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Por: Redação Ligado em Série

Crítica | The Leftovers 1×08: Cairo

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[com spoilers do episódio 1×08] As coisas estão acontecendo em The Leftovers. Os acontecimentos estão penetrando nas barreiras que as pessoas tentaram construir para manter tudo intacto – algo que este Cairo indica sutilmente ao mostrar janelas abertas e o sol entrando em dois momentos importantes envolvendo Jill (a ausência do pai e a arma). Além disso, Kevin claramente está cada vez mais embebido em transtorno mental, enquanto o Culpa Inc. parece chutar o balde da bizarrice em sua ação para o Memorial Day e novas respostas são celebradas com novos mistérios.

Um dos grandes méritos do episódio é trabalhar um dos grandes problemas da série: o protagonista. Aqui, Kevin ganha uma camada de vulnerabilidade e tridimensionalidade, duvidando de suas próprias memórias e lutando contra as ações que tentam arrastá-lo para a terra dos que rasgam dinheiro – e uma personagem que luta contra circunstâncias externas esmagadoras para manter seus valores já se torna trágica o suficiente para que sua jornada seja interessante de acompanhar. Assim, as cenas envolvendo Kevin e Patti são intensas, construídas em diálogos que oferecem mais informações sobre o estado de Kevin (“eu não entendo“) e os objetivos do Culpa Inc. (“quando chega a hora de Laurie, ela também estará ok com a ideia“), boas performances dos atores e uma trilha que se encaixa no episódio com a fluidez de duas peças de Lego. A carga dramática do momento é tão grande que, embora não seja surpreendente que Kevin solte a prisioneira, quando chega o clímax parece bem plausível que ele vá optar pela filosofia do esfaqueamento.

Também descobrimos que Patti e suas amigas de branco têm uma leve tendência suicida, uma vez que a moça admite o assassinato de Gladys, o que confere mais mistério e força à organização – principalmente com a grande pegadinha que estão armando para o Memorial Day. Por outro lado, cresce o mistério em torno de Dean, já que a líder do GR o define como um fantasma e ele de forma bem humilde se assume “mais como um anjo da guarda” e fica a toda hora lembrando que está ali para ajudar Kevin (inclusive falando um “eu tentei” ao final do episódio, indicando que havia um propósito maior em sua ajuda). E Cairo ainda sugere que o caos está batendo à porta ao colocar Patti recitando um poema de W. B. Yeats.

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Enquanto isso, Jill é outra que se torna mais vulnerável. Apesar de iniciar o episódio com a típica atitude birrenta da Família Grunhido (as perguntas “chocantes” no jantar), a garota percorre um arco dramático interessante ao perceber a ausência do pai na casa e a arma de Nora (certamente não por acaso escondida na caixa de um jogo chamado “Trouble”), sentindo-se sozinha e presa e se desligando das duas coisas que a mantém na rotina – Annie e o cachorro, que também funciona como espelho da própria Jill – para pleitear um estágio no Culpa Inc. Já Laurie assume a liderança da organização justo na véspera da grande ofensa contra a cidade, mas, dada suas ligeiras escorregadas em direção a sentimentos nos episódios anteriores e o fato de que passa bastante tempo com a instável Megan espoleta, suas motivações parecem ainda não cobrir completamente suas dúvidas (Megan, aliás, é uma das incógnitas da série, junto com o padre Matt. Parecem as duas únicas personagens de The Leftovers cuja agenda envolve apenas seus valores e sentimentos).

Entretanto, Cairo é prejudicado por uma montagem rápida que busca segmentar até o mais banal dos acontecimentos em três ou quatro planos, chutando para longe parte da força que as cenas poderiam ter, especialmente quando Jill encontra a arma e durante a ligação de Kevin. E é incômodo como o episódio tenta se distanciar da intimidade de suas personagens, optando por afastar a câmera delas em momentos mais instrospectivos (como os dois citados). Além disso, a única função daqueles gêmeos parece ser dar as caras quando Jill precisa de alguma ajuda (seriam eles a versão mais jovem e cabeluda de Dean?) ou quando The Leftovers acha que os conflitos precisam ser apresentados de forma didática (um deles literalmente explica o significado de Nora manter ou não sua arma). De qualquer forma, o episódio é forte, eficiente e joga pistas interessantes sobre o que vai acontecer a seguir – e parece que há muitas respostas intensas e perturbadoras pela frente.

4star

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