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Por: André Costa

Crítica | Planeta dos Macacos: o Confronto

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Após um vírus criado em laboratório mandar boa parte da população mundial desta para uma melhor, os sobreviventes de São Francisco tentam encontrar uma solução para driblar a falta de energia. Entretanto, isso os leva diretamente ao território onde César e outros macacos geneticamente incrementados brincam de evolução, levando as duas espécies a uma convivência instável que inclui desconfiança, traumas, famílas e que eventualmente descamba para o quebra-pau descontrolado.

Em 2011, Rise of the Planet of the Apes (Planeta dos Macacos: A Origem) surgiu como uma ótima surpresa e, ao invés de simplesmente se aproveitar do nome da franquia, desenvolveu uma história cativante e envolvente, se tornando um dos grandes blockbusters do ano. E agora Dawn of the Planet of the Apes (Planeta dos Macacos: o Confronto) mantém a qualidade, atingindo níveis apoteóticos de vitória ao equilibrar ação, drama e explosões para construir algo grandioso.

Já no início a produção estabelece de forma clara e eficiente os elementos relevantes à trama (a organização dos macacos, a habilidade de Koba, a necessidade dos humanos, a diferença entre as espécies: humanos matam humanos, macacos não matam macacos), seguindo em frente para desenvolver os temas ou resgatar eles quando for pertinente – aquela proposta de “macacos hippies paz e amor entre os símios”, que vai servir como catalisador para determinadas situações, é lembrada mais de uma vez e sempre entra de forma orgânica na narrativa. Aliás, a evolução da sociedade símia é feita na medida, sem exageros, contando com um belo trabalho de direção de arte (as estruturas feitas com madeira e mais preocupadas com utilidade do que com estética), o que contribui para aceitarmos a macacada superdotada como parte crível daquele universo.

Porque em Dawn of the Planet of the Apes a guerra é fruto de uma desconfiança que vai tomando Toddynho até ficar grande o suficiente para nocautear a frágil trégua. Mesmo quando os humanos ganham acesso à hidrelétrica, com a conivência dos macacos, a situação destila tensão, e o próprio César parece estar sempre no limite entre a tolerância e o MMA sem regras – algo que o filme ilustra bem graças à ótima trilha e aos planos mais compridos, que repousam em olhares intensos para transmitir o desconforto do momento. Mas a falta de confiança não é só entre humanos e macacos, já que tanto César quanto Malcolm lidam com uma divergência de opiniões em suas comunidades, o que torna a produção mais complexa por não se limitar ao típico “são os azuis contra os vermelhos hashtag partiu” e investir em um cenário com motivações coerentes (Koba apontando para as cicatrizes e dizendo “humano trabalhando” já justifica a birra dele com os humanos).  Além disso, permite o brilhante diálogo onde César diz “pensava que os macacos eram superiores aos humanos” e, graças à construção feita pelo filme, entendemos e concordamos com ele. Há uma preocupação em desenvolver a história para justificar o confronto.

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Assim, quando soa o gongo e humanos e macacos partem para ver quem é o primata mais durão, já conhecemos as pessoas e torcemos por elas, algo essencial para o envolvimento na trama e para que o quebra-pau não seja só um monte de CGIs se esparramando na tela. Sabemos também das circunstâncias atípicas envolvendo a guerra, e é interessante ver como Dawn of the Planet of the Apes mantém a lógica das suas personagens mesmo quando a situação é adversa, não tendo puder nenhum de colocar a galera em conflito com aquilo que julgavam ser seu mundo (as decisões tomadas por Malcolm e Cesar no clímax, por exemplo). Infelizmente nem tudo é petit gateau de sobremesa, e Koba acaba meio que virando um vilão de novela em determinado momento, atacando e gritando e tirando doces de crianças e simplesmente sendo mau, o que avacalha as motivações e o bom desenvolvimento que o caolho havia tido até ali (o equivalente humano dele é aquele estereótipo que odeia tudo e não acredita em nada, cuja função foi única e exclusivamente iniciar o conflito. Podiam ter despejado um pouco mais de  bom senso nas cenas envolvendo o sujeito, mas ok).

Matt Reeves filma tudo com agilidade, mantendo a câmera em movimento e acompanhando a ginástica olímpica dos macacos de forma fluida, conseguindo também ilustrar a escala da bagunça com enquadramentos bem abertos – e o diretor deixa sempre bem claro o que está acontecendo em cena, investindo em planos compridos que aproximam o espectador da ação (e dois momentos merecem ser citados pela fanfarra estética que proporcionam: aquele em que a câmera se equilibra no topo de um tanque em movimento e um plano sequência que segue Malcolm quando ele vai buscar instrumentos cirúrgicos na casa). A trilha mantém a grandiosidade no volume máximo, enquanto os sensacionais efeitos especiais vão fazer você sair do cinema com as mãos na cabeça e questionando seus conceitos sobre o que é real e o que não é (análises em microscópio não conseguiriam identificar falhas até mesmo em elementos mais complicados, como a textura dos pêlos dos macacos ou um plano fechado nos olhos de César).

Contando ainda com um elenco carismático, que cativa o espectador mesmo que suas personagens não sejam lá a coisa mais tridimensional do mundo, Dawn of the Planet of the Apes é um blockbuster intenso, que consegue ao mesmo tempo emocionar, entreter e cutucar (no sentido figurado, claro). A trajetória de César ganha ainda mais força e complexidade durante o filme, e a produção consegue construir toda uma mitologia em torno da personagem (que envolve símbolos e até mesmo uma circunstância específica que remete à religião e justifica a posição de salvador que ele possui frente aos outros). Como se não fosse o suficiente, Matt Reeves é exibicionista e se dá ao luxo de terminar a projeção com uma linda rima visual – que consegue também mostrar como os macacos chegaram longe graças ao contraste entre os cenários onde César se encontra. Um ótimo trabalho de evolução de uma história.

4star

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