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Por: André Costa

Crítica | Interestelar, de Christopher Nolan

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A Terra está morrendo. Pragas vão acabando aos poucos com os alimentos, as pessoas passam fome e tempestades de areia bíblicas surgem de vez em quando para abraçar todo mundo. A única solução é mandar o Rusty de True Detective ao espaço para a famosa corrida dos “100 anos luz com barreiras da física quântica”, na esperança de que ele ache outro planeta habitável.

Christopher Nolan é um sujeito pé-no-chão mesmo quando sai dele: Interstellar (Interestelar) é um filme de nave espacial que lida com a força da gravidade, buracos de minhoca, buracos negros, teoria da relatividade, enfim, toda aquela física legal que destoa da física aprendida no colégio (se o filme fosse baseado na física do colégio, seria tipo “A nave vermelha de Cooper sai do Ponto A a 60Km/h, enquanto a nave azul Dra. Brand sai do ponto B…”). O resultado é uma daquelas tramas com estruturas complexas que o diretor tanto venera, mas que dá uns tropeços com soluções fáceis e arcos dramáticos tão apressados que provavelmente a teoria de dobra espacial se aplica a eles também.

Baseando-se em diversos conceitos relativamente complicados (como a relatividade), Interstellar acaba apostando em muitos muitos muitos diálogos explicativos – e, se por um lado o didatismo ao longo do primeiro ato consegue deixar esses conceitos bem claros para que o roteiro os resgate sem problemas ao longo da projeção, por outro investe pouco nas relações entre as personagens ao falar o que devia ser mostrado (por exemplo, todo mundo fala que Cooper não é feliz como fazendeiro, mas ele nunca parece realmente triste com a coisa toda). Assim, grande parte dos conflitos dramáticos soa repentina e sem a construção necessária para levar até aquele momento (como uma discussão na casa dos Cooper ou uma certa paixonite no espaço).Além disso, a produção possui algumas soluções tão forçadas e clichês (um tropeço em um momento de perigo, uma mentira elaborada, um beijo) que é estranho Nolan, um cineasta experiente e cuidadoso, não ter cortado elas fora com um machado na pré-produção.

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Mas é como dizem: azar no amor, sorte na física quântica. Mesmo trabalhando com ideias que são tipo CrossFit para o cérebro, Interstellar soa crível e de acordo com a lógica e as informações que estabelece – o tempo diferente no planeta, as dimensões diferentes, os elementos que permitem a interação no final, tudo é arquitetado de forma brilhante para a chegada do clímax. E é um filme corajoso, que mata no peito sequências absolutamente insanas envolvendo estruturas misteriosas (buracos de minhoca, por exemplo) e as filma de acordo com a visão mecânica que o Nolan tem da narrativa, evitando alegorias ou simbolismos ou deixar às coisas à imaginação (saídas que funcionam maravilhosamente bem em outros filmes, mas destoariam aqui) e partindo para a abordagem visceral e o departamento de efeitos especiais que se vire (e se vira bem). Toda vez que algo mais metafísico parece surgir, Interstellar dá um tapão na mesa e cria uma explicação sólida para o ocorrido.

Já a parte visual do filme é acachapante, demolidora, uma coleção de planos e sequências que daria para imprimir e pendurar no Louvre. Nolan parece tão maravilhado com o espaço quanto qualquer um, e isso se reflete na abordagem estética, que vai da sobrecarga de sentidos quando representa visualmente equações físicas até uma simples manobra da nave no espaço que, em silêncio, com a Terra ao fundo, surge de forma contemplativa como uma das cenas mais bonitas do longa. A diferença entre os cenários é uma atração à parte – enquanto a Terra é suja, árida, arenosa, um outro planeta é coberto de água – e o diretor consegue imprimir tensão, grandiosidade e até sensibilidade a diversos momentos (a contagem regressiva enquanto Cooper se afasta da casa diz muito com pouco), além de saber usar as imagens para contar a história (quando está na Terra, Cooper é normalmente fotografado com uma profundidade de campo curta, mostrando como aquilo não é interessante para ele). Claro, grande parte da vitória vai para a fotografia e para a equipe de efeitos especiais, que carregam um piano colossal para tornar as anomalias espaciais o mais reais possível. Pena que a trilha seja usada em excesso, deixando pouquíssimas cenas em silêncio e se tornand bastante instável (em uma determinada acoplagem no final do segundo ato ela é sensacional, em um momento específico de despedida ela torna tudo piegas).

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Sem poder fazer muito com as personagens unidimensionais que recebem (cada personagem é mais ou menos uma função – tipo, Romilly é um cara que está lá apenas para explicar a parte da ciência), o elenco se apoia bastante no carisma e talento de Matthew McConaughey, que consegue tirar da cartola um momento dramático intenso (quando vê os vídeos), e na naturalidade e simpatia de Anne Hathaway. O resto realiza suas tarefas com mais ou menos competência e pouco destaque (só Michael Caine é que parece no piloto automático), basicamente esporeando a história para que ela continue a trotar para a frente.

Interstellar é o filme menos coeso e mais problemático de Christopher Nolan. Possui derrapadas indesculpáveis no roteiro, de vez em quando apela para um sentimentalismo digno de postagem no Facebook e leva sua história além do que deveria. Mas ainda assim é uma experiência envolvente, gratificante, que bota a física quântica na mesa e brinca com ela para criar uma estrutura criativa e sempre interessante – sem contar toda a eloquência visual, tão saliente que muitos filmes 3D devem ter ficado com inveja. Nolan nunca alivia ou simplifica as suas tramas e, apesar dos tropeços, Interstellar é uma jornada grandiosa e poderosa por tudo aquilo que só podemos sonhar em conhecer.

4star

11 respostas para “Crítica | Interestelar, de Christopher Nolan”

  1. Ótimo filme, enredo interessante, visual atraente, música envolvente.
    Quem já leu o “Uma Breve História do Tempo” de Stephen Hawking, vai gostar bastante e toda a física do filme vai parecer mais clara.
    Recomendo.

  2. dantavares disse:

    Esse filme é uma confusão total, não explica nada direito, nem mesmo a tal praga em forma de poeira é convincente. É simples pegar as teorias sem fundamento de um físico que deve estar sofrendo de problemas mentais, e transformar em um filme, o publico em geral não entende nada de astrofísica e aceita qualquer coisa que a telona diga. Mas convencer alguém que entende alguma coisa do assunto de que é possível entrar num buraco negro e sair vivo disso é algo surreal, e é assim que classifico esse filme “Surreal” ou simplesmente fume um antes de assisti-lo. Longe de ser uma obra prima.

  3. PH disse:

    na verdade o filme é um grande paradoxo sem explicação e cheio de furos no roteiro.

  4. renolustosa2 disse:

    Vi muita crítica devido o filme tentar ser didático d+ mas nunca pela fata de explicação. Vai entender!

  5. Renato Lustosa disse:

    De qualquer forma foi o filme do ano!

  6. dantavares disse:

    Uma pseudo didática vc quer dizer. Nos explique então o que vc entendeu, principalmente a tal praga que o filme comenta e não explica.

  7. Neo disse:

    O que alguns não entendem é que o Nolan não estava querendo explicar o que acontece na terra, e sim, o que podemos encontrar fora dela. Se pensasse um pouco fora da caixa poderia ver que ele trata mais as teorias do espaço-tempo. Agora, assistir um sci-fi e querer perfeição ele nem sairia da terra. E para acabar com a vida humana seria simples, relatar mais guerras.

  8. dantavares disse:

    Mesmo que fosse tentar explicar o que tem fora da terra, é completamente incoerente misturar teoria da relatividade com um planeta que está perto de um buraco negro, não tem nada a ver uma coisa com a outra. E não é procurar perfeição em um filme de sci-fi, é confundir com um que ta mais pra aventura. Tão viajado que se tivesse mais 30 minutos de filme eles iam descer num planeta habitado por anões pezudos correndo atras de um anel forjado numa tal de Montanha da Perdição.

  9. Pablo disse:

    Não há certeza se consegue ou não sair vivo de um buraco negro, mas pela física, se você entrasse em um, vc nem notaria por que lá o tempo não existe.

  10. dantavares disse:

    O que a física diz sobre o buraco negro é que lá a gravidade é tão densa que ela suga a própria luz (por isso é negro). Se o corpo humano se desintegra a uns 10g, não é difícil imaginar se é possível sair vivo ou não.

  11. Otavio disse:

    “Tão viajado que se tivesse mais 30 minutos de filme eles iam descer num
    planeta habitado por anões pezudos correndo atras de um anel forjado
    numa tal de Montanha da Perdição.”

    Cara, vc não tem idéia do que eu ri disso. HAHAHAHA!

    No mais, concordo com com tudo o que você escreveu sobre o superestimado Interestelar anteriormente.

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