alguém sabe o nome da música que toca no final do primeiro episodio da primeira temporada ? Nos letreiro??

  2. Luiz Fernando disse:

    Não concordo muito com essa avaliação. É que, na verdade, as técnicas de marketing apresentadas são colegiais (ex.”não podemos usar hoje as técnicas de ontem para conquistar o amanhã”), o que descredibiliza a série. Além disso, os diálogos são extremamente fracos, não convencem. É evidente que não se esperava nada muito técnico, pois o seriado não tem esse objetivo. No entanto, quando lemos a sinopse da série, percebemos que a grande proposta é associar teses sofisticadas da economia com a prostituição. No entanto, na prática, os conceitos utilizados foram tão fracos e óbvios que a série perdeu o grande atrativo. Eu, por exemplo, embora não seja formado em administração ou economia, fiquei extremamente curioso em saber como seria feita a associação entre marketing e prostituição. Porém, a pobreza dos diálogos e a falta de criatividade (considerando a extensão de todas essas teorias de marketing) me decepcionaram. Além disso, concordando com a exposição acima, ainda falta uma análise honesta quanto à realidade da prostituição, que não é tão maravilhosa e convidativa, como faz crer a série. No mais, o elenco está muito bem e a produção surpreende. A série foi muito bem produzida, a fotografia está impecável, assim como a trilha sonora e a composição dos ambientes. Tudo de primeiríssima qualidade. A série tem tudo para dar certo e, finalmente, conseguir nos surpreende. Obrigado, Luiz Fernando

  3. Débora Moraes disse:

    Acho que os conceitos de marketing utilizados são destinado a um público leigo, Luis. Não faria sentido conceitos muito complicados, acho também que o simples pode ser eficaz. E também é uma série de TV, né?
    E elas também são aprendizes em ter o próprio negócio.
    Também acho que as mazelas da profissão começarão a aparecer na temporada final. Numa pesquisa sobre prostitutas de luxo, ela dizem conseguir manter um padrão por um tempo.
    Aliás, já andaram aparecendo uns clientes nem tão “príncipes” na segunda temporada rs

  4. MARTONIO disse:

    Bem Luiz Fernando, fiquei com a mesma sensação no início, mas talvez o bom é exatamente essa leveza nos diálogos… a ideia é entreter e algo muito técnico poderia destoar desta proposta… e, que diga de passagem, a Rafaela Mandelli está linda (e sempre foi) nesta série…

  5. Hugo Heydrich disse:

    Grande analise. Parabens. Em relação ao seriado e nota 9,75

Deixe uma resposta

ss