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Por: André Costa

Crítica | Garota Exemplar, de David Fincher

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[com spoilers do filme] Nick Dunne é um sujeito pacífico que mora em uma pacífica cidade do Missouri e que, no dia de seu aniversário de cinco anos de casamento, chega em casa e descobre que a esposa sumiu. A partir daí inicia-se uma maciça investigação envolvendo Nick, os detetives locais, a mídia, a opinião pública, enfim, virando tudo e todo mundo de cabeça para baixo.

David Fincher caiu em um caldeirão de histórias quando era pequeno, e, como resultado, tornou-se um exímio contador de histórias que parece navegar por mares repletos de baús repletos de tesouros. Gone Girl (Garota Exemplar) é mais uma pérola do diretor, que adapta o livro de Gillian Flynn criando uma atmosfera tensa, intensa, imprevisível, manipulando as expectativas do público e nos apresentando a personagens memoráveis.

Porque Fincher sabe que cada cena conta. O ritmo de Gone Girl é cadenciado e o roteiro se preocupa em desenvolver as situações com cuidado – por exemplo, a inocência inicial de Nick vai sendo confrontada com o diário de Amy à medida que o filme se desenrola, construindo a atmosfera aos poucos. Há um esmero para que nada soe gratuito e as atitudes sejam sempre justificadas, como a aparição de Desi (cuja obsessão por Amy já havia sido estabelecida quando descobrimos que ele quase cortou os pulsos pela moça), em uma abordagem carregada de informação que envolve o espectador nos acontecimentos: quando algo acontece, tanto os fatos como o impacto dramático da cena foram previamente construídos, resultando em momentos que sequestram a atenção do espectador (o anúncio de Noelle, a entrevista de Nick, Margot dizendo que não vai abandonar o irmao).

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Mas Gone Girl vai além da simples trama de whodunit, subvertendo as expectativas do público com uma reviravolta no meio da trama que só mostra como estamos à mercê das intenções do diretor. A partir do momento em que descobrimos a “verdade”, o filme expande seus temas ao acompanhar paralelamente o buraco no qual Nick se encontra e os esforços de Amy para permanecer escondida – ela não some magicamente, precisa ter dinheiro, evitar ser reconhecida, existe uma série de dificuldades a superar que a produção faz questão de mostrar, conferindo mais realidade e credibilidade à sua trama. Ao mesmo tempo, a cobertura da mídia surge não apenas como uma crítica superficial ao sensacionalismo, mas como um elemento que altera a história e dificulta a investigação ao moldar a opinião pública. Fincher permite que o espectador realmente veja a diferença que a televisão e os jornais fazem.

E, claro, temos as personagens, que ganham destaque e complexidade durante a projeção: a princípio pacato e resignado, Nick começa se torna multifacetado quando descobrimos o caso extraconjugal e a decisão de pedir o divórcio (“fiquei aliviado pensando que ela tinha ido embora“), além de parecer gostar da atenção resultante do sumiço (ilustrada pelo sorriso frente às câmeras, a selfie com uma desconhecida, sendo o bom anfitrião no evento, etc); Margo é um poço de compreensão e cumplicidade, que eventualmente duvida do irmão mas que, mesmo frente a uma situação que odeia, declara seu apoio a Nick ainda que isso a machuque; e inclusive coadjuvantes como a detetive (que muda de atitude com relação ao protagonista) e os sogros (sempre educados, sempre com uma sutil tendência à desaprovação e desconfiança) ficam mais interessantes conforme a produção se desenrola.

O que nos leva, claro, a Amy, personagem esculpida nos mínimos detalhes pelo roteiro e pela atuação bíblica de Rosamund Pike. Inicialmente a garota legal que se dedicou a um homem e viu a vaca ir para o brejo, Amy vai se mostrando um pináculo de vingança, usando sua inteligência de maneira assustadora para manipular circunstâncias e pessoas. Gone Girl faz questão de mostrar os motivos da moça (“ele roubou minha vida. Isso não é um homicídio?“) e estabelecer elementos que ajudaram a construir essa personalidade tresloucada (ela fala que não fez as coisas narradas nos livros da Amazing Amy, sugerindo que a busca por situações extraordinárias (estupro, obsessão) e jogos é uma tentativa de ser a anti-Amazing Amy. A própria Margo fala que Amy é uma garota que adora drama). Uma construção invejável e que a torna uma das personagens mais marcantes e impressionantes do ano.

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Contando com um elenco afinado (até Ben Affleck está bem com sua postura cansada e Carrie Coon se destaca com sua Margo simpática e intensa), Fincher aposta bastante nas imagens para contar sua história. Fotografa o cotidiano de forma cinzenta e sem vida, enquanto os flashbacks alegres recebem cores um pouco mais quentes, e coloca Nick muitas vezes sozinho na casa vazia ilustrando o quanto aquilo é estranho, formal para ele (o sofá da casa de Margo parece bem mais aconchegante). Além disso, o diretor cria cenas momentos que vão ficar na cabeça do público por muito tempo (Amy coberta de sangue com só o rosto limpo) e aposta em simbolismos eficientes: o Jogo da Vida no início da projeção, as aparições do gato gato (reparem que ele aparece três vezes: fora de casa quando Amy some, no quarto com Nick assim que ela volta e junto da moça quando Nick desce para o café, como se a presença dela na casa já fosse normal para ambos) e o brilhante momento em que Amy tira o sangue debaixo do chuveiro, literalmente lavando seus crimes na frente do marido quando ambos estão nus, vulneráveis, despidos de todos os joguinhos e manipulações e circunstâncias que haviam entre eles.

É ali que Nick começa a aceitar a esposa de volta, algo reforçado pelo fato de que ele também parece gostar do drama (a já citada atenção que recebe reflete isso) e que entra de vez na brincadeira após jogar a esposa contra a parede, como se a agressividade fosse o elemento em comum entre os dois. E todo esse trabalho, toda essa construção em torno dessas pessoas resulta em uma rima visual no final que devia ser impressa e pendurada no Louvre. O mesmo enquadramento da cena inicial, as mesmas circunstâncias, a mesma narração em off e um significado completamente diferente e perturbador em torno de tudo aquilo. Resultado de um diretor que, a cada filme, mostra que realmente sabe o que faz.

5star

3 respostas para “Crítica | Garota Exemplar, de David Fincher”

  1. carla machado - SP disse:

    Adorei o filme. Muito bom e surpreendente até o final.Cheio de reviravoltas. Vale muito a pena. Ben Affleck está fantástico.

  2. Fernanda disse:

    Muito boa a crítica, mas tenho que discordar quando você diz que o Nick começa a “aceitar” a esposa de volta por gostar do drama. Li o livro. Na verdade ele não vê saída ou alternativa para se livrar da Amy, então se conforma com a situação. É tenso.

  3. vilma disse:

    Excelente filme, ótimos atores e uma história incrível. O final não poderia ser outro..Ou ficaria com ela, ou seria outra vítima nas mãos dela.

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