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Por: André Costa

Especial Entourage: 10 anos de amizade, Hollywood e Ari Gold

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Entourage é uma daquelas séries que estragam as nossas vidas. Que fazem a gente recusar programas sociais para assistir a “só mais um episódio” (aham, só mais um, sei). Que nos obrigam  a lutar com unhas e dentes e até arruinar relações pela soberania da televisão. Entourage é como uma grande caixa de Bis: depois do primeiro, é impossível parar até chegar ao final.

Com a série completando 10 anos de nascimento e o filme prestes a ver a luz do dia (estreia em junho de 2015), aumenta ainda mais a vontade de reunir alguns amigos, algumas cervejas, botar os DVDs de Entourage para rodar e brindar cada vez que algo épico acontecer – e serão muitas cervejas, já que, para manter o número de cenas brindáveis lá em cima, a série se vale de algumas estratégias cativantes e muito bem elaboradas pelos criadores:

O modo de vida em Hollywood

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É o apelo mais imediato de Entourage, ainda que seja muito mais cenário do que tema. A identificação do público com a origem simples de Vince, E., Turtle e Drama só evidencia o glamour daquela lugar mágico que deu ao mundo quatro filmes dos Transformers, e de certa forma o maravilhamento dos protagonistas é o do público – festas, premières, limusines, desfiles, modelos, mansões, brindes, tudo isso tem um impacto muito forte nos meros mortais que já ficam felizes só em serem chamados para jogar Imagem & Ação no sábado de noite. Assim, ver o grupo de amigos comendo e bebendo na piscina da mansão da Jessica Alba, com a praia de Malibu como quintal, produz aquela descarga de admiração e vontade de estar lá que combate com muita eficiência o estresse diário.

O modo de produção em Hollywood

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Há muito mais entre a produção e o lançamento de um filme do que imaginam nossas vãs reclamações diárias no Twitter. Em Entourage, temos um vislumbre de como a balbúrdia funciona, desde as aulas de mergulho e chroma key de Aquaman até as negociações em festivais para vender filmes já prontos, desde comprar roteiros apenas para impedir que sejam feitos até formar alianças de negócios visando oportunidades futuras. Disputas entre agentes, manipulações, estratégias de carreira (faça o filme X para poder fazer o Y que você quer depois), problemas na fotografia principal, dificuldades na pós-produção… Entourage é uma bela espiada por baixo das saias de Hollywood. Há também o método de decidir se um papel deve ser aceito ou não, que consiste em ir para o deserto comer cogumelos alucinógenos, mas acredito que essa tática usada por Vince deve ser só em casos emergenciais (ou não, né. Hollywood e tal).

As participações especiais

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Em se tratando de uma série com Hollywood como cenário, há sempre a expectativa de que os protagonistas cruzem com alguma Jessica Alba, Anna Faris, Mark Wahlberg ou Paul Haggis da vida. E Entourage não só produz esses momentos de “olha ali o fulano!” como os incorpora de forma orgânica na narrativa, tornando as aparições parte da trama ou das características das personagens (por exemplo, a Jessica Alba empresta para eles uma mansão que vai sediar os acontecimentos durante as gravações de Aquaman; o show do U2 se torna uma motivação para Johnny Drama). Além disso, o pessoal das participações especiais não têm vergonha nenhuma de incorporar uma persona chata, irritante ou até mesmo desagradável, e o resultado é que vemos gente do quilate de James Cameron, Matt Damon e Bono extremamente brabos em situações extremamente cotidianas, o que é extremamente divertido. E é uma série esperta o suficiente para usar o status desses artistas como elemento na narrativa – uma cena de menos de um minuto envolvendo Martin Scorsese, por exemplo, muda completamente o cenário da carreira de Vince.

Personagens tridimensionais

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Vince é mulherengo, mas sempre gentil, simpático e atencioso com as meninas. Ari Gold é um homem de negócios poderoso, implacável e sexista, mas também um homem de família, leal e que nutre carinho pelo cliente. Turtle não se importa de só conseguir mulheres por causa do amigo, mas quer provar seu valor. A relação entre Vince e E. às vezes se torna de quase dependência. Entourage foge dos clichês fáceis e apresenta personagens tridimensionais, que têm sua própria visão de encarar as coisas e reagir a elas – por exemplo, a certa altura Vince está determinado a desistir de Aquaman pelo seu bem-estar, mas vacila ao ver a empolgação de Cameron e o que o filme pode se tornar. Valores não são absolutos, e muitas vezes as negações e defesas revelam sutilmente as inseguranças daquelas personagens. Dessa forma, Entourage humaniza o elenco (dentro da proposta da série, claro), aproximando o espectador daquelas pessoas e facilitando a identificação com elas. Afinal, quanto mais as personagens parecerem como um verdadeiro grupo de amigos e menos como elementos que o roteiro usa para tocar a história, mais o público vai se importar com elas.

Um descontrolado chamado Ari Gold

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Ari é estourado, machista, preconceituoso, arrogante, vingativo, birrento, teimoso, ofensivo e, de alguma forma, completamente cativante. Em parte porque Jeremy Piven transborda carisma, mas também porque é dono de algumas das melhores sacadas da série (“mas querida, nós assumimos um compromisso de sofrer juntos a monogamia“) e conquista o espectador com sua diversão e autenticidade. Apesar de ser um dos melhores agentes da cidade (que ele não leia esse “um dos melhores”), a trajetória de Ari é composta por diversos momentos “desastrados” (principalmente envolvendo a relação com a esposa) e imprevistos que aumentam a empatia do público com o sujeito: ele parece ser a definição da vida louca de Hollywood, mas nunca cruza a linha (não trai a esposa, faz tudo por Vince, etc). Além disso, sua necessidade latente de fazer parte do “grupinho” protagonista chega a ser comovente. A presença de Ari em cena é sempre muito forte e imprevisível (algo essencial para o humor), e qualquer um que veja três ou quatro episódios de Entourage vai passar a finalizar qualquer relato de sucesso com um “boom!”.

Amizade desenfreada

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Na primeira cena do primeiro episódio, vemos Turtle descer do carro com alguns posters de filmes, passar por diversas garotas, flertar com diversas garotas, entrar em um restaurante e sentar na mesa ao lado de Vince, E. e Drama. E isso meio que resume Entourage: por mais que a gire ao redor de festas, modelos, glamour, mansões, filmes e celebridades, o grande trunfo da série são aquelas pessoas e as relações entre elas. Ao invés de grandes declarações e diálogos heroicos, Entourage coloca o espectador no meio da cumplicidade dos protagonistas, mostrando eles brincando, se implicando, se divertindo, bebendo e até mesmo brigando (geralmente com pessoas de fora) – e mostrar algo é sempre mais forte do que definir ou explicar esse algo com palavras. Assim, o público realmente sente que Vince, E., Turtle e Drama são amigos de infância, grandes amigos, e que a parte mais importante dessa aventura é ter essa galera ao lado para compartilhar de tudo. A parceria é tão grande que Vince gasta descontroladamente para presentear a turma e com frequência recusa programas dizendo que “ou vamos todos ou não vai ninguém“. Uma construção tão cuidadosa e inspirada que evoca sempre o maior elogio possível a esse tipo de cenário: a vontade descomunal que o espectador tem de também fazer parte daquele grupo.

E o filme?

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Detalhes da história ainda não vazaram para esse grande batedor de carteiras que é a internet, então só o que dá para fazer é especular. Mas acredito que a produção vai envolver algum tipo de viagem/evento (casamento, por exemplo), para fugir do cenário que abrigou toda a série e trazer um elemento diferente, e uma oportunidade tão grande que reúna o grupo (incluindo Ari) em torno de um objetivo – uma desculpa para juntar só os homens na maior parte da trama (já que é pouco tempo para incluir personagens importantes mas circunstanciais, como a Sloan ou a esposa de Ari). Participações especiais certamente farão parte do roteiro, assim como eventuais metalinguagens e tirações de sarro envolvendo as convenções de Hollywood (posso apostar que vai ter alguma piada de alguém criticando transformar uma série já finalizada em um filme). São só especulações e teorias, claro (parto do princípio de que todo filme baseado em uma série envolve algum tipo de viagem), mas não é difícil visualizar Entourage usando esses elementos para contar mais uma história divertida e envolvente. Resta só esperar o dia 12 de junho de 2015 com as expectativas altas e as cervejas geladas. Afinal, quando Vince, E., Drama, Turtle e Ari estão envolvidos, a aventura sempre ganha contornos épicos. Boom.

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