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Por: André Costa

Crítica | The Newsroom 3×05: Oh Shenandoah

the newsroom 3x05

[com spoilers do episódio 3×05] Apesar de alguns momentos de desilusão dramático-amorosa, Oh Shenandoah é uma grande melhora em cima de Contempt, aquele coquetel de nonsense e soluções fáceis. É também um dos episódios mais importantes da série, não apenas porque é o penúltimo e já deixa os fãs da série abraçando seus ursinhos de pelúcia para afastar a tristeza, mas principalmente pela decisão de aposentar o coração de Charlie.

E, confesso, foi uma cena com um impacto dramático bem menor do que deveria ter. Ela é sim bem encenada, coreografada, possui uma trilha sensível e consegue derrubar aquele cisco maroto no olho, mas a construção que levou até ela foi um tanto confusa: de uma hora para a outra, Charlie, que havia jurado pegar Pruit na saída do colégio, passa a defender todas as decisões administrativas e inclusive ameaça colocar Don na fila do seguro-desemprego. Isso acaba trazendo insights importantes para a discussão (“Que tal ela trazer 40 milhões de pessoas para um debate de direitos civis?“), mas é algo tão distante da personagem que provavelmente precisaram de um buraco de minhoca para juntar as duas coisas. O resultado é que a cena do infarto acaba enfraquecida sem ter uma base crível na qual apoiar o estresse de Charlie. Não sentimos que a coisa chegou lá, apenas que ela aconteceu.

O mesmo acontece com o beijo entre Jim e Maggie, que fura a fila e simplesmente aparece no meio da trama, conseguindo a proeza de ser também previsível feito um bêbado dançando em uma cadeira. A pequena historinha deles no aeroporto, entretanto, no geral é bastante divertida, trazendo piadas boas (“acho que sou capaz de ficar de pé“) e usando bem a dinâmica sagaz entre as personagens (as circunstâncias que impedem os Pombinhos de Guttenberg de ficarem juntos normalmente são chatinhas, mas sempre achei que funcionam muito bem juntos, com Maggie sendo decidida e Jim sendo nerd). Só é difícil tirar da boca esse gosto de “convencional”, já que desde o início sabíamos da inevitável fusão amorosa entre ambos e Sorkin não conseguiu tirar da cartola nada muito impactante nesse quesito.

Por outro lado, ele traz à tona o debate de nivel ionosférico em dois momentos: quando Don entrevista uma vítima de estupro e quando Will conversa com seu colega de “não agache para pegar o sabonete”. O primeiro é um daqueles raros casos na TV onde duas personagens apresentam argumentos convincentes e se articulam de forma minimamente humana, trazendo à tona uma série de questões, ideias e pontos de vista que, ao invés de comunicarem ao público quem venceu e terminar por ali mesmo, deixam tudo ecoando na cabeça do espectador. O segundo é quando Will admite não se sentir inferiorizado pela inteligência de Mac (algo que remete lááááá ao piloto quando ele falou “aspirávamos à inteligência ao invés de depreciá-la. Ela não nos fazia sentir inferiores“) e se coloca acima de algumas outras pessoas – não pessoas de classe mais baixa, renda mais baixa ou nível intelectual mais baixo, mas sim as pessoas que têm medo da inteligência e a tratam como um defeito, ao invés de uma qualidade.

E também traz à tona o debate de um lado só, expressado na cena em que Sloan vilipendia o sujeito da TI e dá um socão na cara do culto às celebridades, da invasão de privacidade e da internet lavando as mãos e dizendo “são os usuários que estão fazendo isso”. O que, acredito eu, leva a uma discussão que engrandece ainda mais o papel de The Newsroom.

Reviews de sites como Entertainment Weekly, Indiewire e PasteMagazine mostram que eles odeiam The Newsroom. Mas assim, odeiam de babar e provavelmente apelar para o capslockismo desenfreado em alguma discussão – e não parece ser pelas falhas que a série apresenta, e sim por alguns motivos mais capciosos, ja que as reclamações em geral envolvem Sorkin criticando a internet e o jornalismo por cliques, personagens sendo arrogantes e o eventual didatismo do show (não em forma, mas em conteúdo).

Como há uma incapacidade geral de aceitar a série como um ponto crítico, uma reflexão, e não um mantra, a hipótese provável é que essa turma simplesmente fica ofendida por Sorkin ter dito que o jornalismo deles é pior e está retrucando. Há também uma incapacidade geral de encarar o universo de The Newsroom como fictício (e ele é um universo claramente absurdo), onde as personagens são mais do que vozes para argumentos. Ora, o próprio Neal defendeu diversas vezes a liberdade e colaboração da internet, enquanto que, do outro lado, os tweets foram um dos pontos que os levaram ao fracasso bíblico de Genoa, sem contar a caça às bruxas após a maratona de Boston. Há uma prerrogativa dramática para que as personagens sintam-se dessa forma, e ainda assim a série trouxe Hallie para a discussão e a colocou de igual para igual com Jim.

Mais preocupante do que isso é a aparente necessidade de que um show de TV seja uma bússola moral para o público, não podendo possuir personagens arrogantes (alô, é o Walter de Breaking Bad?) e nem falíveis (e olha, a quantidade de vezes que eles deram com os burros na água em The Newsroom é bem alta). O debate entre Don e Mary sobre estupro é bastante rico, e sim, eu acredito que Don tomou a decisão errada ao não querer que ela participase do show, mas ele mesmo já mostrou comportamento machista na época que namorava Maggie. Não é algo inédito ao sujeito. Por que a série precisa provocar a reflexão diretamente? Por que a “falha” de uma das personagens mais racionais e inteligentes da série não é o suficiente para mostrar o tamanho do problema em questão? Ou, caso você concorde com a atitude dele, por que ele hesitou tanto na conversa? É uma cena que se propõe a argumentar sobre questões relacionadas àquele tópico, e não dar uma lição de moral. Se propõe a refletir, mas não encontra eco em reviews que assumem que Sorkin quer silenciar as vítimas de estupro (sério, li isso).

Fico receoso que essa falta de reflexão se espalhe pelos demais formadores de opinião. Personagens como o Walter White são sensacionais e incrivelmente complexos, mas será que aceitamos suas falhas porque estamos muito longe de ser como ele? Será que as pessoas não conseguem ver os problemas de Don, Jim, Will e cia porque, pelas outras características que apresentam, elas podem se identificar mais com tais pessoas e até querem ser como elas? A um passo de seu último episódio de falas rápidas e humor sagaz, The Newsroom parece mais necessária do que nunca.

3star

3 respostas para “Crítica | The Newsroom 3×05: Oh Shenandoah”

  1. Guilherme disse:

    Eu simplismente n acredito que tem só mais um episódio.. A série tem sim seus momentos q vc tem q se esforçar pra acreditar na possibilidade do q está sendo falado… Mas só q a série é sensacional com diálogos incriveis.. Eu fico abismado q newsroom só vai ter 3 temporadas e true blood teve 7 ou grays anatomy ta na milionésima.. O público gosta de coisa fácil mesmo.. Vou sentir falta de newsroom.

  2. Vandre Gamonal disse:

    Ponto alto do episódio foi a “conversa” entre o Will e o companheiro de cela que ao final do episódio se revela uma auto-análise sobre a relação dele com o próprio pai.

  3. Um Estranho Estranho disse:

    Entendo o questionamento sobre a falta de aprofundamento da mudança de postura de Charlie, mas mesmo durante o episódio entendi o problema moral que ele estava passando e as suas atitudes. O episódio talvez tenha pecado em dar esse salto de quase dois meses, sem apresentar ao menos uma cena de uns três minutos para entendermos melhor de que forma a venda do canal afetou a todos, ficando restrito aquela cena do novo slogan. Mas Charlie deixa claro, através de suas atitudes, que esta tentando tirar o melhor da situação em que foi colocado. E ele tinha dois grandes problemas, primeiro ele já estava muito velho, então dificilmente ele conseguiria uma colocação em outra emissora (mesmo que Will coloca-se isso como imposição contratual, pois como ele mesmo descobriu não era tão poderoso assim) e, segundo e mais importante, ele estava tentando manter aquele programação jornalistica no ar, mesmo que para isso fosse preciso fazer concessões, afinal não era uma questão que afetava só a ele, que como paizão, lutava pelos seus, tanto que ele falou para o Pruit que, por questão contratual, apenas ele poderia despedir alguém. Enquanto que no episódio anterior mostrou-se solução fáceis para os problemas, aqui vimos o quanto é difícil ter que lidar com o mundo corporativista (e no caso do Pruit, egocêntrico). Parabéns pela critica e que venha o ultimo episódio e com ele um box fodástico, que comprarei no lançamento com certeza.

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