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Por: André Costa

Crítica | Sex Tape: Perdidos na Nuvem

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Jay e Annie são um daqueles casais descolados com profissões descoladas que só existem em filmes (ou no Big Brother Brasil), mas com um problema bem comum: a vida de casado exorcizou o sexo da vida deles. Buscando retomar a libertinagem de outrora, o casal grava um vídeo de seus momentos íntimos – que acaba involuntariamente compartilhado com outras pessoas, obrigando ambos a correrem contra o tempo antes que a produção caseira seja exibida para olhos alheios.

Se a lascívia audiovisual foi resultado de uma rara noite de paixão em um casamento empalhado na rotina, Sex Tape (Sex Tape: Perdidos na Nuvem) é o vídeo que Jay e Annie fariam nas outras noites de convivência: segura, previsível, trabalhando com elementos comuns para o espectador e sem se arriscar muito, a produção, embora tenha alguns momentos divertidos, acaba se tornando repetitiva e esquecível. Uma daquelas estranhas experiências envolvendo sexo que não dão muito prazer.

Boa parte disso se dá porque as possibilidades divertidas da trama são pouco exploradas, já que o roteiro prefere investir na abordagem “caça ao tesouro”, onde Annie e Jay precisam ir a algum lugar encontrar algo e onde não faria muita diferença prática substituir o vídeo caseiro por algo bem diferente mas igualmente constrangedor (tipo um DVD de The Big Bang Theory). O caráter ligeiramente episódico (recupera um iPad, precisa ir atrás de outro; recupera outro, precisa lidar com chantagem) passa a impressão de que as coisas estão mais ou menos sob controle, que os protagonistas têm tudo em mãos para impedir a disseminação da vergonha. Assim, em nenhum momento o espectador tem a impressão de que o casal está no limite entre o anonimato e os trending topics do Twitter, embora Sex Tape tenha diálogos frequentemente explicando isso.

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E Sex Tape gosta de explicar. É um daqueles roteiros palestrantes, que esclarece as imagens como se estivesse diante de um PowerPoint em uma apresentação para um grupo de acionistas. Além da tradicional narração em off inicial, logo abandonada porque sim (um problema cada vez mais frequente nos filmes), há um momento onde Annie resume toda a trama naquele espírito “deixe eu ver se entendi” e outro onde Jay faz a mesma coisa – com uma diferença de cerca de três minutos entre um e outro (pensando bem, talvez a produção esteja se adaptando a um público que fica checando o Facebook durante a projeção). A tática de Jay para lidar com o filho do vizinho é apresentada pelo próprio garoto e a briga pós-cocaína/MMA canino é esmiuçada por Annie (até porque as duas não fariam sentido, já que o filme nunca mostra essas ocorrências comentadas), e há até o tradicional discurso de auto-ajuda da personagem coadjuvante que explica a situação.  Tudo se torna devidamente documentado em diálogos, tornando Sex Tape uma película verborrágica que sofre com o complexo de achar que é uma radionovela.

Tais questões não fariam muita diferença se o filme fosse hilariante. Só que os momentos de humor mostram a mesma falta de imaginação, apostando em elementos e cenas já carimbados e registrados em cartório do gênero – os coadjuvantes peculiares estão ali apenas para serem estranhos, enquanto a luta com o cachorro é extensa demais e logo se joga sem piedade na falta de graça. As piadas que funcionam acabam repetidas (a surpresa da música de Hank é engraçada, mas o lance da cocaína é a mesma ideia só que forçando demais a barra; o travelling de aproximação é executado tantas vezes que Spielberg provavelmente abrirá um processo por direitos autorais) e Sex Tape nunca consegue provocar aquele momento de risada onde o espectador devolve a Coca-Cola que acabara de beber. Além disso, embora seja uma boa sacada filmar Jay e Annie em quadros separados em determinada conversa, há um claro problema de decupagem na película, resultando em uma montagem frenética (a cena em que os dois casais estão conversando fica pulando de plano fechado em plano fechado) que acelera o ritmo sem oferecer vantagens para o timing cômico das piadas.

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O que é uma pena, porque Sex Tape se dá bem nas preliminares: investe tempo de projeção no casal, conseguindo realmente estabelecer a química interessante entre eles e o quanto o sexo faz parte da vida dos pombinhos. É perceptível a frustração de Jay e Annie com a ausência da confraternização pélvica em suas vidas, então o filme faz questão de mostrar o quanto eles estão tentando resolver o problema – o vídeo não é a primeira sugestão de chama para reacender o fogo da paixão, e, quando surge, é sustentado por outros eventos que indicam a ideia (já havia sido estabelecida a facilidade de produzir um vídeo e também a utilização da tecnologia para fins de taradice). É nessa etapa que a produção consegue seus momentos mais divertidos, trazendo à tona ideias engraçadas (Jay “percebendo” a chegada de Annie) e diálogos inspirados (“é um buraco versátil!“, “deve ser por isso que inventaram o TIVO: para as pessoas transarem“). Ancoradas no carisma de Cameron Diaz e (principalmente) Jason Segel (How I Met your Mother), as cenas conseguem criar uma atmosfera despojada e agradável antes do filme descambar para o “vamos ser engraçados coloca um cachorro brabo aí cachorros brabos são engraçados“.

Buscando emular The Hangover (Se Beber, Não Case) ao mostrar o vídeo no final, em uma clara roubada descarada de ideia das fotos que fecham o filme de Todd Phllips (não vou nem comentar que os cortes e enquadramentos do vídeo caseiro não fazem sentido), Sex Tape tenta ficar muito no que é seguro para um filme com uma temática apimentada. Tivesse ousado um pouco mais, se preocupado mais em manter uma narrativa divertida e menos em não ofender ninguém ou ser veículo de product placement para a Apple (sério, é descarado. Quase pornográfico), poderia ser uma comédia genuinamente engraçada e diferenciada. Mas no final das contas, sem conseguir ir além de alguns palavrões ou algumas regiões glúteas desnudas, acabou se tornando apenas rotina.

2star

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